FREUD: TENSÃO E PARADOXO



Freud: tensão e paradoxo


Ricardo Timm de Souza

Introdução: tensão e pensamento paradoxal


Não é absolutamente desconhecido o fato de que Freud habitou, ao longo de toda a sua vida, a tensão que se estabelece entre o helenismo e o judaísmo[1]. Por um lado, suas contínuas hesitações em ir a Roma, sua filiação à associação B'nai Brith, sua intimidade com algo de afetivo e indizível no judaísmo - algo de importância manifestamente central em sua vida[2]; por outro lado, a nostalgia eterna do "outro lado", o ocultamento razoavelmente voluntário de seu conhecimento de línguas semitas, sua vontade em se tornar "Ordinarius" da Universidade de Viena, o extremo "esclarecimento" que dimana de suas obras "culturais"[3], bem como da maior parte de suas demais obras, e que culmina na intentada conversão ao "deus Logos", tudo isto bem caracteriza os "afetos fortemente ambivalentes", que "sempre provocavam em Freud as suas peregrinações aos santuários da cultura ocidental, lugares do espírito que o atraem irresistivelmente, mas que também o repelem..."[4] - esta dualidade configura a desinstalação original do pensamento freudiano, caracteriza-o ex origine como multifacético e avesso a simplificações gnoseológicas, alimenta sua capacidade de resistência e oposição à "massa compacta"[5].

A expressão mais aberta desta ambivalência - mas de forma nenhuma uma das mais fáceis de perceber - é a sutilíssima construção que leva a cabo ao inverter um modo especificamente não-ocidental de investigação intelectual - a aproximação cuidadosa e inexorável das verdades sempre ocultas sob novas camadas de interpretação, a evitação do verbo "ser" e da sincronização dos dados em um ponto específico do presente, em um jogo contínuo de avanços e hesitações, avanços infinitamente pequenos que levam ao cabo, subitamente, o assomar de uma idéia fulgurante - em uma espécie de "arqueo-logia do sentido", em um jogo de clarezas mutuamente relacionadas, sempre a exigir uma certa flexibilização - não excessiva - de determinados princípios lógicos e que vem à tona em uma cadeia lógica que, apresentada seqüencialmente, na verdade nada tem de seqüencial ou óbvia. Esta inversão, esta prudência no trato do verbo "ser", o jogo de luz e sombra traduzido por esta não-repugnância às zonas sombrias da interpretação (repletas na verdade de uma estranha luminosidade), este "vir à superfície" do inusitado sob a forma de uma espécie de "salto mortal lógico" que se desdobra em um discurso bem arranjado, em um estilo francamente irreproduzível e que, ao mesmo tempo, nem desoculta, nem esconde totalmente as suas ínsitas possibilidades de desenvolvimento (talvez desoculte e esconda de forma totalmente simultânea a camada de realidade recém-descoberta, em uma contradição assumida de forma absolutamente "natural" e por isso tão atraente), esta particular forma de construção e reconstrução de um determinado discurso que carrega consigo todo um corolário de pequenas sementes intelectuais, acaba por ter como resultado a Psicanálise; e é de se destacar o quão pouco este modelo de pensamento tem a ver com a "normalidade" da linguagem identificante do Ocidente e sua obsessão pelo verbo Ser no singular e na sincronia do presente do indicativo[6]. Trata-se, muito mais, de um constante interpenetrar-se mútuo de intuições com vida própria, as quais se articulam com dificuldade - e apenas devido aos esforços consideráveis de um estilo muito particular e corajoso - em um discurso unitário, o qual, a partir de então, conserva em si vestígios da tensão original, que lhe emprestam sua particular atratividade.

É natural, portanto, que qualquer interpretação da obra de Freud que tente descobrir e circunscrever certezas irretocáveis e definitivas em uma linguagem denotativa corrente trai a própria tessitura profunda da composição freudiana. Tal impede, e isto não é uma de suas conseqüências menos funestas, que a consciência da tensão que atravessa de forma mais ou menos clara a totalidade de suas obras maiores assuma com clareza sua importância decisiva - aproximadamente como se alguém inferisse, em uma caricatura de psicanálise, que tal ou qual gesto do analisando significasse apenas e definitivamente tal ou qual coisa, e em nenhuma hipótese alguma outra coisa - ignorando que é justamente a partir da não-permanência de certos sentidos em determinados e bem delimitados conceitos que a possibilidade da investigação das profundezas psíquicas se pode dar; e isto, sem que seja necessário um esforço especial de inteligência para poder ser compreendido: é a própria tensão entre a lógica e a "ilógica" (que escolhe um determinado símbolo, e não outro, para tal sentido, mas não explica nem exclusiviza tal escolha, nem a descobre nem a encobre totalmente) que faz com que esta espécie muito particular de "dialética interna" do meta-discurso, que acompanha pari passu o discurso, a sua tradução escrita, se revele como a sua verdadeira medula condutora de uma modalidade de reflexão que nega a si mesma no exato momento em que se totaliza.

