KIK



KIK

Ricardo Timm de Souza

I

Kik não possuía inicialmente este nome, e ainda menos esta forma específica. Nascera, de modo súbito e inesperado, além de inteiramente casual, na figura decepcionante de uma mancha de tinta interpondo-se entre duas frases fundamentais (além de contaminar palavras adjacentes) de um importantíssimo contrato que estava, naquele exato instante, sendo celebrado, em local adequado e repleto de funcionários e outros interessados diretos e indiretos no acontecimento, sob a forma de assinaturas cerimoniosas de dois sisudos e importantes cavalheiros, em uma sala, aliás, onde também aguardava, a elegante distância, um séqüito burocrático de elevada representação.
Pois a mancha ali estava. Surgida de um incidente infeliz, talvez catalisada pelo tenso clima daquela ocasião e local tão solenes, não demonstrava nenhuma intenção de desaparecer. Seu surgimento era definitivo; o contrato estava arruinado. Sua uniforme explosão preta, uma nesga de noite esgueirando-se por entre a luminosa clareira de cuidadosas letras, palavras e frases bem alinhadas, arruinara tudo. Seria agora necessário suspender todo o processo, ou seja, suspender o relógio; novo contrato necessitava ser confeccionado, o que demandaria tempo. E tempo era exatamente aquilo de que ninguém ali dispunha. Nada deveria parar, o mundo corre e, não obstante, uma desprezível e não-desejada, suja mancha de tinta, saída, com um feio espasmo, da fina caneta de um dos cavalheiros, arruinara tudo, todos os cronogramas e todas as agendas. O ar entra em suspenso. Um suspiro visceral flui das entranhas do senhor que, involuntariamente, causara aquele tumulto em surdina, aquela hesitação da ordem das coisas. Mas os funcionários, atentos, logo se encarregaram de encaminhar as soluções. Os presentes tivessem a bondade de aguardar uns minutos, que seriam tão poucos como a condição humana e a eficiência funcional permitissem, e logo estariam de volta, com uma nova versão do contrato, e todo o ritual poderia ser reencenado.
“Isto nunca me aconteceu antes” – acabou por dizer o cavalheiro causador involuntário daquele dissabor, e como que falando com sua preciosa caneta causadora de desgraça. “Realizei a manutenção da pena ainda semana passada”, continuou, sem se dar conta de que a verdadeira culpada pelo acontecido não houvera sido a caneta, nem ele havia sido culpado de nada, e sim a feia mancha de tinta que, sem ser ainda uma mancha, fluíra espasmodicamente do orifício da pena, como um jarro de petróleo que jorrasse das entranhas da terra, e se aninhara entre aquelas duas frases distintivamente claras, introduzindo então, naquele papel repleto de idéias límpidas, o sem-sentido.
Ora, nisso nada haveria de especialmente notável, não houvesse se dado, a desafiar as leis do tempo e do espaço, no outro lado do mundo, ao menos do outro lado do mundo que aqueles cavalheiros eram capazes de conceber, um fato que, de tão semelhante, poderia ser considerado uma cópia perfeita do acontecido no contrato; aliás, cópia tão mais perfeita quanto mais diferentes se consideravam os atores do que ali se passou em relação àqueles do caso do contrato. Pois uma circuspecta Diretora de escola, no cumprimento estrito das suas obrigações, e delas nem um milímetro desviada, ao lançar mão de um carimbo especial e pouco usado, utilizado apenas para chancelar, com sua autoridade burocrática, importantíssimas decisões, o fizera de modo tão inadequado e inusual, infeliz, em um movimento de mão atrasado um átimo em relação ao ritmo certo, à precisão da semi-elipse percorrida, que o carimbo assentara finalmente mal sobre o documento, e não apenas: em num retorcer caprichoso, fizera desaguar sobre o documento em pauta, uma Liberação ou Deliberação, talvez mesmo uma Proibição, a tinta algo líquida que, por algum motivo físico ainda inexplicado, se aglomerara insidiosamente entre os tipos do burocrático alto-relevo. Também o suspiro da diretora proveio de suas mais silenciosas entranhas. A cuidadosa, maquínica e matemática concatenação de idéias que, naturalmente segundo modelos prévios e previamente aprovados de documentação de tal teor, acabara por decantar em papel oficial aquela Liberação, Deliberação ou Proibição, estava arruinada. Tempo precioso teria de ser agora dispendido na impressão de nova cópia – o que certamente não demoraria muito – porém tempo muito mais precioso teria de ser gasto no aguardo do retorno da Vice-Diretora, a qual, justamente para evitar transtornos burocráticos, havia, antes de sair em viagem