EDUCAÇÃO - ADEQUAÇÃO E DESADEQUAÇÃO



ADEQUAÇÃO E DESADEQUAÇÃO: Educação e Desenvolvimento, ilusão e realidade[1]



Introdução



I - Este texto, as considerações nele expressas, não provêm de um tecnólogo da Educação, aquele que deve pensar, quase exclusivamente, em aplicar praticamente algum modelo pronto em um determinado contexto social especial. Também não são oriundas de um ideólogo da Educação - aquele que pretende, de alguma forma, tornar o exercício da Educação digerível para a ideologia hegemônica. Muito menos provêm estas reflexões de um técnico em Educação, que passa seus dias abstraindo da realidade e do conteúdo concreto da realidade em função do aperfeiçoamento de técnicas de aplicações e de aplicações de técnicas.

II - As considerações expressas neste texto provêm de uma reflexão filosófica sobre os fundamentos da Educação, sobre as bases filosóficas que levam alguém a (pretender) educar a outrem em um esforço difícil e sincero.

III - Da mesma forma, os temas aqui trabalhados não provêm de um sociólogo profissional, que fixasse ex cathedra e com bom lastro de experiências e boa correção técnica o que se poderia entender por "Desenvolvimento" hoje, aqui e agora. Muito menos, provêm as reflexões sobre este termo de alguém que pretendesse chancelar o uso ideológico que deste se faz na contemporaneidade.

IV - Os pensamentos aqui tornados públicos a respeito do termo "Desenvolvimento" têm sua origem na reflexão filosófica sobre o sentido que esta palavra assume e pode vir a assumir no contexto contemporâneo e no futuro.

V - O objetivo deste texto é, dessa forma, aproximar dois conceitos - "Educação" e "Desenvolvimento", inter-relacionando-os desde um viés filosófico. Essa aproximação deve se iniciar por uma questão principal: o que significam e o que devem significar estes dois termos no nosso atual contexto histórico?



Concepções de Educação


As concepções de Educação costumam ser apresentadas como tão inúmeras e variadas que não se prestam a uma síntese razoável. Existem aparentemente muitíssimas. Algumas concepções contrárias de Educação, porém, tendem a ocupar um espaço amplo no mundo intelectual de Educadores e de leigos, e são sugestivas para que se descubra seu sentido mais claramente. Entre estas, tem-se, por exemplo...

- Uma concepção de Educação que pretende, em grandes linhas, adequar o educando à realidade em que vive. Assim, os conteúdos trabalhados em uma escola de periferia seriam suficientes para a periferia, mas insuficientes para a clientela de escolas particulares. A clientela das escolas particulares, por sua vez, deve se adequar às estruturas vigentes na sociedade que a cerca, onde ocupará certamente postos-chave: será educada para isso (não se trata, obviamente, de uma concepção teórica expressa em livros, mas da prática real tal como ocorre no dia-a-dia. Não nos interessam aqui teorias, mas práticas para além de qualquer teoria, e às quais as teorias se inclinam).

- Uma outra concepção de Educação que pretende desadequar o educando da sociedade em que vive. Assim, no caso da escola pobre, o aluno deve ser desacostumado a pensar segundo os parâmetros ideológicos que, de acordo com o mestre, impedem que o aluno perceba sua real condição de oprimido; em uma escola rica, deve ser desfeita a identificação meio social do aluno rico=mundo, para que o aluno perceba as verdadeiras contradições que se dão na sociedade em que vive, para, eventualmente, tentar superá-las pela transformação de si e desta sociedade em algo menos desumano.