Esta tensão nunca é dita, não se expressa propriamente em palavras - apenas se faz presente desde uma infinidade de perspectivas, e, muitas vezes, exatamente em determinados pontos de torção racional que obrigam a inteligência a deter subitamente o seu fluxo "natural" ou naturalizado para poder então - paradoxalmente, em um refluxo por assim dizer "anti-natural" - apreender um determinado sentido que permaneceria oculto caso o fluxo "natural" da inteligência não fosse obstruído ou colocado em questão justamente pelo excesso de claridade que parece irradiar; e alguns dos momentos culminantes da escrita freudiana representam a quase súbita pacificação de certos refluxos intelectuais de corte muito complexo em torno a uma idéia luminosa, a qual haure sua luminosidade desde sua não excessiva pretensão de univocidade, e que a partir de então serve de referência intelectual ao posterior encadeamento de idéias, em um processo sui generis de reconstrução contínua e recolocação de sentido.

É esta tensão entre naturalidade e anti-naturalidade, esta - tomando de Bergson a expressão - "inversão da ordem natural do pensamento", que constitui o verdadeiro tumulto daquele Aqueronte subterrâneo onde, apesar de tudo, todas as razões tomam uma forma clara e distinta. É ali, e não no seqüestro de uma pretensa racionalidade freudiana unívoca e sua conseqüente transformação em um discurso monolítico e hegemônico, sempre tirado da cartola a fim de explicar a todo momento mundos e fundos, complexidades e simplicidades individuais e sociais - em uma traição explícita de sua própria dinâmica de nascimento -, que reside a primeira camada interpretativa que se oferece a uma racionalidade moderadamente desimpedida de exagerados pudores lógicos; mas "é" apenas a primeira camada, não a única, nem a definitiva: talvez nem a primeira camada, mas seu anúncio. Talvez ela nem ao menos "seja" no sentido usual do termo. Em Freud, sua sinceridade é bem maior que sua "claridade" e a confusão que se estabelece pela projeção de um determinado modelo lógico em algo provavelmente - na falta de melhor termo - "para-lógico", como a psicanálise (pelo menos, marcadamente, em suas hermenêuticas "culturais"), não é uma das menores violências que se pode cometer com um autor tão injustiçado (ou "justiçado" pela Totalidade de uma razão encarnada até mesmo em intérpretes aparentemente "benévolos" que, em sua ingenuidade, queimam com a pretensão do absoluto e o excesso de claridade que pretendem haurir de uma obra - que não aposta todas as suas fichas nas razões e vontades do Ocidente - sacrificam exatamente esta obra, como haviam feito os nazistas).

E, não obstante, a complexidade de tais circunstâncias se torna ainda mais difícil, assumindo mesmo uma dimensão patética, quando o próprio Freud tem de se curvar ao discurso "maior" para salvar seu próprio discurso à meia-luz, que permanece sempre a uma prudente distância do escancaradamente explícito. É inútil e injusto dissecar, em uma personalidade vincada por uma sinceridade extrema como a de Freud, as "razões" de tal procedimento; é suficiente sublinhá-lo e respeitá-lo, na medida em que pertence à dinâmica de elucidação que oportuniza uma maior compreensão não só do contexto da construção da obra freudiana, como ao contexto de construção de seus maiores contemporâneos e de toda uma época - este "difícil século XX".

A questão pode ser colocada, histórica mas precariamente, desta forma: o que faz com que Freud assuma, em certos momentos, uma sintaxe do século XVIII[7] para trabalhar temas que assomam das profundezas e confluem no século XX? De forma mais elaborada, dir-se-ia talvez: como o anti-iluminismo explícito de uma perscrutação interpretativa que tem na obscuridade do difuso e do recalcado um de seus núcleos principais (não obstante sua procura processual da claridade, no modelo atrás descrito, mas que não depende do resultado final claro para assumir legitimação), pode se socorrer exatamente de um modus operandi perfeitamente "iluminista" de construção de um determinado discurso sintaticamente organizado em torno a focos que, levados a sério, expõem exatamente a contradição congênita que a claridade pretenderia iluminar? Onde repousa este paradoxo?

