LIMBO E O MORNO HÁLITO DOS DIAS EM CAIO FERNANDO ABREU



Limbo e o morno hálito dos dias – a temporalidade como ruptura do tédio existencial em Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu[1]


Ricardo Timm de Souza

“Parada na porta do apartamento, a filha
no colo, Dulce parecia ter medo
                                   de entrar em casa. E encontrar – o quê?”
Onde andará Dulce Veiga?, p. 131.

I.        

É possível que um romance inteiro, em toda a sua trama, em seu decorrer particular e em sua tessitura, dê continuamente expressão ao mormaço, ao ar abafado que emana de uma terra superpovoada, de uma mente superpovoada, dos desencontros inexplícitos dos dias que se sucedem, o respirar da tautologia? Caio Fernando Abreu nos prova que sim, com seu Onde andará Dulce Veiga? – Um romance B[2]. Espasmos lentos, intensidades moderadas porém estranhamente presentes em seu revestimento de desencanto, uma certa irreversibilidade não totalmente inelutável porém intensamente real, o sonho reduzido a um minimalismo onírico, o cimento quente invadindo cada fresta da escrita, uma baixa energética que perdura por entre os parágrafos, e constitui a sua força: o talento não posto à disposição de brilhos fugazes, mas do estranho vácuo que se cria quando aos personagens a clareza dos dias já ficou para trás e a sobrevivência tira apenas de si mesma a força para prosseguir. Pequenos delírios, pequenos demais para ainda serem delírios, ainda assim sobreviventes, o narrador que se recolhe a si mesmo quando não há nada a dizer. A distância mantida nas proximidades, um excesso de cheiros, cores e sons que não são mais que fantasmas de si mesmos, o talento de lidar com tudo isso, com o hálito morno dos dias que se desdobram, que seguem, que se enrolam em torno a si mesmos como cobras preguiçosas, uma solidão que não se espelha em seus próprios estertores, mas perdura; a voz da margem, estranho hino ao desencanto: eis Onde andará Dulce Veiga?.
E, não obstante, percebe-se neste livro um movimento lento e inexorável de emancipação de dimensões vitais acobertadas pelo tédio existencial, pelo desencanto do fluir de dias vazios, uma reintrodução de dimensões latentes de vitalidade filosófica, onde a tautologia – ainda que a tautologia existencial da saturação – não tem a última palavra. Em suma, um movimento filosófico em direção à renovação de dimensões interpretativas da realidade, após a obliteração interpretativa que o desencanto existencial gerou no narrador. Um livro, como todo grande livro, não apenas literário, mas visceralmente filosófico – se por “filosófico” entendemos mais do que escolas e autores aos quais este adjetivo costuma ser aplicado.
Não há neste nosso pequeno texto nenhuma pretensão de esquartejamento desse notável livro, talvez apenas a pretensão de aproximar-se do diapasão no qual esse texto vibra, um modesto tributo a um grande escritor em sua melhor forma, em sua forma de ponta, para além dos estilos e das classificações. E também há, sim, a pretensão da leitura das iridescências: as cores sem nome também são cores. Onde andará Dulce Veiga? é um livro colorido, de cores contemporâneas, quase contemporâneas demais; esse é o seu mote. Um livro estranhamente vivo, ou melhor, vivo de forma estranha, como um coração fora do corpo, nos limites do tolerável sem fingir estar apenas nos limites do aprazível; névoas que se condensam e se desfazem, a solidez abjeta que se transforma na mais pura das miragens, sugestões que se sucedem sem se importarem com o fato de serem, ao fim de contas, apenas sugestões – e esboços de linguagem que são uma linguagem mesma, uma linguagem vigorosa que não tolera molduras mas configura um estilo – ou a convivência explícita e não pacífica de muitos estilos, na firme descrença da artificialidade. Estamos à beira da sufocação, mas ainda não chegamos nela; invertemos a ordem dos fatores e isso, de certo modo, preservou o produto. Os cruzamentos são inverossímeis – como os estertores são improváveis – e, exatamente por isso, todavia vivos, possuídos de uma vida que não se encontra nos tratados de biologia nem, inversamente, nas evocações dos necrológios: limbo.

II.

Mas, se há a possibilidade de leitura filosófica deste texto, qual poderia ser a categoria de referência para esta leitura, a categoria que poderíamos privilegiar para acompanhar, nos entremeios do ritmo literário, o ritmo filosófico que dele dimana e que poderia servir de chave interpretativa principal? Entre outras, nos aparece com especial significação a categoria da temporalidade. Temporalidade entendida não como uma palavra semi-vazia ou um recurso de retórica, mas como base e corpo da realidade humana, na esteira de uma série de filósofos contemporâneos, de Husserl, Bergson e Rosenzweig a Adorno, Derrida e Levinas, entre muitos outros que nos acompanham na maioria de nossos trabalhos na área da filosofia, da literatura e da arte em geral[3]; temporalidade que pode ser pressentida na aparentemente estranha frase de Rosenzweig – “ninguém inicia uma guerra pelo tratado de paz” e que indica um transcorrer eminente que nenhum conceito é capaz seja de fixar, seja de explicar, mas que é fonte de todo conceito e de todo pensamento que se pretenda filosófico, ou seja, que não abdica frente à renovação constante dos desafios que a realidade lhe propõe.
Nossa tese é que, ao longo deste livro de Caio Fernando Abreu, é possível pressentir uma remobilização das energias temporais, de lançamento ao futuro, desde a emergência de situações onde a saturação é máxima, pela inversão da névoa que a linguagem traduz – a especial linguagem que constitui o mais profundo deste texto – em núcleos de sentido interpretativo muito especiais, radicalmente abertos, desencontrados de lógicas lineares e causalidades obsessivas. A inércia se transforma, delicada e paulatinamente, por uma reiterada remobilização energética, em motivação para a superação de seus constitutivos esterilizantes da realidade, de seu desencanto depressivo. As esquinas da vida, com suas pequenas surpresas, surpreendem o luto patológico de grandes esperanças esvaídas, pela reinvenção do sentido do tempo – ou, poderíamos dizer, abusando algo de figuras de linguagem, pela reinvenção temporal da idéia de sentido.

