FILOSOFIA MÍNIMA



Filosofia mínima


Ricardo Timm de Souza

– A filosofia verdadeira é a difícil tarefa de, por uma espécie de retorção mental, penetrar na nebulosidade do pensamento que ainda não assumiu as rédeas de seu próprio desenvolvimento, que ainda não se deixou penetrar e seduzir por sua própria inexorabilidade lógica; isto para tentar captar a indefinição de todas as definições, o nascedouro de todas as realidades e novidades que serão depois consideradas desde um parâmetro retrospectivo. Isto deve dar a idéia clara das dificuldades que o filósofo enfrenta. Todavia, serve também para que se perceba que, precipuamente, o pensamento filosófico convida à confiança no ‘ainda não conhecido’ – temeridade absoluta, ao mesmo tempo que alívio para a inflação subjetiva do filósofo. Pois os mundos e as realidades existem apesar dele.
– Talvez tenha sido Walter Benjamin o primeiro pensador a ampliar realmente a gama do arco-íres filósofo. Ele não se contentou com a tautologia das cores óbvias; mas viu, por uma atitude de microscópica exploração, novas possibilidades no intermeio das cores tradicionais, bem como cores outras que não as que o pensamento facilmente percebe como valiosas. No infra – e vida filosófica, que Benjamin – de uma maneira muitas vezes excessivamente tímida, dado o inusitado da situação – rastreou com propriedade. E ainda hoje, no esgotar-se do século, ainda há quem não se roçar pela evidência ‘não- evidente daquilo que o pudor ontológico modestamente acoberta, e que se deixa atropelar pelas tautologias enlouquecidas das totalizações em todos os níveis. É muito possível que Benjamin tenha percebido, definitivamente, que os pesos diminutos (ou gigantescos, quem sabe?) do que escapa às malhas da rede da subjetividade onipotente pesam por si mesmos.
– A tarefa filosófica não é para um mundo acostumado ao conforto da instalação, ou para vidas que vêem o futuro como um passado às avessas. Para estes, a inconseqüência do eternamente já sabido é suficiente. A filosofia realizada a partir destes parâmetros executa uma excelente caricatura de si mesma. A futilidade é seu brumoso pano-de-fundo, e ela consegui solidificar perfeitamente a inutilidade, e sobrevive com base em sua própria inconsistência. Esta pseudo-filosofia seria apenas oca, se em seu oco não achassem guarida as mais variadas falácias, desumanidades e ideologias; como isto sempre acontece, a filosofia fútil é culpada inapelavelmente de sua própria traição.
– Quando penetra na solidez das coisas reais, o pensamento é sempre indelicado. Estranho paradoxo este! Pois a idéia é mais perniciosa às coisas sólidas do que estas à idéia; um objeto concreto resiste muito menos à violentação por parte do que sobre ele se pensa do que a recíproca. E a tarefa gigantesca que a subjetividade pensante se propôs e que as totalizações tentam culminar é justamente transformar esta inversão no que de natural possa haver na natureza (pensada). E quantas gerações não têm respirado unicamente esta atmosfera!
– O pensamento de Theodor Adorno é um exemplo de como não é o filósofo obrigado a capitular frente à combinação torturante de suas próprias idéias com os infinitos dados que as sustentam. Por não querer dar nunca a palavra final, Adorno sofreu a perseguição implacável da iminência da culminação ativa. Mas sua filosofia foi a passividade eternamente efervescente, e eternamente insatisfatória – um pensamento que não conseguiu, mesmo nos ápices de pureza expressiva (raros mas existentes), livrar-se da contaminação irresolvidamente empírica como exemplo de não-hipocrisia filosófica.
– O sonho de toda totalização é fazer com que a realidade se deixe simplesmente substituir pelas imagens dela engendrada; ou seja, nunca imagem bergsoniana, que os instantâneos que dela se compõe seduzam até mesmo aquilo de que se originam.

 

Fragmentos sem nome


- Que grande auto-suficiência recende destas grandes camionetas importadas! Tudo nelas indica vitalidade, brilho, empáfia... O todo compacto que formam e a cintilação extraordinária da carroceria espelham o perfeito desprezo pelo mundo. Sua contrapartida está em suas irmãs pobres, estas ambulâncias antigas, descoradas, que cederam um pouco de seu colorido e de seu vigor para cada doente que transportaram.
- Nas sombras das pequenas histórias das vidas quotidianas movem-se indivíduos que têm medo de sua própria sombra; e estes retiram da amorfa penumbra do medo as energias para a regeneração de seus tecidos...
- A maior tortura da consciência é suportar a diferença.
- Nos desencontros do pensamento consigo mesmo se instila a possibilidade de toda realidade aparecer.
- A mediocridade é como o fungo mais prolífico que se possa encontrar; tal como este, viceja e se perpetua em meio à imundície formada por suas próprias excrescências.
- É difícil imaginar que a maldade realize sua essência.
- A maioria dos filósofos tende a sublimar a tortura e o sacrifício, nos quais a atividade de filosofar de certa forma e necessariamente se constitui, em uma espécie de disputa insossa de idéias, em uma vazia contenda de pensamentos. Tentam transferir sua própria tortura para seu semelhante, e extrair dela um rendimento para suas próprias convicções.
- Guerra: afirmação total da totalidade.
- A miséria só pode ser infinita.
-Uma pequena e solitária vela acesa é a combinação exata da humildade e do atrevimento.
- Tristes foram aqueles tempos dos jornais e revistas antigos, quando o mundo era colorido de preto e branco-amarelado.
- A verdadeira afetividade que se realiza em um gesto costuma introduzir no amorfismo compacto da quotidianidade convencional o maior perigo de desagregação.
- Nas grandes cidades, nos feriados, os homens se recolhem para que as ruas e casas possam se mostrar.
- A tarefa mais difícil da filosofia é pensar o mundo pelo prisma da delicadeza - de tal forma esta é traída antes e depois de cada pensamento.
- A doce obscuridade que converge para o fundo destas pequenas lojas de roupas usadas indica que não se esgota em suas velhas roupas humildes o seu mistério.
- Estes índios que perambulam vendendo artigos de palha, pesada é sua carga! Seus cestos estão cheios de frustrações e seculares humilhações; deles transborda a miséria de uma raça que se extingue.
- O velho vendedor de amendoins. Cada transeunte que de relance o olha e aos amendoins está na verdade perguntando porque ainda não morreu.
- Os ônibus cheios, no fim da tarde, não transportam gente, mas ilusões e esperanças meio perdidas.
- Nos dias luminosos de primavera, as coisas se destacam de suas molduras e reencontram seu brilho original.
- Há relíquias tão antigas que a elas ninguém liga uma lembrança ou um sentido, e nem elas se lembram do que foram.
- Alguma coisa, bem no fundo de cada julgamento, acaba recendendo a hipocrisia.
- A minúscula florinha do campo: tão frágil, humilde, recatada, que sua beleza não cabe toda nela.
- As nuvens que, no crepúsculo, desaparecem no horizonte, levam consigo os olhares que nelas pousaram - ou poderiam ter pousado.
- O horizonte distante serve para que o mar e o céu se encontrem para além de toda possibilidade de conflito.
-A velha tartaruga - seus olhos expressam a sabedoria que está para além de tudo que dela se possa pensar!