Ora, se uma das concepções propõe a adequação e outra a desadequação, é porque partem de pontos de vista diversos com relação ao mundo em que se inserem. A Educação Adequadora parte do princípio de que, não obstante seus problemas, a sociedade vigente é a melhor possível, de forma que até mesmo os problemas e contradições não seriam senão desajustes no funcionamento de uma grande máquina, a qual, por seu próprio funcionamento, acabaria por resolvê-los. O passo seguinte: caso a Educação mesma, por seu congênito potencial subversivo, torne-se perigosa para a Totalidade vigente, então essa Educação deve cuidar de deseducar, a Educação deve impedir que o educando se eduque - ou seja, deve impedir que as grandes questões da realidade apareçam como tais -, para que tudo permaneça como está[2]. Para essa visão de Educação, as condições reais da realidade ampla são tornadas invisíveis, e ela lida com condições particulares da realidade, com situações bem delimitadas como se fossem ilimitadas e válidas universalmente; propõe-se tratar com a realidade, mas trata com sua caricatura e seu fantasma, sua parcialização inconfessada e ideológica. Hipócrita, porque tem sempre uma justificativa para o inaceitável e um álibi para o horror e a miséria do dia-a-dia.
A Educação Desadequadora, por sua vez, vê no mundo um jogo de interesses bem definidos e com cartas marcadas - onde a sua clientela deverá, necessariamente, ser neutralizada em seu potencial transformador da própria vida e das dos outros. Para essa visão de Educação, as contradições reais da realidade, em sua essência, são visíveis e indisfarçáveis. Educar significa, aqui, fazer surgir, como tema de reflexão, a gravidade da concretude da vida e a intensidade das forças que se opõem a ela - deixar aparecer o fundamento dessa luta de absorção do diferente - do "mau" - no "bom" mundo funcionalista, aquele que funciona bem.
(Saliente-se ainda uma diferença fundamental entre as duas concepções: enquanto a educação adequadora pretende conservar intocado o autoritarismo internalizado pelo estudante em seu processo de socialização - intocabilidade fundamentada até mesmo no excesso de estímulos e de liberdade de certas escolas experimentais, verdadeira nuvem de fumaça que impede a percepção da realidade -, a educação desadequadora pretende trazer este autoritarismo internalizado à consciência, expo-lo à "crítica" no sentido etimológico do termo: "julgar", "distanciar-se para avaliar", "romper com" - a fim de que seu real conteúdo enquanto sustentação do status quo possa ser realmente compreendido.)


Concepções de Desenvolvimento


Também são duas as concepções correntes de Desenvolvimento que apresentam uma inteligibilidade mais direta...

- Por um lado, pode-se considerar "Desenvolvimento" a continuidade do modelo de trofismo até agora encontrado na sociedade: a identificação de Desenvolvimento com "Crescimento". Para justificá-lo como bom, desloca-se um aspecto da vida social da nação - por exemplo, os resultados estritamente técnicos da economia - para o centro de referência - e, neste exemplo, o Brasil é a "Oitava Economia do mundo"; o fato de que esteja em último lugar nos indicativos sociais é, no fundo, irrelevante. Mais uma vez, uma parcela da realidade foi tomada como sendo o todo. Dessa forma, pode seguir o desenvolvimento velho conhecido, aquele que esquece que a economia é uma ciência fundamentalmente humana, que, em nome da metafísica da acumulação infinita, pode fazer o que quiser: dizimar a natureza e o ser humano, descartá-lo em nome das novidades da eficiência e da qualidade total e fingir-se de "novo" para continuar subsistindo.

- Um outro modelo de desenvolvimento coloca o seu sentido na promoção da vida como um todo, onde todo particularismo pode sobreviver sem ser degradado à condição de arma ideológica dos poderosos, onde o diferente tem espaço, onde a homogeneidade da eficiência e da força não tem a última palavra. Esse modelo é utópico (fora de lugar) em nosso meio e mundo, ele é um futuro possível e em construção.



A conjunção existente e a futura entre Educação e Desenvolvimento


A conjunção existente entre a Educação e o Desenvolvimento é a dos primeiros modelos. Não é necessário falar em "Educação" e "Desenvolvimento" separadamente: ambos são, apenas, dimensões de uma mesma realidade hegemônica, de uma mesma Totalidade. Ambos são, em seu sentido mais profundo, a mesma coisa. A divisão postulada é ideológica: ela quer dar a idéia de que há expectativa de futuro para esses modelos, quando, na realidade, o todo que eles formam teme profundamente o futuro, o diferente, o Outro, transformando continuamente esse temor em violência (veja-se, por exemplo, o Golpe de Estado de 1964). Toda a sua essência é falsa, porque hipócrita - não diz nem tenta dizer o que realmente é - e é incompatível com o futuro, pois qualquer futuro real sinaliza a morte dessa essência como totalidade de sentido, até mesmo por pura insustentabilidade interna do próprio modelo a médio e longo prazos. A Educação de que se fala no primeiro momento é a Anti-educação; o Desenvolvimento de que ali se fala é o Anti-desenvolvimento - e ambos são a mesma coisa: a Anti-vida.