III.

Eu deveria cantar. Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a igreja da Consolação, rezar um Pai Nosso, uma Ave Maria e uma Glória ao Pai... Agradecer, pedir luz, como nos tempos em que tinha fé. (...) E não tomei nenhuma dessas atitudes... sem juiz nem platéia, sem close nem zoom, fiquei ali parado no começo da tarde escaldante de fevereiro, olhando o telefone que acabara de desligar(...) Acontecera um milagre (...) Chamava-se – um emprego[4].
Um emprego medíocre, um tropeço na lógica dos dias iguais e da depressão renovada – mas um emprego – um emprego de repórter num jornalzinho. “Mas eu tinha que ficar contente (...) Afinal, aquele podia ser o primeiro passo para emergir do pântano de depressão e autopiedade onde refocilava há quase um ano. Gostei tanto da expressão pântano-de-depressão-&-etc. que quase procurei papel para anotá-la”[5].
Quase. Quase energia, quase vontade, quase mudança, quase vida – na “penumbra gosmenta do meio-dia”[6], só há lugar para quases: a essência quasificada dessa escrita. “Coloquei água para fazer café, cogumelos branquicentos cresciam na umidade da cozinha. Simpáticos, até meio bucólicos”[7]. Também o escuro da umidade pode ser bucólico, ou quase bucólico: as sombras têm sua vida própria, seu mundo úmido e secreto. Cogumelos brotam no inerte, mas o inerte tem vida: é sua inércia. Uma pequena pulsação que, em contraste com acontecimentos históricos que explodiram com todos os sismógrafos históricos, escapam a qualquer sismologia ou sismografia: são insignificantes demais. Apenas existem.
“O resto do último sabonete escorregou entre meus dedos. Era tão pequeno que desapareceu pelo ralo”[8]. Qual o destino do pequeno, senão desaparecer pelo ralo?

IV.

Castilhos bateu no ar com um de seus cigarros. Desde que eu o conhecia, há uns vinte anos, fumava três ou quatro ao mesmo tempo. Alguns equilibravam-se na beira da mesa... outros espalhavam-se pelos cinzeiros perdidos entre pilhas de laudas, fotos, clips, pastas, envelopes, copos de plástico, adoçante artificial, tubos de cola, rolos de dinheiro, bilhete de loteria, blocos, lápis, canetas, restos de sanduíche, latas de coca-cola dietética e um boi nordestino de cerâmica que eu conhecia de outras redações. Por trás dele, o ventilador soprou cinzas contra meus olhos[9].
Presença excessiva, repleção descoordenada, frenetismo estático: a vida resumida em objetos e restos que orbitam em torno a si mesmos, que simbolizam infinitas sensações, sensações demais para um espaço tão pequeno, objetos e restos que acabam cada um por si, falando sua própria linguagem. Indícios de muito, perdidos em sua silhueta inútil, indícios de nada. Um boi perdido, uma lembrança materializada, na moldura do efêmero que perdura. Cinzas nos olhos, visão que se pulveriza, a irritação tolerável do excesso, a convivência com a ocupação dos espaços, de todos os espaços, inclusive os da memória: “Aquele cinzeiro, também achava que conhecia. Velhas redações, outros tempos”[10]. Fúria concentrada num ponto só, inepta e inoperante, incapaz de explodir a lógica dos dias, esgotada em si mesma: “Castilhos mexeu nas fotos, separou uma mulata de fio-dental e botas brancas, juntou-as com um clip a uma lauda tão furiosamente rasurada que as correções tinham furado o papel”[11].
O erotismo explosivo – “ – Que coxas, hein, meu? Olhei para ele sem entender. Pelo que sabia, gostava das magras espirituais, tipo Audrey Hepburn. No máximo, Deborah Kerr. Das mais recentes, talvez Michelle Pfeiffer. Jamais mulatas de botas brancas”[12]. A espiritualidade das magras espirituais se inverte em carne, carne de papel, uma figura em duas dimensões. Um espasmo bidimensional.
O frenetismo explosivo – “ – Perfeito – eu disse. Tinha esquecido que conversar com ele era sempre assim. Dois ou três temas cruzados, entrecortados por suspiros, tosses, roncos, telefonemas, cigarros e berros. Cortes bruscos, retomadas e contra-temas, sem nenhuma introdução tipo como-eu-ia-dizendo ou coisa assim”[13]. Gritos em ultima análise mudos, aparências de energia, dilaceramentos invisíveis, rotação em torno ao próprio eixo.
A agressividade explosiva – “ – Que tem de estranho, só por causa do nome? São os tempos, que se há de fazer? Agora eles se chamam Ratos Escrotos, Vermes Imundos, Bichos Nojentos, coisas assim. (...) Grupo não, banda. É assim que eles dizem agora. Teve outro, As Lesmas. Apareceu também um Belzebu e os Querubins Invertidos. São os tempos, que se há de fazer?”[14].
O patético da emoção inexistente, de seus arremedos formais e sub-reptícios, em uma redoma de asfixia – “Eu sorri. Quer dizer, contraí os músculos da face para mostrar os dentes (...) Perto de Castilhos, nunca se sabia ao certo quando as coisas paravam de ser divertidas e começavam a tornar-se patéticas, folclóricas ou vagamente ameaçadoras... A cidade parecia metida dentro de uma cúpula de vidro embaçada de vapor. Fumaça, hálitos, suor evaporado, monóxido, vírus”[15].