- O louco que grita pelas ruas proclama simplesmente a realidade de um mundo diferente.
- Os ônibus costumam receber passageiros em seu interior na esperança de que um destino comum os una.
- O metrô, energia feita transporte, quer dar aos homens a oportunidade para que eles descubram o tempo que eles não têm.
- Coisas há que somente pela absoluta limpidez de uma lembrança remota podem ser vividas sem ser violentadas.
- É estranho notar que por trás dos delírios, desatinos e loucuras geralmente só se esconde a falta de amor.
- De todas as loucuras humanas, a mais louca foi pensar que o céu estrelado foi criado para ornar e justificar a humana mania de grandeza.
- Infeliz da sociedade para quem a gratuidade é inacreditável.
- A poesia é a filosofia ainda não traduzida.
- A criança tem o hábito de não ver na feiúra senão a beleza que não se encontrou.
- Na hesitação da existência, no dormitar da coloquialidade, nas sobras do mundo bem-construído - naquilo que até a vida esqueceu - está a raiz e a razão de ser de toda filosofia que vai além de si mesma.
- A criança é a simplicidade que nem sua própria simplicidade conhece.
- Aceitar a realidade da realidade que se afirma apesar de todo pensamento - esta a tarefa mais ingrata de todo pensamento
- Nos longos dias cinzentos, quando o céu está triste demais para chorar, as nuvens confundem-se umas com as outras em suas mútuas consolações.
- A Razão é a racionalidade que perdeu a consciência de seus limites.
- A portentosa caixa d’água, que se ergue sobre a colina, sabe que por seus tentáculos subterrâneos corre a seiva que alimenta a cidadezinha.
- A suavidade das linhas dos cômoros de areia - reintrodução da delicadeza sobre a face da terra.
- A gatinha que tem sempre muitos filhotes não sabe, em sua inocência, que também é mãe da vida.
- Sob o disfarce da informação, a televisão consegue evidenciar a absoluta impotência do espectador com relação ao que ali se mostra.
- O julgamento por excelência: julgar a História. O mais urgente e o mais necessário.
- Estes grandes conjuntos residenciais denotam a amabilidade de que são capazes as maciças formas geométricas que acolhem gente em seu interior.
- Acostumou-se a pensar que o que escapa à demarcação tem de ser imaginário ou divino.
- A dor é o ser que não consegue esquecer de si mesmo.
- A ganância consegue o maior milagre: transformar o dinheiro, abstração absolutamente perfeita, em concretude perfeitamente sólida, onde o ganancioso pode até se refugiar de si mesmo.
- O racismo: tentativa de livrar a totalização das manchas que existem em seu caminho.
-  Quanto maior a grandiloqüência do discurso, maior a hipocrisia que o sustenta.
- Na tortura é hediondo também o fato de que o torturador não enxerga geralmente no torturado mais do que seu próprio pesadelo.
- A ocorrência da realidade é a acintosa ultrapassagem do razoável.
- A bestialidade racista surge quando a cor ou a raça não são mais redutíveis à Idéia, ou quando o são excessivamente.
- A chuva, exemplo de otimismo, tem sempre a esperança ingênua de lavar da terra o sangue que sobre ela já se derramou.
- O surdo conseguiu deixar a cacofonia da mediocridade entregue a si mesma.
- A intolerância: totalidade que não se convence de que ainda não se completou.
- A infinidade das gotas de orvalho: pureza infinitamente multiplicada.
- Coisas há que existem apesar de sua impossibilidade.
- A lua cheia, roda de vida branca no céu escuro, não é prepotente para com o céu do qual se destaca.
- Alguma coisa está a bradar que o problema antropológico precisa ser totalmente recolocado – ainda uma vez – ab initio.
- O correr do tempo é o triste desencanto de minha subjetividade onipotente, que se vê constantemente atirada ao que ainda não compreende.
- Quando da simples pureza do contato, todas as teorias do conhecimento soam terrivelmente artificiais.
- Na futilidade das colunas sociais, o ridículo se encontra consigo mesmo e se veste de alegria e triunfo; estas colunas sociais realizam o milagre de criar um mundo perfeito.
- O sol, em sua generosidade, só peca por exagero.
- O mais difícil da ontologia: compreender que o ser, a si mesmo, não (se) sustenta, apenas afunda.
- A novidade transtorna.
- A noite profunda . manto protetor que desce sobre os homens para que estes, por algum tempo, enxerguem a si mesmos.
- A massa plácida de água do grande lago está a lembrar que a tranqüilidade ainda é possível apesar de toda sua improbabilidade.
- O antigo e descorado parque de diversões: nele, a alegria coincide com a singeleza.Qual o real limite entre as duas? Ou a idéia de limite é já uma profanação?
- A formiga no alto andar do prédio é simplesmente pequena demais para a altura que alcançou.
- Os pingos de chuva que se precipitam agilmente demonstram a possibilidade de uma tarefa realizada com união.
- O cirquinho pobre, de lona rasgada, indica que ainda há refúgio para a alegre simplicidade.
- O barco solitário da margem da lagoa avistado é sempre único no mundo.
- Se o homem percebesse claramente as profundezas que o cercam, refugiar-se-ia imediatamente na loucura.
- Que não se engane quem ouve o demagogo que troveja hipocrisias: ele não fala por ele, mas por uma época e um espírito que perderam o controle de sua própria perversidade.
- O mar que quebra na praia fala continuamente, mas ninguém o entende.
- A única atitude cognoscitiva verdadeira é a hospitalidade.
- O que é, para a consciência onipotente, alguma coisa possível? Aquela a respeito da qual ainda não se proclamou a impossibilidade.
- O estômago que recebe alimentos acredita sinceramente dispor de tempo para efetuar o processo digestivo.
- A coragem absoluta: não saber ainda o que se quer saber (aventura no nada epistemológico).
-O artista costuma alçar as coisas do fundo de sua imponderabilidade até um esquema forma onde elas possam brilhar sem destruir, por seu simples aparecer, o que se lhes acerca.
- O conhecimento verdadeiro só pode partir de uma condição de desordem máxima.
- A propaganda, o “marketing”, são a hipocrisia colorida que não permite que ninguém se subtraia a seu poder.
- O cão sem dono, imagem da dignidade: ninguém participa de suas angústias.
- A realidade eminente da Idéia: depender totalmente de si mesma.
- Um grande mandamento: não se rouba à coisa que se manifesta a liberdade de sua própria manifestação.
- A lição máxima da filosofia e do mundo tem sido: não se pode perder tempo com o que sobra.
- Ao contrário do que normalmente se pensa e se age, a chegada não está implícita na saída.
- O mundo moderno é medroso - teme sua sombra, que também quer exercer seu direito de existir.
- O pensamento que realmente vive perde-se no mais além de si mesmo: no limbo da própria que nem pensa.
- Não há antídoto contra o aburguesamento intelectual.
- Uma condição para a novidade diga a si mesma: que o sujeito desdiga o já dito.
- As cores carregadas do interior da densa floresta são o próprio mistério materializado.
- O tempo presente instaurou como objetivo de vida um mergulho nos objetos, e o ideal seria se todos se pudessem revestir de plástico de agradável textura e brilhassem como os “leds” da parafernália eletrônica doméstica, movida a desejos.
-O pensador recatado acredita sinceramente no que procura, desconfiando porém do acha.