relativamente longa, assinado previamente aquela Liberação, Deliberação ou Proibição, naturalmente já em sua versão final. E é absolutamente evidente e indiscutível que a Diretora nada poderia fazer, não obstante sua grande autoridade, sem a assinatura da Vice-Diretora, auxiliar vigilante das tramitações. Um documento qualquer, ainda quem sem grande importância, exarado da Direção sem ao menos o visto da Vice-diretora, significava essencialmente uma interrupção na ordem natural das coisas; quanto mais grave não seria a incompletude de uma Liberação, Deliberação ou Proibição. A Diretora não pode deixar de sentir um frêmito de desgosto; a mera imagem de um documento sem todas as assinaturas necessárias lhe causava calafrios, assemelhando-se, um arroubo de horror causado pela imaginação exaltada, a uma face caolha que a fitava, onde o olho presente – a sua assinatura – a acusava, com o reforço do olho faltante – a ausente assinatura da Vice-diretora – de incúria e desordem. Seu selo voltava-se contra ela: eis algo que não poderia suportar. A feia gosma negra, objeto da tinta que deveria chancelar o importante documento, por sua vez, aparecia agora em toda a extensão de sua ignomínia; manchara o perfeito. Sem consideração pela ordem do tempo dos relógios bem-ajustados, incluindo o de parede daquela sala imponente, trouxera à visibilidade o tempo do negar; o informe mostrava sua verdadeira forma, desprezível e hedionda, na ausência de ordem com que manifestara, em manchas breves que acabavam por configurar uma mancha única pela extensão de seus minúsculos tentáculos licorosos, mas já desde o início do ocorrido, por sua abjeta presença.
Talvez mais grave – certamente muito mais grave do ponto de vista metafísico –, foi o que ocorreu, a imensurável distância dali, porém com ares de simultaneidade, com determinado filósofo. Ora, dera-se que tal filósofo, homem pertinaz e de inteligência aguda, já percorrera em sua longa vida racional todos os quadrantes possíveis do tempo e do espaço, da imaginação e da memória, das tradições e dos sistemas, mas ainda não conseguira, em seus esforços inauditos, nem ao menos tangenciar aquilo que o hipnotizava de forma absoluta, a fórmula do universo, a razão do mundo, ou em termos que o mais agradavam pelo evidente teor especulativo, a verdade.
À cata da verdade andava nosso filósofo – e não podemos culpá-lo, pois encontrava-se em estrito cumprimento de seus deveres. Todavia, a sua própria racionalidade se inflara excessivamente, e, de atração pela verdade, viu-se o filósofo, ao apagar das luzes de seus decênios, e abandonando seus seculares mestres, tomado pela obsessão pela verdade. Procurava-a em todos os nichos, em todos os quadrantes; enlouquecido por sua mania, esquecera de si mesmo e fizera convergir todas as energias de seu cérebro atormentado para esta magna e absoluta questão. Nada mais o importava, pois lhe era evidente que tudo o que importava era a verdade.
Pois deu-se que, fixo nesta idéia, nas horas mortas do dia, daquele dia que não é possível datar, o da simultaneidade insuspeita, encontrara, ao dobrar uma esquina do pensamento, a sua Desejada.
Fora fugaz. Um lampejo de luz o paralisara, mudo e estático, porém sem tempo para êxtase; a luz era excessiva, mas, ao contrário de Dante no Paraíso, ousara fitá-la diretamente, pois era sua Amada; sua retinas cerebrais, deslumbradas por aquele fugaz ponto branco que as queimava, e sem saber se a brancura vinha de fora ou fora gerada – geração espontânea – pelas cavilações intermináveis do desejo, suas retinas, fixas, petrificadas por aquela luz sem adjetivos, incapazes de se deslocarem ou perceberem a si mesmas, fixaram-se para sempre naquela posição imutável, e o desvio no mais ínfimo ângulo teria sido intolerável.
O que restaria ainda ao filósofo? Trêmulo, catou nos bolsos algum pedaço de papel onde pudesse decantar algumas palavras que recordassem para sempre aquele momento primevo e definitivo. Sua procura teria sido em vão, não fosse a nota das compras da farmácia, que era da onde vinha naquele horário e local; não pode se furtar a um furtivo sorriso de escárnio por si mesmo e pelo mundo, ao perceber o descompasso da situação. Aquele papelucho vulgar e minúsculo se distanciaria doravante infinitamente do mais precioso pergaminho que dormitava no mais importante museu do mundo: contaria em desajeitadas palavras o restolho da Visão absoluta. Feliz daquele papel desprezível! Não sabia a que houvera sido destinado – ah, a finitude humana! – não pode deixar de suspirar o filósofo.