V.

A sinfonia do caos, a estranha beleza do atrito e do contraste, o horror mudo, o grito que irrompe dos sons – no meio do trote das incoerências e novidades, a destilação concêntrica do tragicômico:
Do fundo, vinha uma gritaria infernal. Um assassinato, uma tourada, festa de criança ou estupro. It’s only rock and roll, pensei, elas devem estar ensaiando (...) Eu estava ficando velho. E mal humorado. Baixei os olhos, comecei a desenhar círculos concêntricos nas costas do papel... Miranda, enumerei, Cárpatos, Passo do Guanxuma. Tudo tão longe, tudo ficção. Embaixo dos círculos concêntricos escrevi: ‘Tudo gira ao seu redor’ (...) Até encontrar um táxi, passei por dois anões, um corcunda, três cegos, quatro mancos, um homem-tronco, outro maneta, mais um enrolado em trapos como um leproso, uma negra sangrando, um velho de muletas, duas gêmeas mongolóides, de braço dado, e tantos mendigos que não consegui contar. A cenografia eram sacos de lixo com cheiro doce, moscas esvoaçando, crianças em volta”[16].
Gritos: a realidade pura da paisagem. A paisagem: gritos mudos, voltados apenas para dentro de si mesmos. A procissão que não vai a lugar nenhum. Estranha dialética concreta, que não precisa de nada senão de si mesma para se auto-compreender na promessa da pureza infinitamente distante:
Na esquina estava um homem vestido com um macacão alpino, de chapeuzinho verde, tocando realejo para um periquito desses que tiram a sorte. Parei. O homem fez o periquito bicar três vezes o papelzinho dobrado antes de estendê-lo para mim. Estava escrito: ‘o hábito de trabalhar proporcionar-te-á todas as comodidades da vida: aprende a ser feliz em um honesto viver, desejas notícias que serás surpreendido com uma fortuna de que viverás feliz, eis o que teu signo diz’[17].

VI.

A grande cantora Dulce Veiga, outrora famosa, vaga habitante das lembranças do narrador, desapareceu. “- Não, ela não morreu. Ela desapareceu um dia de repente, faz muitos anos. – Como, desapareceu? Ninguém some assim, sem mais. Márcia mordeu os lábios com força, por muito tempo... parecia irritada. – Desapareceu, porra – e estendeu uma das mãos fechadas até muito perto do meu rosto. Achei que ia me esbofetear, feito filme. Mas abriu a mão no ar, na ponta do meu nariz, estalando os lábios: - Puf! Foi assim, sumiu, bem assim. Eu era quase um bebê. Foi há vinte anos. (...) Eu disse: conheci sua mãe”[18]. Esse desaparecimento, porém, não significa que não seja reconhecida ao longe, e esse reconhecido não significa a tangibilidade – “Vai cair tempestade, pensei... Da sacada de um edifício, alguém gritou: - Eparrê, eparrê-i, Iansã! Foi nesse momento que a vi. Numa das esquinas em frente ao parque, no meio da ventania, embaixo da quaresmeira coberta de flores roxas, estava parada Dulce Veiga... Soprados pelo vento, a única coisa que se movia no corpo dela eram os cabelos (...) No mesmo instante, um raio de prata caiu entre as árvores do parque. Fechei os olhos, ofuscado. Ao abri-los... Dulce Veiga não estava mais lá”[19]. Desaparição da imagem, quase desaparição da memória. Desencanto em meio a um meteorológico e mágico raio de prata. Mas estranho indício do inusitado.

VII.