- O sofrimento, mesmo antigo, é sempre novo.
- Quando se compreenderá que o peso das coisas está nelas mesmas?
- A eloqüência poética não consegue ser acintosa.
- Uma coisa tão simples quanto olvidada: alguém que tem a intenção de achar o sentido de alguma coisa na verdade quer achar um sentido por ele abarcável. Só isto.
- Também o zumbido da abelha é adocicado.
- O homem pulveriza-se em sua hominização para tentar imiscuir-se sem pedir licença por todas as frestas da realidade.
- O mundo (para qualquer dos sentidos desta palavras) tem de ser urgentemente re-considerado.
- O sonho do mundo é se encontrar no mapa-múndi.
- Apesar de tudo, também a frustração pode ser domesticada.
- Uma consciência depurada de si mesma é condição para a ocorrência da realidade.
- A filosofia tem estado geralmente para a realidade como alguém que tentasse enquadrar com uma moldura de madeira o pôr-do-sol real.
- Ao menos o papagaio traz à maioria das palavras sua realidade própria.
- Quando o intelecto claudica surge a esperança de que a realidade seja real.
-A poesia é a perda (racional) do controle irracional.
- No cãozinho amoroso - ternura pilosa - também a umidade do focinho é gentil.
- Novidade profunda: a desordem em seu não-ordenar-se.
- A inteligência geralmente se perde em si mesma antes de chegar a roçar alguma coisa.
- O beija-flor é a delicadeza que criou asas e saiu pelo mundo para experimentar a doçura.
- As coisas geralmente não resistem à proclamação de sua irrealidade.
- O verdadeiro nome do preconceito é medo.
- A sociedade entende como uma de suas principais tarefas trazer tudo à mediania.
- Às seis da tarde finalmente o dia se encontra consigo mesmo.
- O autoritarismo e a violência continuam a ser o refúgio preferido da indigência intelectual.
- A mediocridade sobrevive porque a si mesma não entende.
- A mariposa noturna é o aveludado depósito de discrição.
- O mormaço é a exalação da terra irritada pela presença do incômodo humano.
- Os livros são geralmente modestos demais para o valor de seu conteúdo.
- A pomba não sabe que é da paz.
- O violino não pode realmente cantar porque o violinista o faz gemer.
- O quadro de milhões de dólares não sabe que está a tal ponto submergido na negociata universal.
- A folha de papel em branco retrata a generosidade perfeita: oferece-se inteira e a tudo acolhe.
- O infinito é a idéia des-reguladora da subjetividade.
- O sonho secreto do capitalismo é transformar a injustiça em algo absolutamente inquestionável.
- O indiferentismo mútuo nas multidões é porque todos têm, no fundo, dúvidas acerca de sua própria humanidade.
- O inusitado da selvageria é que sempre acha quem a justifique.
- O homem é o animal que não espanta por estar continuamente acossado pelas mais espantosas maravilhas.
- O antigo peso para papéis feito de vidro: sua idade não é pretexto para que deixe de ser útil.
- A cauda do cometa é para carregar quem sobre ela já se imaginou voando.
- A serpente é viscosa para escapar aos impropérios e ofensas que os homens lhe lançam.
- Os altos muros que cercam certas mansões servem para evitar que os donos das casas escapem do que querem proteger.
- À medida em que crescem, os homens tendem a se deixar substituir por suas respectivas aparências.
- Também as sombras se assustam com aquilo de que são sombras.
- O capitalista pensa que está no caminho mais fácil para o infinito.
- Onde a criança está o sol nunca se põe.
- O uniforme brilha mais do que quem o usa.
- O computador é a calculadora que quer roubar o fogo do homem.
- O médico-legista - que realiza uma atividade metafísica por excelência - descobre que também por dentro há um freio ao egoísmo do ser.
- O fato de alguém padecer de meus males é sempre espantoso.
- A pior perversão continua sendo julgar que o dinheiro compra tudo.
- As crianças são, no fundo, os anjos-da-guarda mortais das boas intenções humanas.
- Muitas obras de arte contemporânea são uma tentativa sincera de materializar o desatino.
- As coisas são em si doações que se oferecem à violência humana.
- Grande exemplo de generosidade é também o lápis: doa inteiramente seu cerne a quem dele se quiser utilizar.
- A verdadeira obra de arte dispensa os comedimentos; estes são adereços somente da mediocridade e da subserviência intelectual.
- É típica da mentalidade tacanha a preocupação com sua auto-justificação.
- As engrenagens da grande máquina realizaram finalmente a lógica perfeita.
- As verdadeiras virtudes não são comedidas.
- O brilho aveludado do som do oboé diz sempre que a música não é hermética como o pedantismo gostaria que fosse.
- A matemática é a única entidade que a si própria cria.
- A astronomia quer fazer dos astros e de suas distâncias joguetes de fórmulas.
- A carta foi tudo o que poderia ser, antes que alguém a profanasse.
- A água pura é transparente para que nela não possam repousar os olhares impuros.
- A forma é inversamente proporcional ao conteúdo.
- Os cartões de visita verdadeiramente elevam ao nível de conceito seus donos.
- A modéstia artificial é recurso das mentalidades estreitas em busca da credibilidade que nem elas mesmas a seu próprio respeito têm.
- As infinitas estrelas não sabem que são irmãs.
- O cinismo é a ironia que perdeu as esperanças.
- A beleza real realmente ultrapassa seus conceitos.
- A concretude do mundo ultrapassa o que dele se pensa.
- Nem só de subjetividade vive o espírito.
- O amor é revolucionário.
- A poesia é um dos refúgios da pureza que perambula sobre a terra.
- O azul profundo do céu aberto é uma das idéias platônicas que resolveu se mostrar.
- A inflação é a excreção descontrolada da ganância.
- A utopia realizada é a nostalgia do futuro.
- A lua crescente foi feita para que os românticos, pendurando-se nela, possam chegar às estrelas.
- A flor é a cor que não se conteve dentro da planta.
- A verdadeira obra de arte é também a sensibilidade que deitou fora seu pudor.
- As roupas penduradas no varal são na verdade gente purificada da miséria humana.
- A nuvenzinha solitária em dia de forte sol é a condensação dos pensamentos que não serviram à Idéia.
- O prego ao menos tem a cabeça chata que a realidade bata nela.
- As pérolas, lágrimas da ostra, mostram que as lágrimas podem ser mais sólidas do que quem as chora.
- No circo pobre, onde os animais mais ferozes são um bode velho e um cavalo albino ensinado, todos - animais, artistas, picadeiro e até a música desafinada - entram em cumplicidade para a ereção de um mundo de paz.
- A curiosidade é a única paixão sempre sincera.
- Emite-se tantos juízos a respeito do som do fagote que quase sempre sua música sai envergonhada.
- Os julgamentos de realidade só são reais para si próprios.
- A raposa é o cão que perdeu a ingenuidade e a confiança nos homens.
- Há quem acredite que lendo os livros está lendo o mundo.
- As colunas sociais são na verdade denúncias de que a futilidade ainda existe.
- A superficialidade, o consumismo e o artificialismo erigidos como modus vivendi do mundo contemporâneo estão conseguindo o que séculos de pestes e guerra não conseguiram: transformar o homem num espectro de si mesmo.
- As rugosidades e rachaduras na fachada das casas antigas são o sinal indelével de contrição pelo que foram obrigadas a assistir ao longo do tempo.