A atração do paradoxo: O futuro de uma ilusão


"A situação ideal seria naturalmente uma comunidade
que sujeitasse sua vida instintiva à ditadura da razão"
FREUD, Warum Krieg?[8]

" - Sim, o homem é de afligir de tristeza, porque
em meio à subida constante das massas ele fica cada
vez mais solitário, de minuto em minuto."
KAFKA[9]

Concretamente, reconduzindo a questão ao contexto de seu trabalho - como pode Freud, em uma atitude perfeitamente oposta ao fazer psicanalítico em seu áspero dia-a-dia, em sua difícil construção e reconstrução, postular o absoluto de uma religião - aquela do Logos, em uma escolha não pouco sugestiva, e através exatamente de um constructo tão próximo de um "conceito" que se aproxima exatamente de uma idéia de "generalidade" - para tentar superar a própria idéia de religião através da exposição racional de seus constitutivos, de uma forma perfeitamente "iluminista"[10]? Seria tal apenas uma preferência pendular pela modalidade ontológico-luminosa e pela organização mental do "outro lado"? Ou traduz na verdade uma expressão particularmente intensa de paradoxalidade, em uma formulação muito pessoal, que é típica das camadas mais profundas de sua época? Em outros termos, em que camada da realidade se situa o momento interpretativo, o que está realmente sendo ali dito exatamente desta forma e neste momento? Porque, em Die Zukunft einer Illusion, a afirmação, sob a forma de uma ciclicidade quase obsessiva, de certos lugares comuns iluministas, de uma forma precisamente que seduz a todos aqueles que gostariam de ouvir exatamente estas palavras - e não outras, mais obscuras ou complexas - para decidir ad aeternam a "essência" correlata um fenômeno, em estilo precariamente kantiano?[11]

À primeira página deste trabalho, Freud constata que "as pessoas em geral tendem a vivenciar sua contemporaneidade de forma por assim dizer ingênua (wie naiv), sem poder avaliar corretamente seu conteúdo; elas precisam, primeiramente, estabelecer uma certa distância em sua época, ou seja, o presente deve se tornar passado"[12], caso se queira de alguma forma antever o futuro. Esta é uma expressão de se guardar: ela abre toda uma possibilidade de compreensão para a época em análise, ela é um elemento ponderador estrategicamente que servirá para reconduzir o discurso à sua prudência, da qual - em mais um paradoxo - ele certamente nunca se afastou, apesar das aparências.

O processo de culturalização dos instintos - base da própria idéia de cultura[13] - é um processo de enobrecimento, de transformação dos indivíduos potencialmente capazes em indivíduos modelares (vorbildlich), hábeis em conduzir e sustentar o processo de renúncia à irracionalidade dos instintos - contrariamente às massas, por natureza amorfas, obtusas e indispostas a renunciar a seus apetites[14]. Depõe a favor de uma civilização o fato de seus líderes serem indivíduos deste teor; mas a tentação de, a fim de manter sua condição de condutores, seguir a convulsão das massas sob a forma da expressão de seus desejos, é sempre presente[15] - o que obriga a uma certa pressão (Zwang) na manutenção destas condições, a fim de que a cultura se preserve[16]. A interiorização desta coação externa constitui a transformação de um ser instintivo em um ser cultural: é um bem cultural do mais alto valor[17].

Mas o processo de criação da cultura não se dá de forma súbita ou absoluta: divide-se em fases sucessivas de desenvolvimento, das quais apenas uma está sendo enfocada - aquela em que uma determinada forma de "espiritualidade", especificamente de religiosidade, ocupa o mais alto posto na hierarquia dos valores culturais. E Freud se pergunta: "O que são estas representações (Vorstellungen) à luz da psicologia, de onde provém o apreço de que goza e... qual o seu verdadeiro valor?"[18].

Ora, caso se indague sobre a religião, sobre o porquê de algo ser "acreditado" (geglaubt zu werden)[19], percebe-se que as respostas tendem à irracionalidade - cuja melhor expressão é a clássica sentença da Patrística "Credo quia absurdum" - creio porque é absurdo. Tal sentença pretende, provavelmente, sugerir que a realidade da crença escapa às determinações da razão. Mas o problema é que "não existe nenhuma instância acima da razão"![20] E ainda uma tentativa de resolver o problema a partir da postulação de um "como se" (als ob) só seria possível a um "filósofo": "a pessoa não influenciada em seu pensamento pela arte da filosofia não poderá aceitar nunca uma tal exigência; para ela, com o recurso ao absurdo e ao irracional encerra-se a discussão"[21].