Fragmento de sonho, fragmento do passado, fragmento de realidade. Materialização que é presença, delicada nostalgia, fatos suaves, mutuamente interpenetrantes, temperados pela distância, vivendo com a distância, apesar da distância e por causa da distância: palpabilidade remota, o provável, o possível e o real brincando entre si, brincando de esconder, revezando-se, conjugando-se, estranha constelação de sentimentos, resquício do tempo em que se tinham sonhos: “A primeira vez que vi Dulce Veiga, e foram apenas duas, ela estava sentada numa poltrona de veludo verde... Por alguma razão, até hoje, ao pensar nela, penso também inevitavelmente num filme qualquer, em preto e branco, da década de 40 ou começo dos 50... devo ter sentido a presença de alguém, algo como uma respiração arfante, um perfume adocicado de jasmim, dama da noite, manacá ou outra dessas flores assim antigas, excessivamente perfumadas... as sombras caídas sobre a poltrona e seus cabelos louros não permitiam que eu visse o rosto dela... Tudo isso que agora parece clichê banal, naquele tempo – repito e não me canso, porque é belo e mágico na sua melancolia: naquele tempo – tudo era novo, eu nem suspeitava das marcas pelo caminho... Fiquei parado no escuro, até começar a perceber algumas formas mais definidas pelos cantos... Devo... ter feito um movimento para acender a luz da sala... de repente, uma voz densa, uma voz que só inúmeros conhaques, cigarros e cafés poderiam ter deixado assim, uma voz de veludo verde, espesso como o da poltrona, brotou no meio das sombras para pedir, numa lamúria: - Não acenda, por favor. Está bem assim”[20]. Voz cava, lamúria que é mistério, presença que é penumbra, presença sentida, espessura suave, sem agressividade – Dulce Veiga existia apesar de seus contornos vagos, de sua materialização precária, de sua improbabilidade. O tempo da materialização, o tempo da retina acostumando-se à obscuridade. Uma vibração densa, pacífica. A realidade das profundezas, dos abismos de um outro universo, onde as coisas se dão, murmuram, testemunham a si mesmas, prestam contas de sua densidade, que só por isso já é suficientemente mágica. Veludo verde: suavidade consistente, por si só velado convite ao toque, ao toque tímido, o respeito intrínseco ao que tem vida própria, ao que subsiste. Perfumes exagerados, ar excessivamente perfumado, ar que é ele mesmo perfume, perfume antigo, respiração antiga – penetração no impenetrável. Existência aureolada apenas por si mesma, pelo tempo em que se sonhava, em que se vivia a mais antiga das nostalgias da memória, e essa estava ao alcance da mão. Luminosidade obscura, lenta pulsação do vivo, estranha e sólida promessa de beleza. “Era quase noite quando parou de chover... vi um arco-íris. Um arco-íris esmaecido, meio invisível (...) a primeira estrela... Força e fé, que havia perdido, eu pedi”[21].

VIII.

O contraponto: o cimento úmido, a solidez do cinza – “Era um edifício doente, contaminado, quase terminal. Mas continuava no mesmo lugar, ainda não tinha desmoronado”[22]. A dialética do mesmo e do ambíguo através dos andares, num todo inescapável:
No primeiro, cebola frita, feijão, mijo de gato, moravam as velhinhas tão idênticas com suas saias pretas e guarda-chuvas que eu nunca soubera quantas seriam, mas no mínimo uma meia-dúzia... no segundo andar, afundei naquele cheiro de suor de academia de ginástica, água de colônia barata e preservativos usados... meu andar cheirava sempre a defumação... Cheiro de igreja. Místico, enjoativo. Pelas frestas da porta do apartamento ao lado, principalmente às sextas-feiras, escapavam colunas acinzentadas de fumaça doce, transformando o corredor num túnel nevoento, litúrgico. Era o apartamento de minha vizinha Jandira. (...) – Você viu o Jacyr por aí?... – Ele saiu antes da chuva, Iansã anda furiosa. Não voltou até agora – ela olhou para mim mais atenta, e meio vesga, como sempre ficava quando começava a ver coisas...”[23]. Os degraus da existência, dos dias pesados, cansados de si mesmos, repletos demais, pequenas lógicas desenhando esboços de vida, pequenos recônditos secretos, místicos, pequenas afetividades sussurrantes – o peso dos dias. “Fui entrando, a carta palpitava no chão. Ela me deteve: - Me procura amanhã. Você precisa jogar os búzios. Oxum está pedindo[24].

IX.

Onde estás, realidade? Em que mares da existência tu te escondes? O quanto é preciso sentir, sofrer, viver, para chegar até ela, ou para que ela chegue até nós? “Peguei a carta no chão, olhei o remetente. Era Lídia, provavelmente falando outra vez de todas aquelas igrejas coloniais... montanhas e vacas de Diamantina, Sabará ou Mariana. De como ela finalmente tinha descoberto a paz & o equilíbrio & do quanto estava feliz por cair fora de São Paulo & o que afinal eu continuava procurando nesta cidade poluída, maligna & amaldiçoada? O real, respondi mentalmente”[25]. Mas o real pesa, parte as energias em infinitos pedaços, nos atira de volta a nós mesmos. Perdura sem durar, permanece preso a si mesmo, às cadeias que não são outras que não as suas. O tempo perdura, carregado de fragmentos de si mesmo e de outros tempos, de coisas e lembranças, de inércia, manutenção estranha da vida na semi-vida do cansaço, as pequenas afabilidades impotentes irrompendo no bloco das lembranças e das nostalgias, do peso infinito do respirar – “Era Jandira, um copo de leite e uma fatia de bolo num prato... – Fica com Deus – ela disse. Amém Jesus, eu devia dizer. Mas não disse nada.”[26]. Cansaço. “... e não – eu não queria mesmo nada além de ficar ali, exausto e nu, jogado no sofá molhado pela chuva... ”[27].

X.

O claro-escuro e seus jogos, como se somente ele não bastasse; o que é o mundo senão uma interminável sinfonia de ambigüidades, a luta contra o ofuscamento do excesso e o vácuo da falta? Muita luz, e sombras que fazem sombra a outras sombras. Reflexos carregados, metálicos: a realidade entrevista entre suas sombras e luzes.
Por trás das lentes escuras dos óculos, contra a luminosidade do sol das duas da tarde, enquadrada pelo retângulo da porta do edifício, cortada pelo reflexo na lataria dos automóveis lá fora, do fundo do corredor onde eu estava pensei primeiro que a silhueta era de mulher. Alguma freguesa dos búzios de Jandira... ou cliente dos rapazes do segundo andar... Eu estava enganado. Botas brancas até o joelho, minissaia de couro, cabelos presos no alto da cabeça, pulseiras tilintando... – era Jacyr. (...) Eu disse: - A sua mãe está preocupada. Você sumiu, Jacyr... – Que se dane. E não me chame mais de Jacyr, agora sou Jacyra. Em vez de suspirar, peguei um cigarro[28].
Cintilação de pulseiras e latarias, silhuetas à procura de seu desenho, alarmas de carros, o mundo se constrói e se reconstrói de recortes, é o conjunto desses recortes que se solidificam e diluem continuamente, na metamorfose que dura apenas tanto tempo quanto a ofuscação. A luz do ambíguo e a flutuação do variável: hesitações. O macio inelutável, a vibração insinuante das metamorfoses; com tudo isso nós nos temos que ver, sem que ao menos tenhamos provocado o mundo. O caleidoscópio das horas: como sobreviver a ele?