- Quanto tempo ainda terá de passar para que se perceba finalmente que a grande maioria dos que aparecem ‘socialmente’ em evidência não são mais do que parasitas que perderam a vergonha e o senso do ridículo?
- O som do violoncelo é a voz humana purificada de sua hipocrisia.
- Pelo menos a raiz quadrada de número negativo mora em um mundo ao qual a podridão não tem acesso.
- Há quem julgue que a poesia não é perigosa.
- O terrível da indigência intelectual é que ela não pode se compreender.
- O asfalto quente nos dias ensolarados não faz mais do que refletir a aspereza de quem sobre ele transita.
- O mundo contemporâneo tem por combustível a indiferença; é ela que lhe dá a esperança de levar tudo e todos à mais completa desesperança.
- No jogo sado-masoquista da mediocridade, a criatura maliciosa sofre, no fundo, por não poder provar diretamente os efeitos de sua língua e de seus atos; tal seria a sua verdadeira realização.
- A terra é redonda para que alguém finalmente encontre a si mesmo, dando uma volta completa nela.
- O relógio serve somente para convencer o homem de que ele dispõe de muito pouco tempo para não achar o que procura.
- A lava vulcânica, sêmen terrestre, está a lembrar ao homem de que ele não é digno de ser por ela fecundado; ele está antes ou depois das possibilidades do mundo.
- Os homens têm por hábito se conceder excessivas liberdades em proporção a seus méritos.
- O homem que não se choca com sua indigência está mortalmente pervadido pela totalidade.
- O crocodilo chora por não conseguir, com seus dentes afiados, chegar perto da bestialidade e do poder destrutivo humanos.
- O homem não compreende a linguagem infinitamente sutil do vento.
- As borboletas escrevem no céu, com seu voejar, aquilo que falta à linguagem dizer; mas ninguém lhes presta atenção.
- A majestade do órgão está em que ele a mostra inteira.
- A pintura cubista tenta traduzir o que os cubos estão dizendo.
- Os diamantes definem eles mesmos seu ponto clivagem; mas todos fingem não perceber isto.
- O rinoceronte aponta para a frente com seu chifre mas, devido ao medo, ninguém está atento a esta ordem magistral.
- O céu não costuma proclamar sua grandeza.
- Pelo menos o homem resiste a suas explicações.
- A idiotização do mundo contemporâneo é pelo menos tão inteligente quanto a exploração do homem pelo homem é efetiva.
- O incrível não é que haja devastação da natureza, mas que ela a suporte: paciência para além de todos os padrões humanos.
- Uma parábola é tão verdadeira como aquilo a que se refere.
- A ideologia é o avesso operativo da indigência intelectual.
- Quando a tortura entra, as palavras, envergonhadas, se retiram.
- As palavras só saem da boca do demagogo porque elas gostariam de acreditar no que estão dizendo.
-  Também no prosaico há riqueza.
- Tudo o que não é obra de amor retira de si qualquer possibilidade de valor.
- O camaleão muda de cor de vergonha pelo olhar que os homens lançam uns aos outros.
- A estrela-do-mar mostra que o oceano também é cósmico.
- Por que os homens e os partidos conservadores não têm nunca coragem de dizer a que realmente servem?
- O sonho do capitalista é encontrar uma terra onde o dinheiro possa ser plantado diretamente no solo, sem passar pela nojenta intermediação humana.
- Não há nada tão criativo como a ganância; por ela, toda exploração é justificada.
- As formalidades estúpidas vivem a dar os últimos retoques no reino das aparências.
- Nada é tão decidido como a reta geométrica: dirige-se definitivamente para a frente, sem olhar para os lados.
- O nevoeiro é o manto que a terra estende para tentar cobrir o despudor vergonhoso que sobre ela prolifera.
- As novelas televisivas acabam por cumprir o que implicitamente prometem: a democratização perfeita da imbecilidade.
- A grandeza da psicanálise está em suas intenções.
- A coruja, seriedade revestida de penas, não pode conter um ar severo quando atenta para as loucuras humanas.
- A poesia é a metalinguagem do concreto.
- A verdadeira filosofia é a realidade que ainda não se mostrou.
- A chuva é o reiterar cristalino da água que não se conteve e veio consolar a terra.
- O instante é a condensação de todas as riquezas.
- A história de uma vida pessoal é simplesmente infinitamente inenarrável.
- Mundo é a falência dos preconceitos que a respeito dele se tem.
- Uma intuição estética costuma ser demasiadamente brilhante para ser aceita.
- As coisas riem de quem as observa.
- Exemplo de altruísmo, as lâmpadas vivem somente para fora de si mesmas.
- O homem, em sentido não-psicológico, se confunde com o que o cerca.
- As miragens são mundos abortados.
- O mundo contemporâneo não acha as palavras certas.
- Na imbecilidade geral, todo pensamento é seriamente suspeito.
- O pesadelo constante da sociedade é espiar atrás de si mesma.
- Os formalismos nas relações humanas são as especiarias que disfarçam a podridão dos verdadeiros conteúdos e intenções.
- A futilidade se concretiza plenamente na tagarelice.
- A verdadeira ars poetica se realiza a despeito do que da poesia se diz.
- Na vilinha pobre se dá a convergência da simplicidade em estado bruto.
- As pessoas não se encontram realmente, e o mundo contemporâneo não as quer encontradas.
- A bondade verdadeira, condição de toda positividade, ainda se manifesta apesar dos rosnares maliciosos que lhe são dirigidos.
- A indigência moral é a única que acaba por se destruir e leva o que a cerca para além dos limites da regeneração.
- As verdadeiras obras musicais só por delicadeza não se evadem rapidamente das salas de concerto suntuosamente falsas onde são apresentadas.
- A sociedade apodrecida vive a revestir seu exterior com novas camadas de verniz elaborado nas fábricas de indiferença e desumanidade.
- A suprema patologia - chafurdar continuamente na negociata universal - continua a ser o ideal maior de vida de um mundo que resiste terrivelmente à necessidade de entender sua degeneração.
- Os relâmpagos, energia iluminada, tentam fazer com que os homens enxerguem finalmente sua própria nudez.
- Por muito tempo os homens julgaram encontrar-se na arte um bom refúgio para suas mazelas morais; a arte, porém, têm-nos benevolamente convencido que não se deixa, em sentido real, negociar.
- O desequilíbrio emocional é a porta de saída para a tautologia enlouquecida do mundo contemporâneo.
- A cosmologia só é problema para quem não o ama suficiente.
- Uma tarefa que a ideologia se propõe como primordial: fazer todo pensamento envergonhar-se de si mesmo.
- A roda-gigante à noite iluminada - fugidia felicidade em rotação - acaba por reiterar a eternidade dos instantes felizes.
- A utopia, nostalgia do futuro, reduziu as possibilidades do futuro a ela mesma.
- Geralmente a grande música não sabe que a estão executando na sala de concerto - de tal maneira é a interpretação falta de recato e contaminada pela leviandade das aparências.
- O arco-íris, auréola profana de santidade da terra, deixa-se ver na esperança de, com sua pureza, redimir a hipocrisia e indigência das veleidades humanas.
- Um coração puro é um eternamente náufrago na ilha das violentações.