O fato é que ali estava o papel, à espera do que ele seria capaz de registrar, àquelas alturas do esgotamento em que se encontrava. Por outro lado, nem a caneta de que dispunha no momento era confiável; velha demais, soltava sua tinta apenas quando queria.
Foi dolorosa a constatação primeira do filósofo, a saber, que agora ela não queria, agora que tudo o que no mundo importava era o registro do indizível. Um rubor de irritação não pode ser evitado pelo filósofo; mas, em uma terceira tentativa de escrita, e correndo o risco de furar o papel – o desespero o levara às vizinhanças da catástrofe absoluta – o filósofo teve de observar a que espasmo de senilidade a caneta se entregara, pois, exalando um suspiro audível por formigas, despejara, em um último alento, o que restara ainda de sua tinta viscosa, encharcando não só a fibra que deveria receber as letras elegantes, mas igualmente os dedos daquele que a possuía havia mais de quarenta anos – algo que nunca acontecera antes.
Tudo estava perdido. As idéias e palavras, resgatadas a muito custo pelo filósofo de seus neurônios exaustos, já na premonição da glória que o futuro lhe reservava, evaporaram-se subitamente, perdendo-se no éter das lembranças esquecidas. Tudo estava perdido. Sobrara, da magna e irrepetível experiência intelectual, uma pastosa mancha púrpura (o filósofo tinha por hábito utilizar cores inusuais para suas tintas, cuidadosamente mescladas para chegarem ao seu tom pessoal). Uma mancha que bloqueava para sempre a luminosidade do instante absoluto. Afogado pela mancha opaca em que o pequeno pedaço de papel se tornava, agora que a tinta quase secara, o filósofo percebeu um oco no cérebro, bem onde logo antes o fulgor da descoberta era insuportável. Último gesto de grandeza, o filósofo não conseguiu impedir que um esboço de sorriso se insinuasse em seus lábios, antes de, em passos decididos, retornar à sua casa, onde montanhas de papéis inúteis o esperavam.
Ora, cumpre-nos fazer um breve levantamento do até aqui narrado. Mas circunvoluções são desnecessárias, inúteis e perniciosas. O essencial estava dado: as regras áureas do espaço e do tempo haviam sido violadas; equações há muito resolvidas se haviam desfeito no ar, atarantando as lógicas miúdas e bem-ordenadas; fluidos vazavam pelas frestas da realidade organizada. Em pelo menos três distintas situações, em nada próximas entre si, a ordem havia sido rompida bruscamente, não como um elo de corrente que se rompe, mas como se os sólidos elos de uma fortíssima corrente do mais resistente material se fundissem em certos pontos, tornando-a, pela inflexibilidade daí decorrente, inútil: uma caricatura do que antes fora, uma rigidez contorcida incapaz de se rearranjar no mundo. Universos inteiros de limpidez havia subitamente implodido por atos e acontecimentos absolutamente irrelevantes, que tinham em comum apenas a irrupção do opaco na ordem das transparências. Transtornos inauditos haviam sido causados pelo viscoso, pelo desencontro e pelo escorregar de fluidos. Uma insegurança se insinuava, como um verme, na arquitetura das boas construções. As leis físicas subvertidas, tudo acontecera como se uma pastosa doença irrompesse e se alastrasse de forma alarmante por entre os símbolos de um mundo em que o antes vinha antes do depois. A sombra passara de contraponto da luz à sua negação. Alguma decomposição ocorria, isso era certo; mas ninguém, nem os mais avisados cérebros, compreendiam o que tudo isso poderia realmente significar. A placidez das obviedades estava, nesse ponto, apenas levemente abalada. E tudo teria permanecido mais ou menos assim ainda por tempo indefinido, não houvesse um outro fato levado à comoção geral, intrigando e despejando desconforto e fúria nas massas e mesmo nos cérebros pensantes; e isso se deu exatamente quando as cordas estavam mais retesadas, quando o inoperante parecia definitivamente camuflado na ordem das necessidades imutáveis.
Os jornais e revistas há muito deixaram de ser apenas formas de comunicação e cultura: criam verdades, onde aparências brilham como diamantes recém-lapidados. É nisso que apostava, sem erro, o Colunista: sua coluna, sacralmente recorrente a cada semana nos principais jornais e revistas, era sempre imaculadamente impressa, ciclicamente pronta para empapar intelectos flácidos de convicções inauditas e clarezas inacreditáveis. Com a pertinácia de um deus louco, lá aparecia obstinadamente, para embeber de certezas nichos onde antes só houvera dúvidas, recomeçando a cada vez por demonstrar cabalmente o quanto tudo era óbvio, evidente e imutável quando bem esclarecido.