XI.

“-... Dulce, onde está Dulce Veiga? – E eu sei lá? Segundo a filha, ela desapareceu faz uns vinte anos. – Vinte, vinte anos – ele suspirou entrecortado, como se doesse... Sua voz era inconsolável: Vinte, vinte anos”[29]. Dulce Veiga, a cantora com voz de veludo verde, de presença estranhamente irradiante, o repositório de sonhos adolescentes e de mistério, desaparecera há muito tempo. Apenas sua lembrança vagava nas memórias, lembranças traídas pelo desconsolo de, simplesmente, não serem suficientes. Dulce Veiga desapareceu, com tudo o que representava, cedo demais. “Dulce Veiga, a melhor de todas. A mais elegante, a mais dramática, a mais misteriosa e abençoada com aquela voz rouca que conseguia dar voz a qualquer sentimento, desde que fosse profundo. E doloroso, Dulce Veiga cantava a dor de estar vivo e não haver remédio nenhum para isso. E era linda, tão linda...”[30].

XII.

Tão difícil, ou tão inútil, pode ser o resgate da memória. O repórter deve escrever uma crônica sobre Dulce Veiga e seu desaparecimento. Mas “...tudo o que eu lembrava era vago, quase incontável. Datilografei um inevitável qwertyuiop. Amassei a lauda, joguei no lixo. Acendi um cigarro. Passei a ponta dos dedos pelo rosto de Márcia na capa do disco, o tal caminho para a morada da luz, onde andaria?”[31] Dulce Veiga, a quem hoje chamariam de cult – “... apresentava-se em boates pequenas, mais ou menos requintadas, no centro da cidade, gravara um ou dois discos, fizera pequenos papéis no cinema...”[32], desaparecera completamente na noite de estréia do show que deveria selar sua consagração.

XIII.

A reconstrução do passado – por ela passam e vêm coisas que o passado nem sabia que lhe pertencia. Escolher uma fotografia de Dulce Veiga para ilustrar a matéria – uma entre outras “sedutoras, artificiais, sombrias, extravagantes”[33]. “Escolhi: contra um fundo claro infinito, os ombros nus, Dulce Veiga jogava para trás os cabelos louros, como Rita Hayworth em Gilda, sorrindo”[34].
Mais tarde, ao cair da noite, um vulto levemente destacável no lusco-fusco, nas horas indecisas e impróprias para a nitidez, reaparece; a visão tão sólida, tão integrada ao coloquial da paisagem – “Suspeitei que fosse ela. E tive certeza quando, compassada e leve como se dançasse, passou o guarda-chuva fechado para a mão esquerda e levantou o braço direito para o alto, o indicador estendido em direção ao céu, no mesmo gesto daquela mesma hora da tarde anterior (...) gritei seu nome, ela não olhou para trás (...) Tornei a gritar, ela seguiu em frente”[35]. Dulce Veiga indica o céu, aponta o alto.

XIV.

A vida segue. “Tirei a roupa, joguei-a no chão. Mais uma calça, uma camisa. Outra cueca, outro dia, não fazia diferença. Tudo apenas sujeira que se acumulava... (...) mas o pior, o pior não seria nunca a morte real, o nada e o nunca, pior era não lembrar, não poder ou não querer lembrar, como eu não lembrava da segunda e última vez que vira Dulce Veiga, como quem tenta matar memórias indesejáveis... Tudo aquilo que eu esquecia ou negava, soube vagamente em plena queda, era o que eu mais era. Virei de bruços, nu”[36]. Márcia Felácio e as Vaginas Dentadas cantam:

                        “O passado é uma cilada,
                        não há presente nem nada,
                        o futuro está demente:
                        estamos todos contaminados”[37]

XV.


O Tempo é um orixá tão poderoso que não
existe cavalo capaz de suportar o peso dele. Por
isso não encarna, só ronda
Jandira, a Mãe-de-Santo de
Onde andará Dulce Veiga?

Dulce Veiga precisava ser encontrada – “Dulce Veiga, eu tinha que encontrar Dulce Veiga”[38] – não só porque o dono do jornal assim o desejava, mas porque muita gente precisava dela: “Em cima da minha mesa havia montes de telegramas... Eram todos de antigos fãs de Dulce Veiga – muitos mais que eu poderia imaginar – elogiando a crônica, pedindo mais notícias sobre ela”[39]. E mais uma vez ela se materializa, na forma de uma mendiga – “no alto do viaduto, a mendiga depositou o saco de papel no chão. Depois, com as duas mãos livres, num gesto elegante demais para ela, tirou o capuz... Estendeu o braço direito para o alto, o indicador esticado apontando o céu, e voltou o rosto para mim. Mesmo imundo, o nariz corroído pela sarna, o rosto ainda guardava restos da antiga beleza. Eu grite: - Dulce, espere por mim, Dulce Veiga. (...) Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ela pulou do viaduto... Atravessei correndo, debrucei na amurada, olhei para baixo... Não havia ninguém na rua. Nenhum sinal de sangue ou de gente. Viva ou morta, real ou imaginária”[40] – Dulce Veiga insiste em não desaparecer totalmente.