- O mundo moderno fez de tal forma seu o cosmo desencantado e difusamente trágico, que as grandes tragédias raramente têm coragem de acontecer.
- O extraordinário da bondade e da arte verdadeira é tornarem a se tentar fazer reais em um mundo que superficialmente não as aceita e profundamente não as compreende.
- O romantismo é a beleza que não se conteve dentro da forma.
- A movimentação das galáxias não esperou pelas equações dos homens.
- A maior arma da incompetência é a neutralidade.
- As filosofias têm sistematicamente confundido a mão do homem que pensa e segura uma pedra com a pedra mesma.
- O mundo é redondo para melhor poder deslizar por entre as concepções que dele constroem os homens.
- A ganância é a falência consolada de todas as dignidades.
- A humildade é a virtude que menos gosta de se mostrar.
- A agressão é o descontrole da totalidade.
- A maior de todas as enganações: a manipulação de palavras como se fossem coisas.
- Um dos sonhos do mundo moderno: transformar a esperança em uma debilidade injustificável.
- Os homens têm o hábito de julgar que, em medindo alguma coisa, transformam-na em uma sua criação.
- As paixões dilacerantes pelo menos existem.
- A maior de todas as caricaturas: a música executada por um músico hipócrita.
- No mar da futilidade, só não afunda quem sorve continuamente a água que o cerca.
- A simplicidade choca.
- Ninguém pergunta pela morte do imortal, nem pela imortalidade do morto.
- Ainda há homens que se desencontram com sua imagem.
- As obras de arte acadêmicas são uma tentativa de exorcizar o que há de assustador na arte verdadeira.
- A especulação é também, no fundo, uma violentação exercida sobre os objetos de especulação; e esta não é um dos menores símbolos de seu grau de degeneração.
- O fato de alguém julgar que pode se resguardar em sua conta bancária evidencia o grau de imbecilidade a que pode chegar um homem e um mundo apavorados.
- O excesso de disciplina profissional pelo menos proporciona a quem a usa um refúgio para sua incompetência.
- Uma grande música não sabe, a rigor, como foi construída.
- A verdadeira poesia não pede desculpas por existir.
- A tristeza é o reiterar do encontro de alguém somente consigo mesmo.
- Os céus nublados ao menos não dão aos homens a chance de delirar pensando o sol radioso é um pálido reflexo de suas realizações.
- O animismo é engrandecedor: projeta vida nas coisas, ao invés de retirar a vida das coisas, como fazem as teorias do conhecimento tradicionais.
- A grande tolice: supor que o que repousa sobre o valor do dinheiro pode ser sólido.
- As ideologias que se realizam levam consigo tudo à destruição.
- A imbecilidade sempre se crê universal.
- A monstruosidade viceja também onde não se esperaria que isto pudesse acontecer.
- A indigência afetiva - a mais maligna das maldições - é um dos principais efeitos de séculos e séculos de totalização e seus apêndices.
- A humildade sempre surpreende por não reivindicar sua grandeza.
- De que serve aos homens ter ouvidos e não saber realmente ouvir?
- O mundo moderno é, acima de tudo, convencido da inexorabilidade de sua mediocridade.
- A arte verdadeira aparece aos homens por pura comiseração.
- O mundo e a realidade tendem a se esconder da raça humana por puro instinto de auto-conservação.
- O amor sempre grita quando aparece.
- Alguma sinistra monstruosidade ideológica quis convencer a todos que a música dodecafônica era mais bizarra do que o mundo degenerado no qual ela surgiu.
- Os animais e as crianças se atraem porque ainda não atingiram o nível de imbecilidade que torna grotesca toda aproximação e faz com que esta precise ser, a cada passo, justificada.
- O homem não sabe o que dentro de si vale.
- Na extrema-direita também a Totalidade de sua degenerescência profunda está agressivamente cristalizada.
- Na história da teratologia, o surgimento do racismo, da ganância institucionalizada, das intolerâncias de toda espécie, não é mais, no fundo, do que o reconhecimento do vigor do irredutível diferente e prova incontestável de sua eminente realidade.
- Um dia os genes se cansarão de tentar elaborar seres equilibrados e obterem como resultado apenas criaturas que violentam a cada passo a sua própria dignidade.
- Também a linguagem se rebela contra a manietação do discurso.
- No fundo, a tautologia não se suporta.
- A virtuosidade técnica: excelente modalidade de evasão do verdadeiro conteúdo artístico.
- O verdadeiro sinal de decadência de um povo: que este viva a comprar e a vender a si mesmo.
- Os corruptos e gananciosos aninhados no antro do poder são verdadeiramente abutres que se alimentam da putrefação de esperanças traídas.
- Os monstros torturadores são os únicos seres que se encontraram realmente com seus horrores mais profundos.
- O mais raro dos acontecimentos: que a pureza consiga se enxergar fora de si.
- A criança não entende o mundo, e os homens a não entendem - uma verdadeira tragicomédia a três.
- O pensamento só consegue geralmente pensar os reflexos variados de seus próprios preconceitos.
- A generosidade da arte faz com que ela se mantenha rigorosamente afastada do poder manipulatório humano - raiz de toda desumanização.
- O girassol é a prova de que uma imagem do sol verdadeiro não é necessariamente grotesca.
- O maior perigo para os exploradores e gananciosos: que eles descubram sua ingenuidade há muito perdida.
- Para o mundo contemporâneo, a boa qualidade é repugnante e suspeita em seu próprio aparecer.
- O que há de verdadeiramente patético na degenerescência contemporânea é o triste perambular das pequenas bondades puras em meio às extraordinárias potências que as querem esmagar.
- As formigas ao menos sempre sabem o que querem.
- A decadência só não leva a si mesma.
- As massas amorfas pelo menos não traem as expectativas de mediocridade geral - sua força está na idiotia elevada ao nível de constante de todas as equações da vida e do mundo.
- As coisas são mais sábias do que se pode pensar.
- Os lindos peixes tropicais marinhos não põem sua beleza à venda.
- No fundo, o mundo atual não sabe como de si mesmo escapar.
- A tarefa do filósofo: deixar as coisas se chocarem com sua própria realidade.
- Ninguém vê onde está a real beleza da arte.
- A mais grave tentação da inteligência: dar forma definitiva a todos os problemas.
- O incompreensível ocorre também onde não se suspeita.
- A arte adianta o inusitado da vida.
- O sonho da hipocrisia geral: que a sinceridade possa se alimentar apenas de seus próprios desgostos.
- Uma teoria a construir: a estética do ser humano.
- Somente em doses mínimas é a inteligência tolerável.
- Quando o homem perde de vista seus fins começa a se encontrar.
- O cúmulo da poesia: a que saiba fixar os desencontros da vida consigo mesma.
- Nas reuniões sociais os homens se comprazem mutuamente pelo grau de superficialidade que já conseguiram atingir.
- Os diamantes, mesmo não lapidados, são pequenas lágrimas que a terra chora no mais recôndito de seu ser.
- O sonho secreto de todo discurso: reduzir o outro a uma excrescência de sua lógica.
- Tudo deve ser pretexto para uma construção.
- O pára-raios não tem medo da realidade.
- Uma crítica da razão científica começa por uma crítica do sentido da palavra ‘crítica’.
- O começo de toda perdição: dar os fatos por já corroborados.
- Quando chegou a música aleatória, a arte pensou que poderia finalmente simplesmente aparecer.