Assim, a religião não é o derribar da experiência ou o resultado final do pensamento: são ilusões, realização dos mais "velhos, fortes e urgentes desejos da humanidade" - "o segredo de sua força (da religião) é a força destes desejos"[22]. As doutrinas religiosas são todas ilusões[23], não passíveis de prova: ninguém pode ser obrigado a nelas crer. A única maneira de conhecer a realidade externa é o trabalho científico[24], e existe o caminho de um "pensamento correto" a ser trilhado, diferente daquele da ignorância: "a ignorância é a ignorância" - nenhum direito de crer advém dela[25]. É notável e decisivamente esclarecedor o fato de que a religião prometa o que nossos desejos desejam[26]. Além disso, se a religião pretende traduzir explicações ancestrais a respeito do mundo, furta-se à idéia de progresso, entende-se como anti-positivista: seria muito bom poder acreditar em um Deus todo-poderoso, mas seria ainda mais espantoso se nossos ancestrais, antes da era científica, tivessem chegado a um tal conhecimento[27].

Quem poderia, assim, chegar de forma mais "isenta" ao fundo da questão? Freud é da opinião que a Psicanálise se presta à tarefa, uma vez que se constitui em um "método de investigação, em um instrumento imparcial (parteilos), semelhantemente ao cálculo infinitesimal"[28] - assumindo o mito positivista da ciência neutra e abstraindo, assim, de todo e qualquer condicionamento que pudesse estar ali presente.

A Psicanálise é, desta forma, habilitada a separar a realidade da irrealidade. "A religião seria a neurose obsessiva geral da humanidade"[29], e a Psicanálise descobre na massa dos desejos a que ela corresponde uma "negação da realidade (Verleugnung der Wirklichkeit)"[30] - ainda que esta realidade haja sido, atrás, expressa como ainda incognoscível em boa parte, uma vez que a ciência só consegue desvelar a realidade aos poucos[31]; deste modo, é de se crer que as conclusões da Psicanálise tenham podido assumir, neste ponto, a dimensão do "definitivo" - ou seja, do perfeitamente, platonicamente conceitual, em uma contradição explícita com a própria gênese da Psicanálise em suas acidentadas e muitas vezes contraditórias idas e vindas, enquanto fruto legítimo exatamente da mais alta espiritualidade humana, e não sua negação[32].

A verdade neste contexto, para Freud, corresponde à visão grega da Aletheia, como des-velamento da realidade - e esta é a verdade íntima das crenças religiosas a ser descoberta: uma realidade pronta de uma vez para sempre, que interromperá o próprio fluxo infinito de investigação da realidade. Estas crenças estão ainda muito encobertas para serem reconhecidas como tal pela massa da humanidade[33], mas se darão a descobrir a partir do progresso do pensamento, do qual este texto é porta-voz da necessidade"[34]. Aliás, não é absolutamente algo negativo o fato de estar condenado a sobreviver por si mesmo; a ciência da humanidade cresceu muito desde os tempos do dilúvio, e aumentará ainda mais o seu poder[35]. Há que confiar no intelecto e ser otimista, ainda que baixa, sua voz é incansável[36] - pois a ciência já nos provou através de muitas conquistas não ser uma ilusão[37].

Desta forma, pela deposição das certezas dos deuses das religiões, a certeza do Deus Logos, através da mediação da Ciência, acabará por se impor; pois ela é a última instância da realidade enquanto cognoscibilidade: "Não, nossa ciência não é nenhuma ilusão. Mas seria uma ilusão pensar que poderíamos obter em outro lugar o que ela não nos pode dar"[38].

Deste modo, temos então a expressão de fé de alguém que intenta circunscrever a raiz de toda crença. Nos inícios da era de profundas transformações na idéia de ciência e de certeza científica, Freud faz, ao que tudo parece indicar, profissão de fé de um modelo científico unilinear que se despede historicamente. As religiões tradicionais são substituídas por uma religião da Razão, nos melhores moldes do século XVIII. Freud, que "já possui definitivamente (a partir do momento em que desmascara e 'sedução das histéricas') a parte mais original de sua doutrina, que fornece ao conhecimento do espírito humano o seu primeiro instrumento de precisão. Pois agora ele conhece a proveniência de todas as crenças em um qualquer além-da-experiência; a raiz das ilusões referentes à intervenção do divino ou do sobrenatural nas coisas da vida; a razão de ser profunda das superstições e dos mitos consoladores"[39], está também completamente mergulhado em seu paradoxo: por um lado, a abordagem de uma terra incognita que normalmente apenas à poesia e à arte era familiar; por outro, a necessidade de generalização absoluta do observado. De um lado, uma anti-ciência - pelo menos nos moldes de qualquer ciência até então; de outro, a necessidade de uma moldura epistemológica para que o novo para a cultura permaneça minimamente comunicável em uma forma "intersubjetiva". A tensão extrema do mundo particular e original de sua interioridade - por um lado, a crença em "premonições, números significativos, coincidências misteriosas e na transmissão do pensamento, em suma, todos os fenômenos que os surrealistas alinharam em seguida sob o vocábulo de 'acaso objetivo'"[40]; por outro, a extrema necessidade de ocupar o espaço, um espaço cientificamente determinado, um espaço que correspondesse à profecia de que um dia seria "ministro"[41] - tudo isso configura um ser com "afetos fortemente ambivalentes"[42], que "freqüentemente oscilava entre uma credulidade afetiva nas coisas vividas intensamente e uma incredulidade intelectual diante da interpretação oculta dos fatos"[43].