Afinal, para isso serviam, em fim de contas, as colunas de revistas e jornais: para demonstrar o quanto era inútil pensar, se tudo já havia sido pensado. Um colecionador que se dispusesse a coletar aquelas colunas, dezenas e centenas, dizendo sempre o mesmo de modos diferentes, teria ao fim de seu trabalho – de resto interminável, pois as colunas continuavam e continuariam a ser publicadas – não apenas uma considerável decantação erudita, mas principalmente uma inaudita arquitetônica do invisível; cada coluna sustentava uma ínfima parte do que o Colunista representava, mas era em sua modéstia individual peça imprescindível do grande jogo.
Foi assim, portanto, com espanto e horror que legiões de leitores fiéis, ao abrirem certo dia seus periódicos diretamente em sua coluna preferida, perceberam que seu exemplar havia sido maculado por uma incômoda obra do acaso. Pois, no epicentro dos pensamentos lapidares que se enroscavam uns aos outros como cobras, insinuantes, uma feia mancha de tinta de impressão impedia a compreensão da clareza.
“Mas como poderia, com as moderníssimas impressoras de que dispomos hoje?” – perguntavam-se individualmente, nauseados pela angústia. E tinham razão: o problema era em si insolúvel. Por que exatamente o seu exemplar havia sido maculado – e certamente não o do vizinho – pensava o fiel leitor, com um leve frêmito de suspeita. Como é cruel a realidade!
Tudo haveria permanecido mais ou menos assim, cada leitor sofrendo sua leve e aguda dor pela infâmia sofrida, não houvesse o acaso desejado que dois leitores se encontrassem e, para extrema surpresa e desgosto, constatassem que não apenas o seu exemplar houvera sido maculado, mas também o do compadre. Oh! Horror! Então é assim que iniciará a grande conspiração – não puderam deixar de pensar, sem poder igualmente – o que é muito justificável, dada a gravidade dos fatos – disfarçar a palidez que subia por suas almas. Pois como não atinar em algo perfeitamente orquestrado? Duas máculas em dois diferentes periódicos, tornando, senão ilegível, pelo menos tumultuada a clareza daqueles textos modelares; se observadas bem de perto, as manchas pareceram ao vizinho assentarem ligeiramente deslocadas uma em relação à outra em seus respectivos textos, apenas algumas frações de milímetro – o que, longe de afastar suspeitas, as aprofundava: aquele desvio estava além de qualquer margem de tolerância técnica. Somente alguém movido por ardilosas intenções poderia, ao tentar ser perfeito, trair sua imperfeição por uma tão pequena margem de erro.
O que, poder-se-ia pensar, culminaria na inquietação da alma daqueles senhores estava, porém, destinado a causar, em verdade, comoção inaudita, como nunca antes se vira. Pois não apenas aqueles dois exemplares estavam maculados: como já dissemos, todas as colunas, que eram na verdade a mesma coluna, publicadas naquele dia em variados jornais e revistas, traziam, como se fosse um parágrafo a mais, aquela feia e acintosa mancha, aquele borrão de despaupério, entranhada na clareza do texto, aquela acintosa agressão à Ordem. A reação foi imediata: choveram mensagens à redação. Logo no jornal noturno já se via as dimensões do acontecido; não houve uma edição a ignorar aquele fato inexplicável. Pois, evidentemente, os jornais e revistas, suas respectivas redações e direções eximiam-se de qualquer culpa. Nada havia, em impressora alguma, que explicasse o acontecido. Nada fora mal-programado, tudo fora revisado, todas as regras e procedimentos estritamente seguidos e fiscalizados. Do ponto de vista objetivo, um verdadeiro mistério acontecera, aliás aureolado pela estranheza e irrepetibilidade que acompanha todos os grandes mistérios. Mas o fato não se repetiu, nem no dia seguinte, nem no subseqüente. Fosse o que fosse o que acontecera, estava destinado ao olvido, encaixotado na desrazão que o cercava. Pois pertence ao inexplicável permanecer em si mesmo, voltado a si mesmo, deglutindo-se constantemente, refugiado nas sombras.
