ENFRENTAMENTO DE TOTALIDADES



LESTE EUROPEU E ENFRENTAMENTO DE TOTALIDADES

 

1- Introdução


Na massa dinâmica dos fatos empíricos - mais ou menos conscientes, mais ou menos valorizados - que constitui o decorrer da história, tudo deve se oferecer a uma reflexão mais profunda do que o entusiasmo puro e simples do acontecer. E isto para que não se tome o mais próximo pelo mais consistente, ou o mais aparente pelo mais efetivo.

À filosofia tem sido sempre confiada esta tarefa ingrata de tentar ultrapassar os limites óbvios de um fato para se chegar às suas raízes menos óbvias mas mais importantes e profundas; raízes estas menos credoras, muitas vezes, das confianças exageradas em qualquer tipo de otimismo historicista (ou anti-historicista), porém mais próximas da possibilidade de avanços reais para além de arroubos entusiasmados.

Se pensarmos, de outra parte, que nossa posição excêntrica em referência aos pólos maiores de decisão e hege­monia econômica-ideológica-política em termos mundiais - nossa não-condição de "Primeiro Mundo" - pode servir não para nos alijar das possibilidades de uma reflexão profícua, e sim para nos fornecer uma procedência hermenêutica perfeitamente coerente e válida, desde um viés interpretativo até mesmo menos viciado de tradições a resguardar e mais aberto a reais novidades; se concebermos seriamente a nossa possibilidade de juízo como não destituída de valor para as grandes linhas da história contemporânea maior, em sua grandiosidade colorida e sem precedentes - teremos um ponto de partida sólido para o estabelecimento de uma avaliação equilibrada de uma quantidade de dados aparentemente por demais poderosos para se inclinarem, ainda que a um nível de reflexão es­trita, a uma outra lógica que não sua própria dinâmica.

Podemos portanto, nestas condições, assumir como também nossa a tarefa de mergulhar ao fundo da movimenta­ção contemporânea, recentíssima, que tanto tem emocionado e desconcertado espíritos como tem tumultuado teo­rias e confrontado abruptamente realidades diversas, não deixando também de ser apresentada como uma remis­são da história ou o advento de toda uma escatologia profana: a "abertura" dos países do Leste europeu. Mas a ta­refa da filosofia não é coligir dados ou fotografar consciências, e sim analisar o que se dispõe e sintetizar tudo em um conjunto tanto quanto possível coerente de explicações e novas indagações. E tudo isto deve ser executado, a bem desta coerência, desde um ponto de vista estritamente teórico, categorial - para que a simples sedução do movimento em si dos fatos não carreie o fruto de nossos esforços a um esquema ideológico no pior sentido.

Propomo-nos, portanto, neste texto, a seguir uma linha precipuamente filosófica de interpretação destes fatos tão importantes. Isto será feito desde um fulcro situado "transversalmente"  em relação à centralidade efetiva desta "aldeia global", e a partir de categorias amplas cuja consistência tem sido, em nosso entender, mais e mais alimen­tada pela mesma história à qual  costumam se dirigir com toda a incisividade.



2- Uma categoria interpretativa privilegiada: a Totalidade


"Totalidade significa equiparar
o diferente ao inimigo"
T. Adorno


A categoria de "Totalidade", antiga na história da filosofia e levada por Hegel a um nível de extraordinário aca­bamento, servirá de eixo condutor de nossas reflexões. Mas não se trata, aqui, de nenhuma das concepções clássi­cas de Totalidade como tais, especulativamente já tão bem ventiladas. Constitui-se esta categoria neste momento, para nós, em um modelo de trofismo de tudo o que detém a possibilidade de condução de seu próprio desenvolvimento: sua totalização, acabamento em si, dinâmica de crescimento. Trata-se de um conceito de tota­lidade menos elegante que os usualmente encontrados nos sistemas filosóficos, porém mais efetivo: não se reduz a palavras, ou melhor, não permanece em seu próprio discurso. É a vontade de poder que se consubstancia propri­amente no exercício real de poder e também com o comprazer-se com o poderio alcançado. Tudo isto tem uma configuração caracteristicamente avessa a qualquer sanção ou crítica que não se encontre em si mesma: sua tau­tologização é sua vida; e sua vida é sua legitimação absoluta.

