FILOSOFIA DA NATUREZA: SENTIDO E ALTERNATIVAS EM FIM DE SÉCULO



FILOSOFIA DA NATUREZA: SENTIDO E ALTERNATIVAS EM FIM DE SÉCULO


Ricardo Timm de Souza

1 - Introdução


Se a filosofia tem um sentido, este sentido pode ser compreendido como a constante busca de fundamentos, bem como a constante meditação sobre esta busca, que se dá pela crítica[1] abrangente, aguda e, por sua vez, solidamente fundamentada, da obviedade corriqueira. Filosofar é trespassar o opaco, é romper com o óbvio, e manter à vista, de forma consciente e criativa, este rompimento. É assim que a filosofia se tem comportado e legitimado ao longo da história, ao menos ao longo da história ocidental. É assim também que se tem tentado chegar aos fundamentos do que se convencionou chamar de "natureza".
O objetivo deste texto é sugerir que, dadas as condições muito especiais destes tempos de fim de século, tal crítica - inclusive a do conceito de "natureza" - somente pode ser desenvolvida com propriedade se suas energias forem redirecionadas em um novo sentido, não sugerido pelo decorrer da história da humanidade até agora. Em outros termos, a crítica que se pretende embasar a partir de moldes do passado estaria excessivamente próxima deste passado, em termos de filiação e mundo de sentido e significações, para poder ainda resguardar sua legitimação e sua motivação mais pura. E não se fala, aqui, de um passado próximo, documentado, ainda encontrável em detalhes nas rememorações culturais claras, mas, sim, de um passado que se confunde com as origens, que tem a ver com um primeiro frêmito de decisão "cosmovisionária", que se define desde um “núcleo ético-mítico” original[2].


2 - A tendência histórica, desde os paradigmas do passado


Considera-se amiúde que a filosofia grega teria surgido pelo descontentamento de alguns poetas-pensadores com relação às insuficientes cosmovisões míticas anteriores. Reservada a estrita dimensão histórica, parece-nos evidente que o primeiro impulso á abstrativo: superar as aparências para chegar à essência, à arché da realidade, à realidade propriamente dita. A filosofia - e a filosofia da natureza é, cronologicamente, a primeira manifestação clássica da potência abstrata dos primeiros filósofos - a filosofia entende-se originalmente como cosmo-logia. A realidade é o cosmos - a ordem - interpretado em suas essências; o conteúdo da realidade dá-se à iluminação pelo logos e conseqüente classificação e explicação.
A filosofia clássica grega, Platão e Aristóteles, em seu período de majestosa maturidade categorial (no qual, de certa forma, ainda estamos todos mergulhados), não se desvia, em última análise, nem um milímetro da rota originalmente traçada. A filosofia do Ser, a ontologia (mesmo que uma ampla corrente de pensamento à Heidegger a chame de onto-teologia) tem como antecâmara o mundo dos entes, entes com extensão, substância, ordenação. A meta-física não é concebível sem a física. A intimidade categorial com a natureza cresce cada vez mais, torna-se já então uma grande obviedade. O ser humano, em busca do infinito, não pode conceber este infinito senão cosmologicamente; o Infinito é o ponto de convergência de todo o peso da realidade. É possível que ainda pensadores como Epicuro - normalmente classificados como representantes do período "ético" da filosofia grega -, são apenas, por assim dizer, secundariamente éticos: sua ética decorre não de um impulso independente, mas da necessidade de superar os temores naturais a uma cultura em sua primeira grande fase de decadência.
A Idade Média se cria pelo choque entre a tradição helenística decadente, o processo endógeno e exógeno de decadência de Roma e a provocação de uma outra “tradição” ético-mítica - a semita, judaico-cristã - em suas manifestações altamente subversivas[3]. O aparente deslocamento da filosofia medieval para outras sendas mantém, contudo, sua característica ontológica de origem. Assim, embora se fale pouco da natureza, fala-se muito de Ser, e a natureza como “campo do ser”, toma seus contornos definitivos no Ocidente: ela é, a um tempo, o espaço do desdobramento do ser poderoso e - remontando aos tempos idolátricos - de certa forma este ser poderoso propriamente dito, que convergirá na direção da proposta de um Deus ex natura.
As auroras dos tempos modernos, quando saber e poder se identificam (Bacon) e o infinito cosmos é promulgado (denunciando um intelecto pretensamente infinito, capaz de acompanhar de alguma forma a infinitude do infinito, - Giordano Bruno) - atribui à natureza seu status lógico longamente gestado: a natureza é, agora, o campo de exercício do Ser como Poder; mais tarde, o Universo, pensado e conquistado pelo Cogito na base intelectual de uma mathesis universalis (Descartes), perfeitamente ordenado segundo leis claras e fixas (Newton), composto de mônadas racionais e (quase)racionais (Leibniz), em processo quase “geométrico” de identificação com o divino (Spinoza), alienado na matéria mas tendendo ao Espírito (Hegel), acaba por ser equacionado pelo ser e pelo poder, e a natureza se transforma no campo de provas do fixismo-evolucionismo positivista de um Comte ou cientificista de um Spencer, Haeckel ou Engels. O que se faz, em última análise, é praticamente consumar o sonho dos séculos: transformar a natureza e o universo em um “gigantesco campo de caça”[4].
É das conseqüências desta transformação que vive a contemporaneidade. A ciência onipresente, metamorfoseada em cultura e técnica, se autojustifica por sua extrema capacidade inovadora e transformadora, tendo se metamorfoseado em uma espécie de obviedade multifacética. Seus fundamentos e seu sentido não são claros, como se a própria ciência se justificasse pelo simples fato de existir.  
Quais as conseqüências disto? Não em último lugar, a atual situação ecológica-social em nível mundial. Mas entenda-se claramente: ecológica é a perspectiva desde a qual se toma, neste momento, a situação contemporânea em sua precariedade - uma perspectiva possível, não a única, embora das mais visíveis. Uma Filosofia da Natureza em fins do século XX deve se concentrar na análise crítica das raízes desta precariedade.