Todavia, e isso se insinuava no cérebro de todos, ali estava um mistério singular. Na semana seguinte, repetia-se, mas com algumas alterações. Em lugar de macular o texto do Colunista, a mancha agora aparecera logo abaixo do título, sem obliterar uma letra sequer. Lá estava ela, como se fosse uma irmã menor da anterior, mais concentrada, mais arredondada, mais cuidadosa em seus contornos, como que assumindo uma forma específica. Seu negror, nos variados meios impressos nos quais aparecera, mais uma vez, simultaneamente, contrastava singularmente com a clareza das páginas onde assentavam, claros, letras, sinais, parágrafos. Desprezível em seu tamanho, atraía contudo a si todos os olhares que vagavam por aquelas páginas, mesmo daqueles que não liam a coluna, como um buraco negro cósmico, que sugasse as energias dos leitores, tornando-os incapazes de seguir com suas respectivas leituras; ou como um olho negro e profundo, que mirasse os leitores, as suas almas, numa retribuição inóspita aos olhares calorosos em busca do verdadeiro nas palavras; ou ainda como um retalho do pecado original, como um ofensivo atentado à pureza que havia muito se julgava banido da face da terra.
É evidente que, por mais boa-vontade que se pudesse ter com um erro de alguém – pois todo mistério é sempre, de algum modo, um erro de alguém, mesmo que em alguém seja a natureza ou a ordem cósmica –, a repetição deste erro era absolutamente intolerável. Altas autoridades vieram a campo logo após a repugnante aparição da segunda mancha, a exigir providências; nada faziam senão seguir o clamor popular que, como um sismógrafo, sentia que algo se movia nas entranhas da realidade. Políticos subiram ao palco para, com veemência, exigirem as reparações devidas, fosse de quem fosse; ligas de cidadãos desenhavam armas para se defenderem do inimigo; acadêmicos debruçavam-se sobre o mistério, inquietos com aquela súbita, embora leve, desordenação do mundo; apocalípticos viam naqueles acontecimentos o sinal, e as igrejas e templos voltaram a ficar repletas; casais evitavam ter filhos, para poupá-los da desgraça, e aos que já tinham ensinavam-nos a assumir um estóica posição ante o imprevisível e inevitável. Como no tempo que prenuncia tempestade, as inquietações se faziam sentir de muitas formas, por todos os ângulos. O medo imperava. Psicanalistas hábeis e físicos exímios foram obrigados a juntar seus esforços em uma titânica tentativa de explicar a culpa sem culpados – pois todas as investigações, processos e perseguições culminaram em nada, como se os culpados pelo que acontecera (e agora, com o decorrer do tempo, voltava a acontecer ciclicamente, sob as mais diferentes formas, na mesma coluna e em algumas outras colunas, escritos e manifestações) houvessem se evaporado imediatamente após seu ato infame, e voltavam a fazê-lo a cada recorrência.
Porém com o decorrer do tempo, como sói acontecer nesses casos, o frenesi foi diminuindo. Ao que tudo indica, o povo ia aprendendo a ver nas manchas, que agora apareciam nos mais variados lugares – escritos importantes, cadernos de rascunho, lições infantis, rol de compras, notas de máquinas registradoras, e mesmo em meio a conversas exaltadas, sob a forma de borbulhas inexplicáveis – nada mais do que um inevitável efeito colateral do dia a dia. Nada podia evitar as manobras, as manifestações recorrentes do inexplicável, nem a troca das máquinas por outras muito mais modernas, nem a habilidade dos calígrafos concentrados como iogues em suas tarefas. As manchas, as sombras, simplesmente apareciam, estavam lá como se nunca houvesse sido diferente.
É claro e muito natural que conseqüências desse novo estado de coisas surgissem e permanecessem. Não se estava livre de inseguranças em lugar algum, nem nas choças, nem nos castelos, nem nos prados nem nas montanhas, no fundo das cavernas ou no meio do oceano. Já nada mais era garantido, as manchas apareciam em todos os lugares, sob infinitas formas – manchas grandes e pequenas, todas as cores e formatos, multiplicando-se como fungos, faziam sua presença não passar nunca desapercebida.
É de justiça ressaltar que extraordinárias foram as invectivas do Colunista, que não poupou esforços nem meios para denunciar o ocorrido. A todos os homens de bem conclamava, a todos os ainda não contaminados pela Besta, e isso com uma fúria singular, com todos os meios de que dispunham tanto ele quanto sua miríade de assessores, os melhores que o dinheiro pudesse comprar: tudo em vão. Em cada texto, uma hesitação da clareza; em cada pronunciamento, um engasgar algo cômico. As manchas, já multiplicadas, multiplicavam-se ainda mais. O mundo já não era o mesmo.