- É uma tentação forte pensar que os antigos foram ingênuos.
-A situação-limite da vontade de poder é a autofagia.
- Todas as circunvoluções estúpidas do espírito têm origem na afetividade obliterada.
- Ao mundo que se orgulha de seu ressecamento, é repugnante a não-rigidez emocional que trai as expectativas de uma ataraxia degenerada.
- Aos olhos tautológicos dos homens, os anéis de Saturno aparecem sempre como excessivamente misteriosos.
- Os filósofos costumam se impressionar demasiadamente com a coerência de sua lógica.
- As crianças que nascem são a renovação da desconfiança no passado.
- A tonalidade foi a tentativa, geralmente frustrada, de acomodar a arte musical à previsibilidade confortável do espírito assustadiço com o que - simplesmente - pode trazer a esperança do diferente.
- Os homens hesitam em entrar na torrente da vida.
- O mundo não esperará por sua resolução.
- O homem é, em princípio, o ser de maior capacidade de condensação amorosa; e também a instância onde a traição desta capacidade se pode dar de maneira mais efetiva.
- Pelos atletas e jogadores de futebol desmedidamente valorizados - psicomotricidade elevada aos mais altos píncaros - a sociedade não perde a esperança de que possa vir a viver algum dia somente de aparências e ilusões.
- Há que estar atento aos grandes espíritos; eles costumam superar as expectativas que deles se possa ter.
- O mais difícil é convencer o mundo de que nem todos compartilham da degeneração que ele, de alguma forma, erigiu como ideal de desenvolvimento.
- O joão-de-barro se contenta com seu pequeno lar ajustado às suas necessidades - a patologia da posse desmedida não o atingiu.
- Quando o sol refletirá com seus raios a frigidez do mundo que já não se suporta e é violento no postergar a percepção de sua própria e cada vez mais irreversível degenerescência?
- A piedade que a criança é capaz de experimentar opõe-se simplesmente a toda puerilidade - e o mundo da criança definitivamente não é pueril.
-A esperança tem preferido se encarnar nos frutos das árvores ao invés de nos tecidos violentados da criança que vem ao mundo.
- O mais tragicamente ridículo: a ânsia desmedida por propriedades imensas, que só se justifica pelos delírios de quem se intitula seu dono e pelos de quem se lhe assemelha.
- A criança é a obra de arte e o futuro eminentemente tocáveis.
- O ganancioso explorador dos homens e do mundo - criatura vitimada pelo mais horrendo dos vícios - penetrou pela porta onde deixou todas suas esperanças de humanidade.
- Quando as crianças cansarão de nascer?
- Ao menos as estrelas estão fora do alcance do poder de fogo da violência humana.
- A criança é o inusitado que saiu do jogo da linguagem e se ancorou em um pequeno corpo; sua eterna curiosidade demonstra sua não-filiação à tautologia universal.
- Se a ganância não violentasse e destruísse a outrem, não passaria de uma das mais grotescas das debilidades humanas.
- O mais horrendo dos crimes: tratar a infância como preparação para o ingresso triunfal na universal negociata - pois esta é a tautologia que mostrou finalmente sua empírica e verdadeira face.
- As nuvens, massas multiformes de existência, esforçam-se sempre por saciar, com sua variedade, a incontentável avidez dos olhos humanos.
- Para a sociedade grotescamente anquilosada - para quem o único esforço que merece ser incentivado é o que dá à decadência real uma aparência de progresso - nada é mais perigoso do que as capacidades criativas sendo efetivamente realizadas.
- Quem ama infinitamente foi em verdade seqüestrado pelo além de todas as essências e existências.
- O coração latejando suavemente
Por entre os espasmos do futuro.



 Migalhas benjaminianas


- Sui generis é a figura do miserável mendigo errante. As esperanças e desesperanças deixaram de velar sobre ele; já não interessa ao futuro - mas também o passado o esqueceu. A inércia se realiza em seus passos não hesitantes, e até as coisas escapam de seus olhares simplesmente desqualificados. Apenas incomoda.
- Os jornais televisivos noturnos são a ponta do “iceberg” do inconsciente coletivo. Pelo menos nestes momentos, uma considerável massa da população tenta sintonizar sua atenção em um comprimento de onde comum, aquele definido pelo locutor, o qual traz aos espectadores a esperança de que os fatos sejam tão simples como são narrados. É uma espécie de ‘limpeza de terreno’ para as novelas que seguem, e que somente podem existir na unidirecionalidade da mensagem nada mais que colorida.
- Os bancários, e quem mais lide com dinheiro em estado puro, talvez não tenham descoberto ainda o extraordinário da tarefa que realizam. Pois verdadeiramente são os que manipulam o único conceito mental puro que se deixa tocar. Porque o dinheiro, que em tudo se transforma, deixa-se acumular inofensivamente pelas mãos deste hábeis profissionais - não os trai em sua materialidade e disfarça, por decoro, até mesmo sua onipotência.
- Como as coisas ainda não aprenderam com o homem a disfarçarem sua própria aparência? Pois o lixo que se acumula por vezes nas ruas não esconde sua condição; não se envergonha de sua materialidade. Apenas se acumula e compõe um novo quadro de realidade.
- Quantos não serão os que procuram os restaurantes finos com o único objetivo real de serem alvo da cortesia dos garçons? Pois a cortesia verdadeira é cada vez mais rara, de uma maneira inversamente proporcional à proliferação de sua irmãs hipócritas, que vicejam notavelmente no mundo das relações sociais.
- Quando os bombeiros abrem freneticamente caminho em meio à multidão de automóveis e pessoas, dão lugar a um acontecimento bem raro: a antevisão clara do heroísmo, heroísmo este aureolado pela ação em estado puro. No mundo do incêndio a ser extinto, não há lugar para as meias-palavras, nem tempo para o aparecimento de demonstrações de estupidez e mediocridade longamente incubadas.
- Por que uma desavença em logradouro público atrai tanta gente? É possível que todos vejam ali uma dinâmica melhor do que aquela que assumiram como sua. O mundo corre mais rápido, e os resultados ameaçam não esperar por sua domesticação em meio às tão polidas como vazias relações humanas habituais. Nas brigas, o tempo se acelerou, e tudo está prestes a acontecer.
- O trânsito enlouquecido que se desenrola pela grande avenida, no meio da qual está postada uma grande árvore, consegue dar ao pobre vegetal uma aparência nada menos que imbecil; o que está ela, afinal, fazendo ali? Fugiria, se pudesse? Por que não seca em meio às exalações hediondas dos canos de descarga? Tudo isto é uma sutilíssima tragicomédia.
- As greves cujos membros perambulam pelas ruas com faixas e cartazes de esclarecimento público parecem a um tempo horrivelmente impotentes e tragicamente limitadas. Quem diz que o que os grevistas realmente querem está estampado nos cartazes? Por que reduzir as exigências humanas de justiça a meia dúzia de palavras mal-escritas? Por que se necessita, sempre, fingir que naquelas palavras foi a dignidade encapsulada? Mas as greves são geralmente justas.
- No porto, os mastros de navios estrangeiros que de por cima de muros e armazéns são avistados acabam por, ainda que involuntariamente, colocar em perigo o mundo de quem os avista. Pois é difícil resistir ao desconforto da certeza de existência de outros mundos, cujo palavreado ainda não foi domesticado pela volubilidade patrícia, e onde o mistério ainda pode habitar.