Esta "ambivalência" significa, no fundo, a impossibilidade de reconciliação entre os diferentes. Assim como Freud, apesar de tudo, oscila entre a carga ancestral e o "outro lado", assim também sua descoberta, a novidade a que chega justamente por causa desta irredutibilidade dos diferentes um ao outro - do mundo dos afetos ao mundo da razão - oscila entre a superação de toda e qualquer moldura "científica" e o assumir paradoxal de uma moldura científica já então plenamente ultrapassada em termos mais amplamente culturais, e isto a bem de sua própria sobrevivência. E é por este assumir paradoxal que a outra dimensão pode permanecer (paradoxalmente) plenamente "viva", sem se confundir em um "todo de sentido" onde o diferente entrega à modalidade completamente denotativa da linguagem todo o seu sentido. Em outros termos, é provavelmente por haver sido expressa de forma completamente iluminista - iluminada - que a essência da descoberta pôde continuar se referindo à sua dimensão fundamental - à sua espessura própria - que escapa, enquanto desejo e além-de-razão de proveniência "obscura", de qualquer "solução" lógica acabada[44] - pois "esclarecer" totalmente o desejo nada mais significa do que eliminá-lo, e não "resolvê-lo". A tensão, origem das inquietações que culminam na psicanálise, está mais viva do que nunca; a contraposição de diferentes permanece "com sentido", como sentido mantém a tensão entre os "dois lados".

Na origem da psicanálise e de suas descobertas habita, assim, uma crença pré-racional, anterior a qualquer lógica, no Diferente temporal, no que não se resolve simplesmente no "Mesmo" da razão, e em sua "permanência" em um estado de tensão constante. Esta é sua condição fundamental. Quando a psicanálise diz que, geralmente, o que parece "não é", está também dizendo de forma simultânea algo porventura mais surpreendente, e isto de forma incisiva: que "o que é" não é tudo. Esta é sua dimensão mais recôndita, aquela que o mundo contemporâneo de Freud talvez não pudesse simplesmente entender, mas à qual os cataclismos do século prepararam uma boa e crescentemente significativa recepção. Desta forma, a "descoberta" da psicanálise está a exigir crescentemente "meta-descobertas" que retraiam novamente ao fulcro de sentido renovado sua irresolução original[45].

Freud verticaliza a intuição "espacial" do Diferente, do Outro que pulsa por sob os escombros de uma Totalidade de sentido que tem, na virada do século, a sua missa de réquiem - muito embora perdure até o gran Finale das guerras mundiais, do Vietnam, do caos sociológico e ecológico e da utopia de não ter mais utopias[46]. Ao enfocar com inaudita clareza o pólo racional da compreensão da realidade psíquica, colabora - mais uma vez paradoxalmente! - para que o "outro lado" da ex-plicação possa manter o estatuto da existência plena - uma vez que é definitivamente a "origem" da necessidade da explicação e seu maior e permanente estímulo, e origem de uma explicação clara a uma tal magnitude. Em um sentido diferente da maioria de seus intérpretes, pode-se dizer que Freud é um descobridor da "cultura": redescobre aquilo que a Totalidade tem se empenhado, desde que o verbo ser assumiu a direção da linguagem, em neutralizar, e isto não obstante o conjunto de seus otimismo culturalistas[47]; mas faz isto de uma forma a tal ponto sutil, que esta redescoberta se reveste de uma aparência sedutora, tocada por ingênuas esperanças iluminadoras, aparência esta exatamente inversa com relação à sua verdadeira "essência" - a qual, naturalmente, não se explica de uma vez por todas, mas antes desvia do conceito e imerge continuamente na indeclinável interpretação contínua e permanentemente inacabada.



Conclusão - Non plus ultra: a tensão feita texto em Der Mann Moses und die monotheistische Religion - Drei Abhandlungen



"Quanto tempo ainda teremos de esperar, até que
 também os outros se tornem pacifistas?"

FREUD a EINSTEIN[48]


Não nos interessa, aqui, mais do que um leve roçar em uma questão de relevante grandeza: por que Freud resolve investir sua reputação no desdobramento - psicanalítico embora - de um trabalho cujas bases escapam completamente à sua familiaridade, e em que sentido este trabalho paradoxal coroa sua obra[49]. Por que o universo de uma tese polêmica, e não uma nova apresentação apoteótica do novo corpo de conhecimentos freudianos, estava destinado a coroar sua produção?