- A Conjugação entre os dois outros modelos de Educação e Desenvolvimento ainda não existe, simplesmente porque um dos termos não existe, a saber, o futuro. O outro termo existe: é a Educação heróica, crítica, desadequadora, desafiadora, desagregadora, somente comprometida com a dignidade da vida. É somente no futuro construído a cada dia que se pode dar o verdadeiro desenvolvimento - aqui chamado futuro melhor; e a tal somente se pode chegar pela educação desadequadora, aquela que não tem medo da desinstalação e que vê na crise (krisis) a possibilidade da superação do presente petrificado pela ideologia hegemônica.



Conclusões


O que aparentemente se propõe como uma "concepção de educação" em meio a outras - em nosso primeiro exemplo - mostra-se, a um exame mais profundo, apenas como ilusão e falsidade, pois pretende apenas a manutenção do status quo. Não pretende nada mais, apesar de suas belas palavras.
         O que aparentemente se propõe como uma "concepção de desenvolvimento" em meio a outras - também em nosso respectivo primeiro exemplo - nada mais é, na realidade, do que uma concepção ideológica para a manutenção do atual modelo de exploração do ser humano e da natureza. Portanto, não procura desenvolver nada senão sua potência expoliadora do ser humano, da natureza, do Outro; todas as suas palavras coloridas e atraentes são ocas e expressam, em uma leitura não-ingênua, sua hipocrisia.
         Não existe, assim, senão uma concepção real de Educação: aquela que promove a vida como um todo, sem parcialidades, ao transformar a realidade presente em uma realidade melhor. Só existe educação na transformação profunda das estruturas humanas, sociais e culturais da realidade no sentido da valorização irrestrita do Outro - aquele que não pertence à força, ao poder, ao dinheiro[3]. Todo o resto é tautologia e conduzirá fatalmente ao suicídio social e ecológico da humanidade em todos os seus níveis.
Assim, somente existe uma concepção possível de desenvolvimento: aquela que se construirá - seu "verbo" é o futuro - com os frutos da Educação verdadeira. Todo o resto não "desenvolve" nada - apenas revolve e chafurda infinitamente no presente esgotado em si mesmo.
         O desafio da Educação é o futuro; mas um futuro que não se encontra em nenhum passado - pois em nenhum passado se valorizou devidamente a dignidade de todos os seres humanos e da Natureza. O sentido da Educação é a dignidade do Outro, daquele que não tem voz nem vez, sem reflexos coloridos, sem embriaguez grandiloqüente: o ser humano humilhado e explorado, a Natureza violentada. Apenas a realidade do novo  em um possível mundo novo.

Educação: um desafio apenas tão grande quanto o futuro.

1996


[1]Este texto tem como base nosso artigo "Educação e desenvolvimento, ilusão e realidade", publicado in: Didática em Revista, DECC/FURG, Rio Grande, 1995. Foi apresentado, em segunda versão, no I. Congresso Nacional de Educação, UFMG, Belo Horizonte, 1/8/1996.
[2]O famoso dito - "às vezes é preciso que algo mude para que tudo permaneça como está" - tem nas questões educacionais um sentido especialmente agudo. A proliferação de meios e técnicas, o "cientificismo" educacional invadindo os espaços do humano, nada mais são do que a corroboração desse dito. Basta olhar ao redor com olhos outros do que ideológicos ou deslumbrados.
[3]No momento, em termos estritamente concretos, talvez não haja tarefa mais urgente e desafiadora, em matéria de Educação, do que impedir que ela se torne uma mercadoria como qualquer outra, igualmente manuseável, comprável e vendável.

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