ESTILO E ESCRITA CONSEQUENTE - NARRAÇÃO PARA ALÉM DA DESCRIÇÃO



ESTILO E ESCRITA CONSEQUENTE - NARRAÇÃO PARA ALÉM DA DESCRIÇÃO


Ricardo Timm de Souza


            A desarticulação entre conteúdo e estilo é um a das mais capciosas artimanhas da escrita inconseqüente, subsidiária, pusilânime, infelizmente superabundante em nossos dias e em nossos meios. Em algum momento, alguém conseguiu convencer crédulos de que seria possível simplesmente “descrever” grandes temas e fatos sem narrá-los; esse dia hipotético marcou, igualmente, o apogeu da escrita estabelecida “de fora para dentro”, a serviço de interesses outros do que aqueles a que um livro, por sua origem e vocação, tem servido ao longo dos séculos e deve continuar a servir: desinstalar a inteligência do recôndito no qual ela belamente repousa. E, enfim, trata-se do mesmo fenômeno apreciado por diferentes aspectos: se o estilo já não conta propriamente, é porque, propriamente, o conteúdo assume como que um papel de escravo do estabelecido, abdicando do espantoso poder (sempre) subversivo da linguagem real, que transborda de qualquer forma pré-estabelecida.
            Porém, como já disse Jacó Guinsburg, “livro é uma coisa e indústria cultural, outra”. A linguagem renasce das cinzas. Provada infinitamente nos sucessivos emudecimentos das ruínas da história, queimada em praça pública, execrada pela razão ardilosa, a linguagem que diz apenas de si e outro compromisso não tem a não ser prestar conta da solidez de sua existência reaparece nos interstícios da razão opaca, do frenetismo delirante, das nuvens de fumaça mental – fênix incômoda, só poderá morrer no dia em que morrer o último ser humano, e ainda nesse dia perdurará.
            O belo livro de Luciano Assis Mattuella Da sombra à exposição: sobre a temporalidade na dimensão estética de Emmanuel Levinas assume assim, como toda obra digna desse nome, a condição de testemunho desta não-morte. Obra de virtuosismo, evidencia como estilo e conteúdo não apenas se co-pertencem, mas são, a rigor, interdependentes. A invenção da linguagem, invenção de linguagem, aponta para além de si ao mergulhar profundamente em seu próprio interior; o resguardo da propriedade do dito abre continuamente ao Dizer; tudo que parece ser mera cristalização semântica se revela finalmente como exuberância nascente que, despojando-se da usual distância “metodológica” – e não mais do que isso – entre categorias e sua compreensão, ressignifica tanto a idéia de categoria como a de compreensão.
            Trata-se, assim, de uma obra essencial para quem deseja se aproximar e aprofundar este espinhoso tema da relação entre o abissal pensamento de Emmanuel Levinas e a Estética. Tema, aliás, que prova constantemente a fidelidade do escritor ao implícito do problema: a repugnância cabal e definitiva do autor lituano-francês com relação a qualquer espécie de idolatria e de suas seduções.
            Ao manter sempre à vista essa preocupação radical, Luciano Assis Mattuella expressa, na sua escrita, exatamente a face positiva de uma tal repugnância. Ao não dissociar forma de conteúdo, o autor, havendo mobilizado sua sensibilidade, comprova, em seus múltiplos ditos e em seu profícuo Dizer, sua fidelidade ao que de mais profundo tem o pensamento de Levinas a nos significar: o caminho da idolatria é um caminho sem volta, e a linguagem verdadeira é seu antídoto.
            Que o presente livro encontre muitos e inteligentes leitores, é tudo o que devemos ter o direito de esperar.


Porto Alegre, 22 de setembro de 2010.

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