XVI.

Mas Dulce Veiga quisera sempre desaparecer. Também o jornalista sente essa necessidade. “Os velhos amigos... não, eu não queria ver nenhum deles. Eu não queria nada, eu não queria ninguém. Como Dulce Veiga eu queria era encontrar – outra coisa”[41]. Mas Dulce Veiga aparentemente se refugiara em um lugar improvável, um cortiço sórdido – “Levei a mão ao trinco... contei mentalmente até três. Abaixei o trinco e, sem ruído, abri a porta. De costas para nós, no centro do quarto estava uma poltrona de veludo verde. Caída no alto da poltrona, inclinada para fora de uma daquelas abas na altura de quem está sentado, havia uma cabeça loura de mulher...E na altura do cotovelo, acima das unhas vermelhas, do pulso seco, latejava uma veia”[42] – na qual Márcia, a filha de Dulce Veiga, injetava a droga.
Não era Dulce Veiga, mas seu antigo companheiro Saul, o comunista a quem o DOPS alcançara, muitos anos atrás, agora travestido de sua querida. “A mulher com cara de índia estava parada ao lado da poltrona verde. Embalava a criança num dos braços, enquanto passava a outra mão na testa lívida de Saul. Você está linda, Dulce Veiga, dizia, em toda a minha vida nunca vi a senhora tão bonita como hoje. Feito um rastro prateado de lesma, da boca de Saul a baba continuava escorrendo sobre a seda azul do vestido”[43].

XVII.

Dulce Veiga materializa-se de novo, desta vez no Rio de Janeiro, no calor de um dia violentamente normal – “Eu corri. Seqüestro, gritavam, assalto, pegaram os traficantes. Um vendedor fechou o trailer, cocos verdes rolaram pela calçada, pisei num, quase caí, continuei correndo, as palmas das mãos esfoladas, ouvi mais tiros, uma mulher passou chorando. Quando percebi, estava dentro da praça que dava para o Arpoador... a praça estava mais calma. Meio tonto com a vodca e a correria, fui andando em direção às grades verdes que separavam a praça do mar. E sobre as pedras do Arpoador, toda vestida de branco, os cabelos louros e o vestido esvoaçando na brisa da tardezinha, recortada contra a noite que vinha chegando do outro lado do mar, estava parada Dulce Veiga. Segurei as grades, feito um prisioneiro. Ela ergueu o braço direito, a mão estava meio fechada. Quando o braço ficou completamente esticado, ela abriu a mão e soltou um pombo branco. As asas do pombo refletiram por um segundo os raios de sol... depois sumiu no azul, entre as gaivotas”[44]. Mas também essa não passava de uma visão, recortada no infinito do horizonte.

XVIII.

“Como naquele dia, chamei: - Saul. Ele gritou. Não era um grito, mas um grunhido, um ronco sem forma, como se a dor não encontrasse palavras. Lembrei então da tática de Iracema: - Dulce, Dulce Veiga. Ele sorriu. Os dentes escuros, manchados de cigarro, roídos de cáries. - Onde está Dulce Veiga? Ele tornou a gritar, a gemer sem palavras, mas não parecia ter medo de mim. Passei a mão por sua cabeça, os fios muito curtos espetavam as palmas esfoladas de minhas mãos. Ele parou de arranhar o ferro da cama, torceu uma ponta do robe. Lembrava um gato sarnento, escorraçado, igual a um que eu vira certa vez, depois de atropelado, arrastando as vísceras pela sarjeta sem poder morrer. Eu não sabia que linguagem usar com ele, eu não conhecia aquilo, nunca estivera naquele lado das coisas. E voltei a falar em voz mansa, baixa, tola: - Dulce, Dulce Veiga, lembra dela? Eu gostava tanto de você, você também gostava dela. Eu também gosto de você, eu também gostava dela. Onde ela foi parar? Como num eco, Saul repetiu:
- Onde, onde ela foi parar?
Eu continuei:
- Ela morreu?
Ele disse:
- Não, ela não morreu.
Eu perguntei:
- Mas onde, então, onde ela foi parar?
Ele repetiu;
- Onde, onde ela foi parar?
Eu sugeri:
- Muito, muito longe daqui.
Ele confirmou:
- Muito, muito longe daqui.
Eu pedi:
- Me diga onde. Eu vou buscá-la.
Ele sorriu:
- Você vai buscá-la.
Eu prometi:
- Vou, eu vou buscá-la para você.”[45]

XIX.

No diário de Dulce Veiga, uma estrela desenhada; no centro das seis pontas, uma cidade assinalada: Estrela do Norte. Cidade de “pessoas baixas, de cabelos lisos e olhos miúdos, movendo-se em câmara lenta no meio da umidade”, que davam “ a sensação estranha de que eu estava em outro país. Mas no país verdadeiro, como se o falso fosse de onde eu vinha”[46]. Vontade de voltar – “mas eu queria encontrá-la... periferia da periferia na periferia do Brasil, eu fui em frente”[47]. Mas não é fácil, porém, não é fácil manter a esperança – “o homem mais triste do mundo – ele, que era eu, foi andando de cabeça baixa, arrastando a mochila pela terra. Os mosquitos começavam a chegar, invisíveis, inchaços vermelhos coçavam nos meus braços. Eu estava a ponto de sentar numa daquelas calçadas tortas, no meio dos cachorros magros das ruas, enterrar a cabeça nas mãos e chorar e chorar pelo tempo perdido, pela falta de sentido, pela minha derrota”[48].