3 - Filosofia da Natureza como crítica da Filosofia da Totalidade


Analisar-se-á aqui três dimensões de um mesmo fenômeno abrangente, de forma a redimensionar o fenômeno de caos ecológico e social, em nível mundial, da época contemporânea.

a) Primeira dimensão: concepção de Natureza e Totalidade


As diversas concepções de Natureza, ao longo da história da filosofia ocidental, têm algo em comum: dirigem-se, como sugerido acima, a uma situação de controle do natural e do uso deste natural em benefício do humano, pelo menos dos humanos poderosos desta terra. A filosofia da natureza tem sido o modo pelo qual se explica e se justifica esta apropriação.
            Assim, a mesma distância que medeia entre a concepção do relâmpago como manifestação divina e a do relâmpago como mero fenômeno elétrico, coloca-se entre a concepção puramente especulativa do infinito como ameaçador, ilimitação desordenada, até mesmo “repugnante”, dos gregos saudosos de um cosmos[5] e a afirmação positiva e gloriosa – definitiva - do infinito por parte de Bruno, onde não há mais, em última análise, nem objetividade nem subjetividade: o subjetivo intelecto acompanha pari passu a eminente objetividade promulgada.
            O que importa perceber é que, em um como em outro caso, trata-se de uma mesma dinâmica que se evidencia. O mesmo impulso de apropriação, de des-enfeitiçamento do estranho, pulsa em cada um dos casos. Mas não só nestes casos, e, sim, em todo o processo de apropriação científica da realidade.
O fato de que uma série de paradigmas da ciência moderna tenha entrado em crise desde os inícios do século XX (ou já desde meados do século XIX) não deve, agora, impedir a percepção de uma outra situação de extrema relevância: a herança do passado ocidental converge claramente na direção do fechamento de uma Totalidade fática (ou seja, não simplesmente especulativa) de sentido[6]. A Filosofia da Natureza, de Tales a Engels, passando por Epicuro, Bacon, Newton, Descartes, o Iluminismo, Spinoza, Hegel, ao Ser heideggeriano reafirmado (ou o ser não é natureza? Se não for, mantém ao menos com ela algum laço estreito), é a história da tentativa de integrar a natureza, em cada momento, à dinâmica de totalização do espírito ocidental - de tal forma que, em dado momento, pareceria ser a natureza função de um determinado modelo de racionalidade.