- Quem mora nos pobres morros poeirentos também é geralmente poeira, do tipo que sobrou da modernização das civilizações e de seus arremedos de além-mar. Mas esta poeira não pode ser deslocada para baixo dos finos tapetes tecidos pela cibernética moderna e suas sustentações ideológicas e materiais.
- Por que dois amigos que se encontram no meio da rua fazem sempre questão de se mostrarem tão efusivos? Talvez queiram se convencer mutuamente que não pertencem à raça indiferente que os cerca. Em todo caso, improvisam sempre o espetáculo do reencontro.
- Os papeleiros que circulam pela cidade com seus pesados carrinhos estão a lembrar que ainda existe trabalho em sentido original. Pois como antigamente os homens viam na natureza virgem a pura hostilidade, e em meio dela se tinham de haver, hoje estes trabalhadores têm na natureza artificial que os cerca uma muito mais agressiva hostilidade; e as feras antigas eram anjos comparadas às feras civilizadas.
- O pequeno lago sobre o qual se inclina a velha ponte de pedra é apenas uma imagem de si mesmo, sombra clara de águas que não resistiram á ofensiva do descaso e da sujeira. Mas ainda refletem o céu.
- Os beija-flores ignoram que o progresso já chegou, e por vezes realizam incursões pelos pequenos jardins no meio da grande cidade. Na verdade, mostram que a beleza costuma resistir extraordinariamente à sua violentação. Ela não é frágil como seus despojos podem sugerir.
- Os grandes caminhões de entrega que atravancam o meio da rua, por que nunca têm um espaço a eles reservado? São criaturas que, com sua simples presença, evidenciam toda a fragilidade das estruturas às quais servem. A dinâmica da cidade não consegue sorver estes monstros atravancados em sua garganta.
- Os cartórios de registros vivem cheios de gente que desconfia da capacidade de uma propriedade ou ação serem reais e evidentes por si mesmas; por que os índios e outros povos não tinham cartórios de registro? Talvez permitissem que aquilo em que e de que viviam vibrasse a sua própria realidade, e nunca tripudiaram sobre coisas tão sagradas. Mas, na civilização, a ganância e a volubilidade se interpuseram entre as coisas e os homens - e há homens que vêem nisso uma vantagem.
- Como os elevadores não despencam pela carga de desconforto que comportam cada vez que um grupo de pessoas entra neles? Pois ao homem é, aparentemente, horrível se defrontar com outros representantes da mesma espécie não purificados pelas intenções conscientes mutuamente percebidas. Porque é inacreditável que outros tenham entrado, por outros motivos mas ao mesmo tempo, no mesmo elevador que cada um adentrou com objetivos tão claros.
- Por que os rádios estão sempre gritando? Desejará o som fornecer ao homem um terreno seguro onde este se possa firmar? Ou é o homem que tenta, pela ampliação dos gritos externos, abafar os murmúrios internos de humanidade, cada vez mais fracos e desconsolados?
- Não é difícil entender, por exemplo nos grandes bancos, que alguns poucos proprietários transmudem sua humanidade na mais desmedida ganância. O difícil é entender por que tanta gente vive a concordar tacitamente com isto.
- No meio da noite das grandes cidades iluminadas, até as estrelas desaparecem.
- A espontaneidade nunca se deixa abafar completamente; um exemplo disso são os cães vadios cuja presença no centro da cidade, se fosse notada, seria considerada discrepante com relação a todas as regras e ordenações.
- A burocracia engendrou um mundo paralelo que vive uma vida própria, independente daquele da obviedade e da simplicidade; neste mundo alternativo, a incompetência finalmente encontrou o refúgio que sempre procurava.
- As exposições de artes plásticas em salões de bancos e repartições públicas são sempre interessantes; senão pelas obras expostas, pelo menos pela estranha simbiose moderna que se cria entre tais obras e um local para o qual elas simplesmente nada significam.
- O chafariz seco no meio da praça da grande cidade - não significará que a seiva da cidade está se esgotando? Pois não só os homens povoam as cidades; também as imagens do passado e as infinitas nuances de relações entre homens, animais, prédios, ruas, árvores são habitantes de um mesmo meio urbano. E estas sutilezas se desvanecem no atropelamento diário. O chafariz seco indica na verdade um mundo que agoniza.
- Quando os ricos aceitarão o feio como também habitante de seu mesmo mundo? Pois eles cada vez se refugiam em suas posses, como se o de fora delas não lhes dissesse respeito absolutamente. Apenas em seu subconsciente está o dia em que sua trincheira será assediada pelo simples excesso do que sobra na respiração da modernidade. E este excesso é pura existência que não pode, por um simples princípio físico, consumir sua própria extensão para não ofender quem se lhe atenta. Definitivamente, sem maldade.
- Os velhinhos nos bancos das praças são sempre excessivamente moços para assumirem a postura de puros assistentes do filme vivo que vêem desfilar ante seus olhos. Por que são tão desanimados? Como se deixaram convencer de que deveriam se contentar com um ‘status’ de inofensiva inutilidade, em um mundo onde tudo é tão urgente?
- As súbitas e violentas tempestades de verão deveriam ser sempre tão renovadoras como se propõem. Elas atacam incontidamente a eterna repetição das mesmas ponderações e justificativas destiladas pelas mesmas cabeças da mesma cidade; pois toda esta tautologia é até à paciente natureza intolerável.
- A primeira tarefa que a mediocridade se propõe é amortecer toda a criatividade e energia: este é o primeiro passo para a massificação e o indiferentismo das multidões. Estas são sempre os frascos de ensaio para testar as possibilidades de tornar o inaceitável simplesmente ‘neutro’. Por isso as multidões não podem ser, enquanto tais, senão neutras em relação aos pequenos espetáculos inaceitáveis; os grandes conseguem, às vezes, despertar-lhe uma fúria destruidora que ela não sabia que tinha.
- Os ônibus esforçam-se por manter um elo de ligação entre o centro da cidade e o distante subúrbio de onde procedem. Mas este elo é cada vez mais frágil; os bairros distantes são cada vez mais inúteis para a dinâmica da eficiência dos centros de decisão: estes vêem no que dos subúrbios distantes procede apenas a poeira do indeterminado, ainda não limpa pelas soluções da administração.
- As estátuas nos parques (mesmo as bem vestidas) são sempre indecorosas; pois ousam apresentar aos observadores, dia após dia, a mesma textura sólida. Ainda não se conseguiu convencê-las de que são frágeis.
- Por que as lojas exclusivas costumam sempre se adornar com um indefinido ar de mistério? Até seus nomes sugerem isso. Não seria mais fácil mostrar o mistério real do mundo, ao invés deste tão domesticado e traidor das esperanças que as criaturas enfastiadas nele depositam?
- Um dos últimos redutos da espontaneidade cada vez mais rara, os cartazes de armazéns e botecos são sempre mal-escritos; mas ao menos são geralmente sinceros. E esta não é virtude pequena para o mundo da cidade grande, onde ser realmente sincero é, no mínimo, perigoso.