XX.

“Então ouvi uma voz de mulher... Ao fundo, entre o pianista e a cozinha, estava Dulce Veiga. Ela não fugiu, nem ergueu o braço em direção ao céu. Desta vez, sem parar de cantar, olhou para mim como se me reconhecesse, e indicou a mesa mais próxima com um movimento de cabeça. Eu sentei, eu estava morto de cansaço, tão perto dela que não foi preciso levantar a voz: - Quero falar com você. Dulce Veiga sorriu, afastando da testa os cabelos com muitos fios brancos entre as mechas louras... E continuou cantando novas e velhas canções, algumas desconhecidas. Sua voz criava uma espécie de redoma, que parecia proteger os que estavam em volta”[49].
A esperança se esboça, se solidifica na fluidez das canções. Dulce Veiga, que não morreu, exala conforto, proteção, aproximação. As imagens, filtradas pelas intempéries da vida, se reenfocam, se rearticulam, vinte anos depois as lembranças se reencontram apesar de todas as mudanças, com todas as mudanças. O mundo se reconfigura. “Olhei para cima, um pouco tonto. A noite, o céu imenso demais, o Equador. Vertiginoso, repeti... A lua cheia atrás de uma palmeira, a luz dourada salpicava uma bruma fosforescente na copa das árvores. Ruídos estranhos vinham da mata. Não pareciam mais sinistros, apenas desconhecidos. Vivos, e eu parei de odiar Estrela do Norte”[50]. A grandeza reencontrada; a liberdade de poder contar coisas, “falar de tudo, de todos, tramando dúvidas paranóicas, revelando suspeitas aterradoras, fazendo perguntas delirantes. Ela não respondia. Mal parecia ouvir, caminhando ao meu lado, sandálias nas mãos, cantando baixinho. Às vezes sorria, sem parar de cantar...”[51]. Uma estranha sabedoria emergindo do fundo tempos, materialização de velhas esperanças tão novas.

XXI.

Os infinitos cansaços, o peso dos dias, a desesperança por detrás de cada finitude – tudo vem à tona. O elixir licoroso, o chá que lembrava tangerina, amêndoas, terra molhada, o líquido “pungente”, a massagem desfazendo os infinitos nós do corpo, cada nó da vida, as tensões e os sustos, os medos confessados e inconfessos por trás de si mesmos, tudo inicia um processo de diluição, de reencantamento, um sono desperto – mais desperto que nunca – outros pensamentos que não iam embora, “como se eu fosse ser assassinado no próximo segundo, e eu estava sendo, mas de um outro jeito, apenas de certa forma, docemente, pensei, docemente Dulce”[52]. O contato com o real substitui pouco a pouco o delírio, e assume por sua vez uma impressão delirantemente densa, múltipla, reflexos infindos vindos de muitas partes convergem e se aglutinam sem pedir licença, lembranças, que cortam como facas, se atropelam sem dilacerar – “eu já não sentia as pernas, sem ter certeza se seria realmente a voz dela, aquela voz meio rouca, densa como o veludo verde daquela poltrona que agora parecia remota, perdida num quarto imundo de uma cidade no sul, a voz talvez de minha mãe, ou a mistura de ruídos que chegavam da estrada lá embaixo da colina, da mata além da casa, do rio ao longe, da noite sobre as coisas, ou talvez minha mesmo, minha própria voz vindo de dentro e do fundo do meu cérebro exausto, serenamente e segura, embora parecesse tolo, quase infantil o que dizia, essa voz que eu não sabia mais de quem era, repetiu assim:

XXII.

- São tudo histórias, menino. A história que está sendo contada, cada um a transforma em outra, na história que quiser. Escolha, entre todas, aquela que seu coração mais gostar, e persiga-a até o fim do mundo. Mesmo que ninguém compreenda, como se fosse um combate. Um bom combate, o melhor de todos, o único que vale a pena. O resto é engano, meu filho, é perdição.[53]

XXIII.

Dulce Veiga não quer voltar à cidade grande – é feliz em Estrela do Norte. Uma estranha forma de sabedoria a recobre. Uma estranha aura, que invade os espaços por onde ela anda, onde sua figura se recorta. Um convite ao renascimento: 
A porta para o jardim estava aberta, eu comecei a sair mas, no meio da sala, percebi que meu corpo estava enredado em fios cinzentos, eu quase não podia andar. Toquei neles. Viscosos, nojentos, deixavam uma gosma prateada nas mãos. Cambaleei até o jardim, eu precisava arrancar aqueles fios um a um. Eram teias de aranha, teias tão emaranhadas que levei  muito tempo até conseguir tirá-las todas de mim. Minhas mãos ficaram pegajosas de seus resíduos.
Como sair de um casulo, parecia.
... Abri a camisa. E na luz da lua, na luz que vinha de dentro da casa, da beira da estrada, em outra luz também, vi que havia três fios de cabelo branco no meu peito.
Em volta tudo brilhava. [54]

XXIV.