Porém, se há algo a que o ser humano acaba se habituando, é o mistério; mesmo os mais impenetráveis, se são corriqueiros, acabam por serem incorporados à ordem das coisas. O tempo passa. Mesmo as invectivas constantes do Colunista, e de seu séquito, mesmo as mais graves denúncias e abaixo-assinados exigindo providências, acabaram por diminuir de intensidade com o passar do tempo. A terra não cessara de se mover em torno do sol; nem os mares subiram nem os desertos avançaram subitamente; não choveu sangue. De algum modo, as coisas continuavam mais ou menos iguais, apenas mais hesitantes, pois as inusitadas manchas, de forma insidiosa, acabavam por ter certos efeitos sobre o psiquismo dos indivíduos, e mesmo sobre os subterrâneos da sociedade. Agora, os humanos realmente invejavam os animais e as plantas, que pareciam não perceber que algo errado – não se sabia em que medida e extensão, como ainda hoje não se sabe – estava ocorrendo na ordem natural das coisas.
De sorte que a conseqüência fora esta: o costume. Todos iam se acostumando. Os velhos tinham mais em que pensar do que em manchas insignificantes e misteriosas, assim como os adultos. Quanto às crianças, já nasciam em um mundo repleto de manchas de todos os teores; a bem de sua própria sobrevivência, tinham que se acostumar com aquilo o mais rapidamente possível, e o faziam.
Tudo estaria muito bem, não fora a ocorrência de novos e graves fatos. E quis o destino, ainda por cima, que tudo tivesse origem, ainda uma vez, naquela coluna tão bem divulgada por jornais e revistas, a glória de legiões de admiradores em busca de alguma certeza para viver em um mundo ainda mais incerto do que aquele que vira o surgimento das primeiras manchas.
Desta vez, porém, consta que a infâmia não foi notada por algum daqueles ávidos leitores da coluna, mas por um seu neto de tenra idade.
E deu-se que este neto, ao se deparar com o jornal que fora recém entregue na digna residência, notara por entre as páginas uma estranha protuberância, que impedia o correto assentamento das folhas. Julgando ser algum besouro que ali se esgueirara, o neto, já antevendo as brincadeiras que poderia levar a cabo com o ínfimo inseto, abriu o jornal na página exata da coluna, onde julgara que o animalzinho se encontrava. O que então viu, exatamente naquele espaço da coluna, ainda que sem reconhecer este detalhe, não foi nem um inseto nem uma daquelas manchas que, de resto, pululavam por todas as páginas do jornal ainda no dia anterior, a ponto de deixar certos textos praticamente ininteligíveis. Não, fora algo de outra ordem, que o fez exclamar em uma esganiçada voz infantil: “vô, veio uma coisa nojenta grudada no jornal de hoje!”. Sim, havia algo de muito estranho no jornal, uma protuberância em meio às páginas, como se o papel estivesse de algum modo, num estágio inicial de gravidez. Isso era o que percebia com o jornal fechado. Uma vez aberto, porém, o quadro era bem pior; a protuberância se revelava como algo indefinível, espesso, opaco, como um gigantesco pingo de cola que houvesse secado prematuramente, mas não por inteiro; informe, a coisa não era inteiramente irregular, tendendo para um círculo mal delineado.
É possível que, ainda desta vez tudo ficasse sem conseqüências – um excesso de cola da embalagem dos jornais, por exemplo, a se admitir, em primeiro lugar, que os jornais fossem transportados em algum tipo de embalagens que utilizassem cola para seu fechamento e, em segundo lugar, que esta cola fosse capaz de vagar tão inusitadamente – tais acontecimentos, embora razoavelmente estranhos, pertenceriam ainda ao universo das possibilidades a que o povo fora acostumado em função dos inexplicáveis acontecimentos atrás relatados. Mas não; o destino não permitiria uma solução assim tão confortável para o caso. Pois se dera que a coisa, muito bem aderida às fibras de papel, não escorrera aleatoriamente por entre as informações, mas aninhara-se, de forma quase obscena, num canto da coluna já referida; a bem da a estas alturas quase irresgatável paz de espírito, seja dito que a miríade de manchas que costumavam pulular em todas as páginas dos periódicos havia desaparecido misteriosamente; naquele dia, o papel, de uma clareza imaculada não fossem as letras e fotografias que o preenchiam, assumira novamente ares de um jornal normal, dando a impressão de que a multidão de manchas que, por dias, meses e mesmo anos, pululara desrespeitosamente não só por aquelas folhas, mas igualmente na imaginação e no cérebro dos leitores, não passara, realmente, de fruto indigesto da própria imaginação excitada. Porém, tudo isso era agora irrelevante.
Algo pior, muito pior, se dera a conhecer. Diferentemente das manchas que, por mais abundantes e variadas que fossem, não abandonavam a bidimensionalidade do papel, esta repugnante protuberância – assim como, para consternação geral, todas as suas infinitas irmãs, que maculavam todas as Colunas naquele dia – esta protuberância ousava invadir a terceira dimensão: tomava forma palpável.