Pois Sigmund Freud era já reconhecido como um dos grandes espíritos do século, com uma vasta e revolucionária obra conquistando crescente consagração apesar de todas as dificuldades, quando resolve empreender sua construção mais temerária e mais polêmica. Trata-se do Romance Histórico "O homem Moisés e a religião monoteísta - três ensaios". É com o espírito despojado dos que "tem pouco ou nada a perder"[50] que Freud lança - não sem consideráveis hesitações[51] - sua grande tese histórica: Se Moisés não fosse um judeu, mas um egípcio. Mas a tese em si é fracamente histórica ou científica: não se sustenta historiograficamente. Todavia, todo um universo de significados e relações é haurido dela, seu desenvolvimento move-se em uma lógica própria e toma, do autor, um tempo muito longo de preparação e revisão, caracterizando uma situação de plena consciência autoral[52]. Este livro tinha, apesar das confidências do autor a Arnold Zweig[53], de vir à luz de alguma forma, ainda que causando profunda inquietação ao autor[54] e a despeito das dificuldades muito especiais que teve e conscientemente teria de enfrentar[55].

Assim, este trabalho estava destinado a coroar a obra freudiana; e esta coroação não apresenta as características talvez esperáveis de uma tranqüila e madura síntese equilibrada. Trata-se de uma obra paradoxal, uma tese excessivamente ousada, a qual exige, por sua própria postulação (e independentemente de todas as interpretações psicanalíticas que se possa ou queira dar) a imediata contraposição científica e exame crítico. Mas talvez seja justamente esta uma de suas grandes finalidades: manter viva a contradição, trazendo-a à inequivocidade de uma explicitação, na condição de base de uma reconstrução cultural retrospectiva. A grande história do povo judeu, repleta de tensões e contradições, idas e vindas, condenada à sobrevivência, forçada à dispersão e à violência, digladiando-se com a própria memória[56] e tendendo à imortalidade, é expressa em uma estranha contradição literária, em uma exposição decidida, marcante, inequívoca, a qual não é, por sua vez, senão a expressão aqui mais adequada e legítima, o símbolo grandioso de uma "contradição original" que subjaz a qualquer interpretação. No fundo, continua em jogo a questão original entre o Mesmo e o Outro, a tensão original do Novo em construção, mas construção difícil, paradoxal e se alimentando constantemente de todo um corolário de paradoxos acessórios, um constante arriscar-se, arriscar-se a iluminações como a abismos infindáveis. Tensão de vida feita sobrevivência, intervalo de significação entre sentidos insuficientes.

Onde estará a paz? Certamente não no aceitar de uma conivência violenta com a Totalidade. Antes expor de forma inquestionável a própria essência da contradição, do que em algum mínimo momento deixar que se sugira que esta não existe ou foi triunfantemente anulada; antes viver de coragem renovada a desafios impossíveis, do que condescender com convites redentores suspeitos e sínteses apressadas - é isto que exige terminantemente a nobreza e a sinceridade freudianas. Definitivamente, o sentido é maior que a linguagem que o expressa, e bem mais dificilmente inteligível. A obra da cultura apenas começa; tem ainda, muito mais, a conotação exata de uma gigantesca obra de barbárie: esta tem sido, até aqui, sua verdadeira história reiterada, independentemente do que possa sugerir qualquer historiografia[57]. Negar tal seria, acima de tudo, insincero porque irreal; e assim, se tal não pode ser dito na linguagem do otimismo historicista ou iluminista, que o seja ao menos na linguagem do paradoxo. Ali não há, em nome de alguma redenção falsa, nenhuma espécie de conivência com o absurdo.

Fr. i. Br., 1993.