Lá em cima o céu não era uma tampa fechada sobre a terra, como quase sempre eu via, sepultado vivo. Ele era aberto e sem fim e cheio de mundos e indizível de qualquer outra forma que não fosse essa banal, porque não haveria palavras para ele, o Muito Maior Que Tudo.
Galáxias, buracos negros, supernovas, anãs brancas, pulsares, quasares, constelações, asteróides, cometas, planetas, satélites, anéis, pontos de sombra e luz. Minha cabeça girava, acompanhando o movimento determinante das estrelas sobre meus ombros que suportavam o mundo.
...Para não me perder, abri a boca e os olhos, me enchi de estrelas feito ele.[55]

XXV.

Quando cheguei ao portão, à beira da estrada que fazia uma curva, depois desaparecia no caminho de estrela do Norte, do aeroporto, do sul do Brasil, antes de ir embora, como eu gostava sempre de fazer, ainda olhei mais uma vez para trás.
Toda de branco, Dulce Veiga estava parada na porta da casa, ao lado do cachorro. Uma arara pousou na árvore perto dela. Os primeiros raios de sol faziam brilhar aquela estranha coroa – tiara, diadema – que tinha entre os cabelos louros.
Pisquei, ofuscado. Ela ergueu o braço direito para o céu, a mão fechada, apenas o indicador apontado para o alto, feito seta. Depois gritou qualquer coisa que se esfiapou no ar da manhã.
Parecia meu nome.
Bonito, era meu nome.
E eu comecei a cantar.[56]
Para além. O entrechoque das ondas da realidade, a sucessão das brumas, o mosaico desconjuntado dos dias e das horas: todos grávidos de novos instantes, novas instâncias. A esperança não é a última que morre – porque ela não morre. Para além do Tudo, ela aponta para o alto. Feita de veludo verde e pedaços de memória, cristaliza-se de tal forma que nada a aniquila: basta ser redescoberta. Ela mesma é sua redescoberta. Na hesitação do maciço: ei-la. No desconjunto dos momentos que não perfazem um círculo fechado, é aí que ela habita, estranha pulsação. Desconstrução da tautologia, da totalidade fechada, ela é uma infiltração de cor na vida, vida feita cor – furta-cor. Para além do morno hálito dos dias, Dulce Veiga aponta para o céu: o tempo ainda não acabou.



[1] Originalmente em SOUZA, Ricardo Timm de. –DUARTE, Rodrigo (Orgs.), Filosofia & Literatura, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.
[2] São Paulo, Cia. das Letras, 1997.
[3] Cf. nossos livros Totalidade & Desagregação – sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas (Porto Alegre: Edipucrs, 1996); O tempo e a Máquina do Tempo – ensaios de filosofia e pós-modernidade (Porto Alegre: Edipucrs, 1998); Sujeito, Ética e História – Levinas, o traumatismo infinito e a crítica da filosofia ocidental; (Porto Alegre: Edipucrs, 1999); Existência em Decisão – uma introdução ao pensamento de Franz Rosenzweig (São Paulo: Perspectiva, 1999); Metamorfose e Extinção – sobre Kafka e a patologia do tempo (Caxias do Sul: EDUCS, 2000); Sentido e Alteridade – Dez ensaios sobre o pensamento de E. Levinas (Porto Alegre: Edipucrs, 2000) e Ainda além do medo - filosofia e antropologia do preconceito (Porto Alegre: DaCasa – Palmarinca, 2002), bem como nossos artigos “Tensão e Expressão. Kafka, hermeneuta do tempo patológico”, in: Rodrigo Duarte e Virginia Figueiredo (Orgs.), Mímesis e Expressão, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001, e “O corpo do tempo – um exercício fenomenológico”, in: SOUZA, R. T. – OLIVEIRA, N. F. (Orgs.), Fenomenologia hoje II – significado e Linguagem, Porto Alegre: Edipucrs, 2002, entre outros.
[4] Onde andará Dulce Veiga?, p. 11-12 (doravante OADV).
[5] OADV, p. 12.
[6] OADV, p. 12.
[7] OADV, p. 13.
[8] OADV, p. 14.
[9] OADV, p. 14.
[10] OADV, p. 14.
[11] OADV, p. 14.
[12] OADV, p. 15.
[13] OADV, p. 15.
[14] OADV, p. 15.
[15] OADV, p. 16.
[16] OADV, p. 18-21.
[17] OADV, p. 21-22.
[18] OADV, p. 30.
[19] OADV, p. 31-32.
[20] OADV, p. 33-34.
[21] OADV, p. 35-36.
[22] OADV, p. 37.
[23] OADV, p. 37-39.
[24] OADV, p. 39.
[25] OADV, p. 40.
[26] OADV, p. 41.
[27] OADV, p. 42.
[28] OADV, p. 45.
[29] OADV, p. 48.
[30] OADV, p. 48.
[31] OADV, p. 53.
[32] OADV, p. 55.
[33] OADV, p. 57.
[34] OADV, p. 57.
[35] OADV, p. 61-63.
[36] OADV, p. 68-69
[37] OADV, p. 79.
[38] OADV, p. 119.
[39] OADV, p. 123.
[40] OADV, p. 134-136.
[41] OADV, p. 141-142.
[42] OADV, p. 149.
[43] OADV, p. 157.
[44] OADV, p. 178-179.
[45] OADV, p. 188-189.
[46] OADV, p. 195.
[47] OADV, p. 195.
[48] OADV, p. 198.
[49] OADV, p. 198-199.
[50] OADV, p. 200.
[51] OADV, p. 200.
[52] OADV, p. 203.
[53] OADV, p. 203-204.
[54] OADV, p. 207-208.
[55] OADV, p. 210-211.
[56] OADV, p. 213.

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