Não é difícil imaginar as reações a este acontecimento; tudo havia retornado à etapa inicial. Agora justamente, quando a população finalmente se acostumara, até certo ponto, a ver na inexplicável realidade concreta – pois até os acontecimentos mais estranhos e extravagantes caem logo no esquecimento, se alguém não descobre neles algum sentido oculto ou algum argumento de venda –, justamente agora, uma nova desordem das coisas vinha ferir novamente a tranqüilidade e a paz de espírito dos homens de bem. Pois ali estava um renovado, ainda mais vigoroso, atentado à decência. Aquelas entidades com o vago aspecto de globos deformados, de espasmos esponjosos, não eram apenas um  atentado à visão, mas, especialmente – o que a todos abalava – um atentado à planura das coisas bem assentadas, das folhas bem ajustadas no interior das brochuras e dos arquivos, onde todas as verdades estavam escritas ou ao menos sugeridas. A superfície da terra sofrera um suave terremoto generalizado, não registrado pelos sismógrafos; nada mais se ajustava a nada, tudo era diferente de tudo, estranhamento, desencontros, surpresas. Desta vez, a raiva inaudita dos guardiões do presente e a louca cólera dos poderosos não se transformaram em protestos inteligíveis; tudo o que se ouvia eram cacarejos surdos quando pensavam no mistério, e grasnados estridentes quando procuravam, em laivos de desespero, chamar o mundo à ordem, à lógica e à razoabilidade. Eis então o contraponto do espasmo final: cacarejo, grasnado, cacarejo, grasnado, cacarejo, grasnado – o tique-taque zoológico de um relógio demente.


II

            Foi então que acordei. Ao lado, um livro de Auster, esta ostra interessante. Dentro, semente no interior da crosta rija, umas citações maciças – “um livro tem que ser o machado para o mar congelado dentro de nós” (Kafka); “quando encontro / em meu silêncio / uma palavra / ela está encravada em minha vida / qual um abismo” (Ungaretti). Como marca-páginas improvisado, uma coroa: “não basta ser artista, é preciso não ser impostor” (Paulo Bentancur). Nada há como o acordar, o despertar sob tais sons. O mar congelado trinca, trepida dentro de mim; os abismos, em comparação com a obscenidade das imposturas diárias, se tornam afáveis. O despertar é sempre uma bela antevisão da morte; as cordas vibram no meu interior; no risco iminente de me perder nos entremeios dos labirintos que ainda restam em meu cérebro, ressoam ainda, como estalidos distantes, os cacarejos e grasnados do passado: o fato é que perduram em seu crepitar despudorado. Como ressoam ainda e retornam mortos-vivos, essas gosmas pretéritas, essa senilidade medonha. Por um átimo, o despertar promete uma fuga do meu exílio auto-imposto. Quase cedo à grandiosa tentação: as sereias são muito bem treinadas. Mastigando a saliva empedrada, embesourado em minha carapaça, reteso-me na corda-bamba do claro-escuro. Ali estou, oscilante, sem poder acreditar, sem poder não acreditar. Âncoras emergem de mim e se prendem a substratos duvidosos, mas nada irreais. Por fim, não me precipito no abismo: sua cratera é excessivamente convidativa. As paredes untuosas da realidade continuam seu cerco em torno a mim. O cacarejar ecoa ainda, os grasnados são o pano de fundo. Não consigo fingir que não vejo o que ouço. Não corro o risco de enlouquecer, apenas de sucumbir à minha lucidez, luzes de sons luminosos, pensamentos que se esgueiram como escaravelhos modestos, de pernas finas, seres de mundo paralelos infinitamente distantes, piedosos. O gato mia, suas vibrissas ardem de curiosidade. O miado é uma elegia sedutora, demove do suicídio; ainda um segundo após as horas. O reequilíbrio das inconstâncias canta um canto: ainda há afago. O morno ribombar da tempestade seca me alça sobre mim: já posso ser mais do que meramente um eu. O tumulto da (primeira) pessoa me engasga; é demais para a acidez da saliva empedrada que me penetra. O sol brilha, indiferente: os grasnados e cacarejos ainda ecoam, e o farão ainda muito, vermes na alma, espasmos saltitantes, salteadores fracassados da luz. Numa caixinha fechada, promete-se um segredo: a criança ri dentro de mim, espantada com o mundo.