[1]Cf. ROBERT, Marthe. De Édipo a Moisés - Freud e a consciência judaica, 172, nota 18: "A oposição clássica entre helenismo e judaísmo em Freud recobre um remorso singularmente intenso, como se o seu amor pela Grécia fosse o signo visível de um verdadeiro renegamento. Cf. a carta que ele escreveu sobre esse assunto a Romain Rolland, com a idade de 80 anos...".
[2]Veja-se a famosa "Introdução" à edição hebraica de Totem und Tabu: "Keiner der Leser dieses Buches wird sich so leicht in die Gefühlslage des Autors versetzen können, der die heilige Sprache nicht versteht, der väterlichen religion - wie jeder anderen - völlig entfremdet ist, an nationalistischen Idealen nicht teilnehmen kann und doch die Zugehörigkeit zu seinem Volk nie verleugnet hat, seine Eingenart als jüdisch empfindet und sie nicht anders wünscht. Fragte man ihn: Was ist an dir noch jüdisch, wenn du alle diese Gemeinsamkeiten mit deinem Volksgenossen aufgegeben hast?, so würde er antworten: Noch sehr viel, wahrscheinlich die Hauptsache. Aber dieses Wesentliche könnte er gegenwärtig nicht in klare Worte fassen. Es wird sicherlich später einmal wissenschaftlicher Einsicht zugänglich sein..." (Kulturtheoretische Schriften, 293). Dada a evidência cristalina destes elementos incomodamente e conscientemente irresolvidos (não estamos às voltas com o Freud estudante ou neurologista, mas com o Freud maduro de setenta e quatro anos de idade), qualquer análise que pretenda desconhecer a complexidade real desta afeição - como certas biografias, que "resolvem" este problema em poucas linhas e ignoram olimpicamente a tensão central que advém desta difícil convivência entre dois mundos -, evidenciar-se-á, no mínimo, como parcial. (Sobre a forma específica do judaísmo freudiano, veja-se ainda MEZAN, R. Freud, pensador de cultura, 62-81.)
[3]Conscientes embora da artificialidade desta classificação, consideramos "culturais" as obras de Freud que se inclinam principalmente à interpretação de determinados mundos culturais amplos, principalmente com referência à história e à contemporaneidade.
[4]ROBERT, M. Op. cit., 31.
[5]"Como judeu eu estava preparado para estar na Oposição e para agir sem a concordância da 'maioria compacta'" (cit. por Marthe Robert, op. cit., 39) - mas não qualquer judeu, e sim um que havia experimentado, como muitos, a agressão aguda do preconceito.
[6]Cf. a Introdução deste trabalho.
[7]Cf. RICOEUR, Paul. "Freud como Aufklärer", in: O conflito das interpretações, 144.
[8]In: Kulturtheoretische Schriften, 284.
[9]Cit. por JANOUCH, G. Conversas com Kafka, 211.
[10]Por "Iluminismo " entendemos aqui algo como a clássica definição de Kant: o ato pelo qual o ser humano assume a si mesmo enquanto racional e se independentiza da direção externa para conduzir sua razão - "Aufklärung ist der Ausgang des Menschen aus seiner selbst verschuldeten Unmündigkeit. Unmündigkeit ist das Unvermögen, sich seines Verstandes ohne Leitung eines anderen zu bedienen" (KANT, Immanuel. Beantwortung der Frage: Was ist Aufklärung?, A481, 482, in: Werke in sechs Bänden, Band 6, Organização de Wilhelm Weischedel, Frankfurt a. M., Insel Verlag, 1964).
[11]Não se trata, aqui, de analisar filosoficamente esta obra - o próprio Freud assegura que seu trabalho nesta obra consiste muito mais em investigar o que o homem comum entende como 'sua religião' do que em explorar "as fontes mais profundas do sentimento religioso" ("die tiefsten Quellen des religiösen Gefühls", Das Unbehagen in der Kultur, II, in Kulturtheoretische Schriften, 206) - mas, sim, de seguir a organização lógica interna da obra no sentido de evidenciar com clareza o contraponto paradoxal entre um método e uma postulação.
[12]Die Zukunft einer Illusion, 139.
[13]Cf. Op. cit., 139.
[14]Cf. Op. cit., 141.
[15]Op. cit., 141.
[16]Op. cit., 142.
[17]Op. cit., 145. É interessante registrar a observação de Freud: "não se pode esperar a interiorização de interdições (Verbote) culturais por parte dos oprimidos" - uma classe inimiga da cultura. (Idem, ib.)
[18]Op. cit., 154.
[19]Op. cit., 160.
[20]"Es gibt keine Instanz über der Vernunft", Op. cit., 162.