Em outros termos, totalidade é aqui o exercício efetivo da dinâmica de imanência em si, por si e para si[1]. É a sín­tese realizativa de todas as energias integradoras do diferente de si: incorporação de tudo na coesão concêntrica que a tudo integra desde um fulcro energético absolutamente preponderante - cuja dinâmica consiste em realimentar esta preponderância - e tautológico em sua origem, finalidade e destino[2].

Uma vez caracterizada a essência estritamente teórica que este termo assume aqui, pode ser tentada uma transpo­sição hermenêutica para o mundo prático. Em verdade, uma certa flexibilidade intelectual poderá nos mostrar, na grande história universal, a tendência pertinaz que possuem os grandes modelos culturais hegemônicos de se ali­mentarem do que não é eles mesmos. Os grandes impérios mundiais nunca fizeram mais, a rigor, do que incorpo­rarem a si o que em princípio a si não se reduz e não se poderia reduzir - exportando este modelo lógico de com­preensão da realidade de tal forma que nos soa no mínimo exótico um parecer crítico a este procedimento tão óbvio e clássico. Os mais fortes e vencedores se reservam o sagrado direito de definir efetivamente a sua Verdade, sua Justiça, seu Bem - dos quais sua Lei e sua Ordem (e as de seus lacaios) constituem o posto avançado. Eles crescem e se impõe, com violência aberta ou disfarçada, sobre tudo o que, em lhes sendo diferente, não lhes é indiferente. Esta é sua lógica real, sua verdade; e sua Verdade é sua Totalidade.

Totalidade não é, portanto, algum conceito abstruso encubado em alguma torre de marfim filosófica. É, isto sim, o resultado do acoplar-se ao decorrer do tempo da vontade de poder em realização - a lógica efetiva de desenvol­vimento de todo o crescimento ocidental e de tudo que o toma como modelo ideal em suas infinitamente multipli­cadas dinâmicas. Está, enquanto processo em curso e "idéia reguladora", nos fundamentos seja da acumulação de poder e dinheiro, seja da depredação, seja na sofisticação crescente das armas da morte; mas está, também, no mais disfarçado dos extermínios culturais. Justifica tudo: a guerra, a fome, a miséria, a morte da vida e das uto­pias; mas, acima de tudo, justifica a si mesma e a si mesma se afirma como boa: vive.



3- Um modelo de Totalidade e sua ruptura


Negar-se-ia ao modelo corrente de projeto político dos países do leste europeu a condição, nestes termos, de To­talidade em pleno desenvolvimento? Não se dá em sua raiz burocratizada, con-centrada em sua intolerância - há muito desviado das originais motivações éticas que teriam alimentado seus primeiros teóricos - justamente o que se está tentando caracterizar como modelo de Totalidade? Os fatos falam por si. Os regimes mais ou menos dita­toriais, mais ou menos centralizados em sua rigidez afirmativa, característicos dos países adstritos ao Pacto de Varsóvia, configuram claramente um modelo de trofismo afirmativamente totalitário, no contexto em que se si­tuam. Se o grau de patologia de um modelo político é dado pelo número de presos ou perseguidos políticos, polí­cias secretas e instrumentos de censura-tortura que possuem, tais países - e o que os sustentava teórica e pratica­mente - já iam avançadíssimos em suas enfermidades. O mundo exigia sua transformação terapêutica, a implosão de seu sistema arcaico de desenvolvimento. Dentro e fora de suas fronteiras políticas e ideológicas, sua substância totalizava periclitava.

E eis que sua Totalidade se rompe. Não resistiu, felizmente, à sua própria anquilose. Sua economia, combalida, não sustenta sua violência interna[3]. Ditaduras desmoronam, e ao ruído da queda do muro de Berlim soma-se o brado de triunfo que em todo lugar ressoa.

Uma Totalidade faliu, um modelo ruiu, as mazelas se mostram, povos podem chorar sua dor e seu sangue, abrem-se as prisões. A alegria é grande: uma Totalidade não se sustentou.



4- Uma leitura mais profunda dos fatos: Totalidade versus Totalidade


Mas à contagiante alegria dos fatos que correm mais rápido do que a reflexão deve seguir, como dissemos, uma leitura acurada dos elementos mais profundos destes fatos. Esta é uma das tarefas precípuas da filosofia e não uma das menos difíceis ou ingratas.