            E depois, há os rumores. O temporal nunca arrasa tudo o que ameaça. Há detritos, desgostos, numa trilha de contos de fadas, cabelos longos de uma Rapunzel selvagem, ligando coisas e mundos, universos e bactérias, que não conseguem sobreviver sozinhos. Nada consegue sobreviver sozinho; tudo é pusilânime, perdido nos labirintos dos cantos sombrios, errando por seu próprio cérebro vagamente pulsante, irrigado de sangue escuro, crânios desfeitos pelo atrito das engrenagens, pó de ossos e saliva empedrada.
            Turva tempestade, eis o mundo: agora os cacarejos e grasnados ecoam desde suas longínquas insignificâncias, bolhas repelentes na superfície das coisas, cais de águas podres se insinuando às margens. Olhar estreito do morcego apanhado pelo que pensa ser a luz, os medos fogem, escorregam, curvando-se em reflexos opacos, pulverizam-se em legião.
            Eis onde me encontrava, toca de aranhas, e fora um deserto inóspito. Lugar nenhum de evasão, apenas: como sobreviver? Orelhas amplas de raposa, conluio incestuoso de pensamentos, tudo isso assoberba até mesmo o mais refinado faro canino. Há pó demais, fazendo o sol, ainda, o favor de torná-lo imperceptível: sente-se, apenas, penetrando nas crateras escancaradas como narinas obscenas. A tinta jorra da caneta, macula os grânulos cristalinos, mancha o mundo dos instantes sucessivos, única mancha, preserva a mucosa do mundo, não a agride, apesar de tudo, de seu poder que é corrosão em puríssimo estado – mistérios da piedade?
            Cinzas de Pompéia.

* * *

            Agora já não se ouvem, nem de longe, os cacarejos e grasnados, nem sua sombra, nem sua memória. O horizonte está nublado. As nuvens são o visco que a tudo envolve. O gosto amargo, saliva empedrada diluída, flui em rios. Tempestades se dissipam, arcos-íris hesitam. O mundo se curva novamente, renuncia às planuras, às infinidades e infinitudes, volta-se a si mesmo com a promessa de um útero, uma gema negra porém pacífica deste ovo cósmico-microscópico.

III

            Eis então que acordo novamente. O mundo se revolve, o que restou de saliva empedrada aninhou-se nas concavidades do cérebro. Chamam a isto vida? O ribombar permanece, mas não é mais audível, apenas pode ser pressentido, se a alguém ocorre dele se lembrar. A terra carcomida sorve a tempestade, o que dela restou, suas lembranças, museus em ruínas. A luz entra por frestas. Um sabor adocicado envolve tudo. Rumores estranhos, decantações diversas – os ossos do crânio, recompostos, reacomodam-se como placas tectônicas em sutis rearranjos. Alguns pingos de luz caem do céu; mas não são luz, são sons macios, luminosos. Tilintar de anúncios distantes, vozes infantis entrecortadas. “A minha ficou mais bonita que a tua”. “Mas a minha pula melhor”. “Vamos pintá-las?”. “De que cor?”. “De todas, quer dizer, de todas as que tivermos”. “Vai ficar muito bonito. Bonito demais”. Um murmúrio entra pelas frestas. É quase noite.
            Agora já estão pintadas. São inúmeras, inumeráveis. Todas as crianças têm a sua, às vezes várias. De todos os tamanhos, rolam e pulam. Que aquelas formas que descompuseram a superfície do mundo pudessem ser moldadas, arredondas por frágeis mão infantis, que aquela dádiva desajeitada da natureza tomasse por vezes espontaneamente a forma redonda, até pode-se dizer: quase sempre – eis algo precioso no inventário daqueles olhares infantis. Mas não apenas: assumiam logo um ar de terna afetividade, de abandono, carinhosa presença multiplicada, milhões de bolinhas ternamente amadas por milhões de crianças embevecidas, e não precisavam ser compradas em lojas. Bastava catá-las por todos os lados, em todo lugar estavam, até os gatinhos com elas brincavam, era só coletá-las que logo se acomodavam no morno aconchego das mãozinhas que as encontravam. “A minha ficou linda, cor de laranja, parece uma laranjinha”. “A minha é menor, mas é espertinha; às vezes quer fugir de mim, mas sempre volta”. “A minha se eriça quando eu chego perto, fica aveludada como um pêssego, sabe quem é seu dono”. “As minhas parecem querer me seguir o tempo todo”. “A minha é bem pequenininha, mas tem até nome”. “Como é?”. “É Kik, porque ela quica muito bem”. “Então a minha é a Kik 2, porque ela também quica muito bem!”. “E as minhas duas, que me seguem por toda parte, são Kik 3 e Kik 4”. “Queridas bolinhas de estimação”.


São Francisco de Paula/Porto Alegre, fevereiro-agosto/2006.

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