[21]"Der durch der Philosophie nicht beeinflusste Mensch wird sie nie annehmen können, für ihn ist mit dem Zugeständnis der Absurdität, der Vernunftwidrigkeit, alles erledigt" (Op. cit., 163). A quantos penosos mal-entendidos não terá levado uma tal assertiva! Ela sugere com uma certa rapidez a possibilidade de se pensar e expressar o pensamento "fora" de categorias filosóficas, ou seja, fora da linguagem e de qualquer lógica - como se a expressão de tal opinião não se utilizasse - e de uma maneira agressiva - de categorias filosóficas extremamente claras e identificáveis - as da Aufklärung e de uma determinada forma de positivismo radical. É inconcebível supor que Freud fosse ingênuo a tal ponto, ainda que muitos de seus intérpretes o sejam; preferimos reconhecer aqui mais uma instância de construção e habitação no notável paradoxo que permeia toda esta obra, bem como a totalidade das obras "culturais" de Freud.
[22]Op. cit., 164.
[23] Uma crença é, para Freud uma ilusão quando tem como motivação a satisfação de um desejo: "Wir heissen also einen Glauben eine Illusion, wenn sich in seiner Motivierung die Wunscherfüllung vordrängt" - Op. cit., 165
[24]"Die wissenschaftliche Arbeit ist aber für uns der einzige Weg, der zur Kenntnis der Realität ausser uns führen kann" - Op. cit., 165-166.
[25]"Die Unwissenheit ist die Unwissenheit" - Op. cit., 166.
[26]Op. cit., 167.
[27]"Wir sagen uns, es wäre ja sehr schön, wenn es ein Gott gäbe als weltenschöpfer und gütige Vorsehung...Und es wäre noch sonderbarer, dass unseren armen, unwissenden, unfreien Vorvätern die Lösung all dieser schwierigen Welträtsel geglückt sein sollte" - Op. cit., 167.
[28]Op. cit., 170-171.
[29]"Die Religion wäre die allgemein menschliche Zwangsneurose..." - Op. cit., 177.
[30]Op. cit., 177.
[31]Cf. Op. cit., 165: "Die Rätsel der Welt entschleiern sich unserer Forschung nur langsam, die Wissenschaft kann auf viele Fragen heute noch keine Antwort geben".
[32]Nosso livro, em preparação, Limiar e entre-tempos, trata d a questão de uma "Antropologia dos intervalos", na qual se examina a dialética "interparadoxal" que sustenta o desenvolvimento humano.
[33]"Die Wahrheiten, welche die religiösen Lehren enthalten, sind doch so entstellt und systematisch verkleidet, dass die Masse der Menschen sie nicht als Wahrheit erkennen kann" - assim como a criança não compreende, na fábula da cegonha que traz os bebês, quem é verdadeiramente a "cegonha"- Cf. Op. cit., 178.
[34]Op. cit., 182.
[35]Op. cit., 182-183.
[36]Op. cit., 186.
[37]"...Aber die Wissenschaft hat uns durch zahlreiche und bedeutsame Erfolge den Beweis erbracht, dass sie keine Illusion ist" - Op. cit., 188.
[38]"Nein, die Wissenschaft ist keine Illusion. Eine Illusion aber wäre es zu glauben, dass wir anderswoher bekommen könnten, was sie uns nicht geben kann"- Op. cit., 189.
[39]ROBERT, Marthe, de Édipo a Moisés - Freud e a consciência judaica, 122.
[40]ROBERT, M. Op. cit., 202.
[41]Cf. ROBERT, M. Op. cit., 77.
[42]ROBERT, M. Op. cit., 31.
[43]ROBERT, M. Op. cit., 202.
[44]Em termos de proveniência, e não em termos de explicitação por um sistema psíquico determinista.
[45]É possível que releituras contemporâneas de Freud estejam exatamente nesta trilha; seria aqui porém inoportuno desviar a discussão no sentido de circunscrever suas intuições básicas. De qualquer forma, a aproximação da noção de "diferença" é fundamental para distinguir entre elaborações iluministas - que desejam que a diferença seja "subsumida" na razões da Razão - e contemporâneas - que objetivam preservar o Diferente e "opor a cada razão estabelecida uma outra razão", no dizer inspirado de Camus; tudo isto, no que se refere à compreensão da essência da questão.
[46]Cf. nosso Artigo "O fim da história como fim da totalidade" in: TIMM DE SOUZA, Ricardo. Totalidade & Desagregação - sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas.
[47]"Alles, was die Kulturentwicklung fördert, arbeitet auch gegen den Krieg" - "Warum Krieg?", in: Kulturtheoretische Schriften, 286.
[48]"Warum Krieg?", 286.
[49]Sobre este livro e este assunto já se escreveram obras notáveis (Cf. por exemplo YERUSCHALMI, Yosef Hayim. O Moisés de Freud - judaísmo terminável e interminável), e nossa intenção não é estudar o conteúdo do mesmo, mas apenas examinar brevemente as condições de seu surgimento, desde nossa ótica interpretativa.
[50]"Mit der Verwegenheit dessen, der nichts oder wenig zu verlieren hat..." "Der Mann Moses und die monotheistische Religion - drei Abhandlungen", in Kulturtheoretische Schriften, 503.
[51]Cf. Op. cit., "Editorische Vorbemerkung", 457.
[52]Cf. Op. cit., "Editorische Vorbemerkung", 458.
[53]Cf. Op. cit., "Editorische Vorbemerkung", 457.
[54]Cf. Op. cit., 459.
[55]Op. cit., 506.
[56]Cf. YERUSCHALMI, Y. H. Ein Feld in Anatot, 81ss.
[57]Cf., adiante, a sétima Tese Sobre o conceito de história, de W. Benjamin.

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