b) Segunda dimensão: a Totalidade é mais do que as concepções de natureza


O impulso de totalização configura a medula dinâmica do processo de desenvolvimento da cultura ocidental. Assim, está presente não somente no destacar, dos dados empíricos, seus elementos de maior significância, para configurar a ciência antiga de um Aristóteles, mas também - exatamente na mesma medida - na afirmação do mesmo Aristóteles de que alguns homens nascem naturalmente escravos; não somente no fundamental ego cogito cartesiano, mas também no não menos fundamental ego conquiro dos "descobrimentos", a um tempo mais sutil (porque racionalmente menos "consciente") e mais fático (por que de conseqüências menos imediatamente racionalizáveis); não somente na grandiosa descoberta da dialética como lei do Ser em Hegel, como na concepção hegeliana da história da verdade do espírito como verdade do ocidente; não menos na demolição teórica da razão moral e de suas justificativas em a parte do pensamento de Nietzsche, como na ereção da razão real da força que festeja a Totalidade no filósofo do Zaratustra - e não menos na organização perfeita da burocracia nazista do que nos fornos crematórios, conseqüências perfeitamente racionais da Totalidade nazista - fração eloqüente da ânsia de Totalização que nasce quando Parmênides percebe que o ser é e o não-ser não é e quando, nestes tempos tão antigos, Heráclito percebe que a realidade se dá no combate e na guerra - exatamente como Hitler e Kennedy, dois mil e quinhentos anos depois.
A história da humanidade é a história do choque entre a Totalidade e o que não é ela, e das justificativas que a Totalidade encontra para seu trofismo.
A dimensão que a Totalidade toma ao longo do século XX é a de um sistema organizacional e econômico que percebe na natureza um almoxarifado pretensamente inesgotável para seu crescimento. O capitalismo e sua ânsia de acumulação infinita não é mais do que uma versão moderna das ingênuas guerras antigas em busca do poder, não é mais do que uma versão particular e bem situada da Totalidade; há mais semelhança entre o especulador de Wall Street e a afirmação de Parmênides - antiga de milênios - do que entre um Yuppie e a velha que mofa sozinha em um pardieiro do Bronx, a algumas quadras de distância.
Desta forma, quem não percebe o Capitalismo como uma expressão particular de uma pulsação histórica muitíssima mais antiga, quem não percebe que fundo da utopia de não ter mais utopias habita uma mesma medula de significação que pervade, inclusive, muitas potentes construções anticapitalistas - como a concepção de natureza de Engels, por exemplo - incorre talvez em crime de ingenuidade, e permanece atônito frente à diversidade dos sentidos aparentemente contraditórios que habitam o mundo do espírito.


c) Terceira dimensão: De volta à natureza - Totalidade e indiferenciação


A consciência vaga destes fatos habita o fundo de muitas boas intenções. Não impede, porém, que a lógica real seja escamoteada. Frente ao caos sócio-ecológico contemporâneo, toda concepção de natureza contaminada de impulsos de Totalidade é insuficiente e converge à sua auto-anulação: algo maior a determina[7]. Todo esforço ecologizante que não se veja às voltas com este estranho paradoxo é imediatamente domesticado pelas condescendências totalitárias, racionalizado: há espaço para ele na lógica do todo. Toda iniciativa ecológica que não se perceba intimamente aderida a uma iniciativa histórica-filosófica-social de fundamentos, a uma Crítica da Totalidade, é unidimensional, insuficiente e ideológica ou ideologicamente manobrável. O mesmo se pode dizer de qualquer iniciativa social que não perceba, no menor dos seres “naturais”, um alvo preferencial de sua ação.