Assim, propomos aqui uma espécie de paradoxo por hipótese para o início desta reflexão: para nós, a Totalidade do leste ruiu por não ter sabido ou podido ser suficientemente violenta, quer dizer, potente em seu processo de to­talização. Não soube crescer com a velocidade e solidez necessárias. Deixou-se minar por um modelo de Tota­lidade mais dinâmico e abrangente, bem como mais sutilmente violeo. Entregou os pontos a uma macro-es­trutura tão ampla como flexível, tão complexa em seus componentes contmo comunitária em seu telos de acumula­ção de dinheiro e força qua grandezas redentoras da humanidade: as ideologias ocidentais mais poderosas e defi­nidoras da ordem mundial, com a "pax americana" à testa. Pois não é este um modelo mais perfeito de Totali­dade? Qualquer que analise pode perceber a violência inaudita de seu trofismo, sua capacidade crescente de pre­dação dos homens e da natureza; sua capacidade de alimentar com o sangue e a miséria absoluta de milhões e milhões o fabrico de armas e futilidades; sua refinada habilidade em espraiar seus tentáculos por toda a orbe e sua democracia tão apregoada que só pode valer in toto para os poderosos. Qualquer um pode perceber isso, a não ser que esteja tão imerso nesta atmosfera onipresente que a própria crítica do sentido desta Totalidade por algum motivo perdeu seu sentido, isto é, se totalizou. E o abuso deste termo, aqui, não quer mais do que evidenciar sua potência. Este é o modelo vencedor, em que o "Mesmo" se alimenta contínua e crescentemente do que lhe é diferente, inclusive das consciências, e que, como já foi dito, apenas de si pretende necessitar para se legitimar. Sua legitimação é sua onipresente efetividade. Sob a aparência de luzes sempre renovadas, a mais perfeita e violenta das tautologias.



5- Conclusões

"...l'on est obligé d'énoncer contre Parmenide que
le non-être est..." - E. Levinas



A inconsciência ou determinação de redução do diferente a alimento do mesmo - do não-ser como alimento do Ser em totalização - tem sido, ao longo da história, a única regra efetiva de desenvolvimento de culturas e impéri­os. Um mesmo modelo de totalização subjaz aos mais diversos conteúdos ideológicos, sociais, históricos que o mundo tem experimentado. Ocorre por vezes transposição de precedências de uns a outros; o que não tem ocorri­do é a substituição deste modelo maior totalitário - no mais amplo dos sentidos deste termo - por outro mais con­dizente com a dignidade do mundo e do ser humano.

A falência dos modelos do leste europeu não significa mais do que a substituição de um esquema de Totalidade por outro mais efetivo e complexo, e que desde nossa situação excêntrica aparece com clareza mais do que sufici­ente. Os elementos realmente determinantes, delineadores destes dois modelos são incomodamente congruentes: um só espírito os anima, pelo menos na aproximação que sofre suas consequências - o que sobra de sua lógica implacável, que não estava na queda do Muro de Berlim, e sim, muito mais, no assassinato dos Jesuítas em El Salvador, ocorrido com o intervalo de uma semana em relação à queda.

Enquanto permanecer sendo postulado para a humanidade como um todo o ideal de transformação do mundo em um imenso juízo analítico - para além das críticas e des-legitimações externas - as alegrias globais serão sempre excessivamente efêmeras, e a morte de inocentes - na qual se inclui também a catástrofe ecológica - se encarre­gará de evidenciar a essência grotesca que carregam.



Ricardo Timm de Souza, Porto Alegre, 2/1991.



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[1] "La totalité est le résultat de la totalisation, oeuvre de la Raison et du Même que dévoilent, approprient et rangent toute exteriorité, tout transcendant, même la Métaphysique, selon un ordre, dans un système, dans une unité; cette oeuvre d'approprietion progressive, mais inélutable dans l'ontologie, est l'oeuvre même de l'imanence. La totalité est l'imanenece achevée: tous dans le tout, tout dans l'Un, la multiplicité dans l'unité originelle ou finale"(PIVATTO, P. La relation a la transcendance dans l'oeuvre d'Emmanuel Levinas (Tese inédita), 199-200).
[2] "El ámbito de la totalidad totalizada es el de 'siempre lo mismo'; esto es, lo conocido y seguro. La dialéctica opresiva de 'lo Mismo' gira enloquecida sobre su propio eje, sin posibilidad de experimentar novedad alguna. La tensión entre pasado, presente y futuro desaparece. La expectación de lo nuevo se torna sin sentido y termina por verse como algo amenazante"(ARDILES, O. Descripción fenomenológica, Córdoba, 1987, 53).
[3] Naturalmente, esta é uma simplificação; pretendemos apenas ressaltar algumas linhas gerais do processo.

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