- Por que não se deixa as intensas chuvas de verão lavarem realmente o cotidiano das cidades? Elas trazem grande possibilidade de renovação para as empoeiradas estruturas vigentes nos meios urbanos, e acariciam liquidamente as estruturas organizadas da única ordem julgada possível: aquela que se materializou em edifícios, e que se encontra ainda mais profundamente entranhada do que os alicerces da mais alta das construções. A chuva quer, talvez, com sua delicadeza, seduzir o que repousa no fundo das cidades e fazer com que mostre sua verdadeira face.
- As casas mais antigas, que ostentam à testa seu ano de construção, souberam manter preenchido seu espaço e a ele se ativeram; agora, já velhas, estão a chamar a atenção para os tempos idos. Mas não são, como muitos que nelas habitam, hipócritas - não vivem a afirmar que os tempos antigos eram melhores. Não precisam, aliás, disso; carregam consigo sua dignidade.
- As fotos antigas das cidades são muitas vezes mortiçamente desfocadas. Mas isto não é um defeito de máquinas fotográficas primitivas: apenas de tempos antigos para olhos modernos.
- As luminárias da iluminação pública se debruçam por sobre as ruas de forma carinhosa. Querem assistir o desfile de emoções contidas que por ali se espalham e se atropelam, se entrechocam, gritam e morrem uma morte abafada pelos compromissos e explorações. As luzes não desistem, e observam mesmo quando estão apagadas, na esperança de que o brilho do que abaixo se passa possa finalmente se mostrar explícito.
- Quem garante que os mundos dos interiores são o mesmo mundo que de fora se possa conceber? Pois há interiores sem grandiloqüências, simplesmente internos, e dos quais nenhuma teoria sociológica dá conta - últimos e pobre refúgios dignamente pequenos da grandeza.
- Os telefones públicos da grande cidade fazem o papel de oásis nos desertos urbanos; sua concha acolhe benevolamente os moluscos sem casca que perambulam em busca da construção de suas vidas, e lhes dá a chance de saírem de si momentaneamente com sua voz lançada às distâncias, e de chegarem a si pelas respostas que obtêm. O contato que efetuam os alivia da excessiva carga de subjetividade que carregam; e, por isto, abandonam sua hospitaleira concha provisória geralmente mais satisfeitos do que nela entraram.
- Serão os bueiros portas de entrada dos infernos? Que mensagens trazem os ratos que sorrateiramente deles saem? Serão dignas dos homens?
- A velhinha encurvada que diariamente transita pelo mesmo itinerário, o que a sustenta realmente? Será o peso dos anos que, perto do peso do delírio contemporâneo, se transmuta em arrimo? Pois o peso dos anos é, muitas vezes, apenas imaginário; mas a poeira dos que soçobraram na digladiação moderna é real, e diz real o que a pó os reduziu.
- As grandes lojas, à procura de seus lucros infinitos, sempre querem ajudar cada um a se contentar com a imagem que lhe convencem que ele gostaria de ter; os foros de naturalidade que isto assume, de verdade absoluta, se refletem nos anúncios criativos e luminosos - mas todos pensam que estes anúncios lhes são totalmente externos. E o mundo segue.
- Um exemplo de distância infinita: aquela que medeia entre a grosseria e a suavidade que pululam pelas ruas e disputam surdamente seu espaço. Porque as diminutas essências de delicadeza são ainda como pedras preciosas não lapidadas, que ainda não se conhecem e a si não têm em estima; apenas rolam pelos caminhos, deixam-se levar pelos frêmitos que agitam a cidade e, apesar de tudo, conseguem não ser devoradas pela violência dos dias.
- Que cultura é esta que apenas julga digno de atenção o grandioso? Mas este grandioso é fabricado, suas faces são o reflexo das verdadeiras intenções de quem o constrói. Mas apenas surgem grandiosamente, conteúdos inocentes emoldurado pela hipocrisia de um mundo.
- Dos seres variados que povoam as ruas da cidade grande, um ao menos não pode falhar em seu andor. É o cavalo que puxa a carroça. Pois sua eventual lerdeza é, sempre, condenada no próprio momento em que se anuncia por seus colegas de trânsito em peso. Avis rara no meio da presteza mecânica e precisão eletrônica, sua presença só é justificável se o seu inclinar de cabeça a cada esforço significar na realidade o mais humilde dos pedidos de desculpa - desculpa de quem está, irremediavelmente, sobrando.
- Sempre há a esperança de que os computadores dos bancos acabem finalmente realizando a economia perfeita. Pois não se pode entender como sua espantosa ligeireza no registrar os mais variados e difíceis dados deixa de reafirmar sempre sua inusitada capacidade e superioridade sobre o homem que o criou. Ele é o futuro do mundo.
- Os ipês pintalgados de lilás são sempre generosos, com suas pétalas. Ao menos ele, deitando fragmentos coloridos de beleza e suavidade sobre a cabeça dos transeuntes, tenta recompensar uma tão febril atividade, que julga provavelmente muito justificável. Ele é delicado.
- O meio das calçadas é o verdadeiro campo de provas das grandes obscenidades, aquelas que não precisam de um substrato sexual para existir, mas se traduzem na simples indiferença.
- Quase não se nota como as grandes cadeias de lojas, com muitas filiais, se aproximam da realização cabal da onipresença. Em cada esquina ou rua importante, lá está um exemplar colorido da bem sucedida família. Sempre a tentar seduzir com seu extraordinário sucesso. Pois pode haver maior sucesso do que cercar as idéias e desejos dos passantes com um mesmo ‘mote’ de sedução? Apresentam sempre o mais recente milagre do dinheiro em processo de multiplicação.
- Os carros-forte que transportam dinheiro - quem os vê pode imaginar que ali se aninham todos os tesouros humanos e do céu, de tal forma são reforçados seus traços de solidez. Mas carregam apenas aquilo de que a hipocrisia humana não se pode livrar, e que mostra ao mundo sua verdadeira face.
- As humildes carroças que troteiam pelo centro estão geralmente abarrotadas de coisas quase inúteis, que apenas à mais negra miséria podem oferecer uma contrapartida. Elas correm sempre; carregam o que podem, como viajantes que partem de um lugar hostil tentando salvar dali tudo o que podem, e são céleres porque o tempo se esgota. Qual o pressentimento profundo que habita estes ágeis e ultrapassados veículos? Será a consciência da inelutabilidade do tempo, que acabará por devolver a cada coisa seu respectivo valor? O que as apressa, realmente?
- O depósito de ferro-velho do bairro, desencontrado como figura picturável, é um cadinho de nascimento e morte de combinações inusitadas e infinitamente ricas de materiais brutos, carcomidos, velhos; são eles que constroem o que só eles sabem construir. Compõe um universo fugaz em sua materialidade, em seu roçar de resistências, em seu disfarçar-se à avidez de univocidade perceptiva, em sua composição cromática tão pouco sedutora. Pelo menos podem, ali, os restos ter vida própria - no momento em que são ali atirados, atiram-se uns aos outros e às superfícies, e configuram a realidade da qual, seguramente, não houve precursora sobre a terra.
É sempre tarde demais para as horas do grande relógio público; ele sabe que o tempo que passa não é recuperável, e cria a diminuta defasagem entre a hora que mostra e a que talvez gostasse de indicar. É neste interstício que se poderia incubar um tempo pleno, que não servisse às demiurgias humanas. Neste tempo infinitamente pequeno, é possível que a realidade pudesse coincidir consigo mesma, apesar dos homens. Mas o relógio não pára.

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