4 - Como conclusão: a Filosofia da Natureza, hoje


A Filosofia da Natureza, hoje, deveria ter por finalidade estrita superar a massa de mal-entendidos que o passado lhe legou: deve localizar as raízes comuns às diversas concepções consagradas pela história da Filosofia, compreendê-las e criticá-las à luz da grande tarefa filosófica da contemporaneidade: a crítica da Totalidade vigente em suas infinitas formas e sentidos. Não se pode conceber a filosofia da natureza desvinculada de qualquer outra “filosofia” possível; não se pode conceber a Natureza, depois das lições do passado remoto e recente, senão como o espaço da Alteridade sem vez na lógica da totalização, como o espaço do Outro enquanto outro, outro da história dos vencedores, da cultura hegemônica, do poder, da violência em todas as formas, das sutilezas racionais hipócritas, das Aufhebungen triunfalistas.
A Filosofia da Natureza é a crítica do presente e do passado, o reencontro com a utopia verdadeira, a preservação não-ingênua daquilo que vibra no fundo das boas intenções românticas. É ali que as dimensões de tempo e de espaço se cruzam, do tempo e do espaço futuros, possíveis, alternativos ao caos ecológico e aos arautos suicidas da infinita acumulação.




[1]Toma-se aqui a palavra crítica no sentido de "romper com", "situação de ruptura". Desta forma, não se estabelece originalmente nenhuma apreciação negativa frente a uma determinada situação, como se convencionou modernamente. Em sentido original, "crítica" pode significar também, em última análise, possibilidade de irrupção do novo.
[2]Cf. DUSSEL, E. El humanismo helénico e El humanismo semita – obras muito interessantes embora pouco conhecidas, datam aproximadamente da época em que o autor estudou com Paul Ricoeur, no qual se inspirou, inclusive, na elaboração destes conceitos; ZIMMERMANN, R. América Latina - o não-ser, Petrópolis, 1986. Por "núcleo ético mítico" se entende a Weltanschauung original, a postura pré-reflexiva de um povo ou de uma cultura, que irá determinar as ações e construções intelectuais e culturais posteriores. Assim, pertenceria ao Núcleo ético-mítico original dos povos de origem indo-ariana a tendência à procura pelo "ser" da realidade, a classificação dos dados sensíveis, a procura da luz e das "idéias claras e distintas", o solipsismo pensante (cogito ergo sum), a tendência à totalização de sentido; enquanto a certos povos índios, o direcionamento se dá pelo verbo definidor "estar" e não "ser" e, nos povos semitas em geral, pelo agir intersubjetivo e pela realidade compreendida como passível de contínuo processo interpretativo, em busca menos da precisão conceitual do que de novas camadas de sentido.
[3] Menos do que determinar até que ponto o cristianismo de origem, enquanto corpo de idéias, contrapõe-se de fato aos elementos fundamentais do pensamento grego, interessa-nos aqui avaliar o impacto que os evangelhos terão no mundo helenístico.
[4]Cf. ADORNO, T. - HORKHEIMER, M. Dialektik der Aufklärung, Frankfurt a. M., 1984, p. 285.
[5]Cf. MONDOLFO, R. O Infinito no pensamento da Antigüidade clássica, São Paulo, Mestre Jou, 1968, passim. O tema é muito complexo, e não pode ser compreendido em sua generalidade senão a partir de uma longa linha evolutiva de “ apropriação”  do cosmo pelo poder abstrativo dos gregos em sua diversas escolas e fases.
[6]Cf. nosso livro Sujeito, Ética e História – Levinas, o traumatismo infinito e a crítica do pensamento ocidental, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1999.
[7]Veja-se nosso trabalho "Alteridade e Ecologia - a natureza totalizada e a Outra natureza" in: Totalidade & Desagregação – sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas, Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996, p. 151-160. Cf. também PELIZZOLI, Marcelo. A emergência do paradigma ecológico – reflexões ético-filosóficas para o século XXI, Petrópolis: Vozes, 1999.

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