DO MOVIMENTO, DO ABISMO E DA AUSÊNCIA



Do movimento, do abismo e da ausência


Ricardo Timm de Souza

            A violência só pode se desenvolver de forma não imediatamente auto-destrutiva no interior de algum abrigo, carapaça ou blindagem que a proteja de suas próprias invectivas. Como vivemos, talvez mais do que em qualquer outro período da história, uma época intrinsecamente violenta, a tal ponto que nos acostumamos a suportar o in-suportável, como se o insuportável não o fosse, numa contradição da própria lógica que sustenta nossos argumentos em todos os níveis, este abrigo, blindagem ou carapaça tem de ser inusitadamente firme e bem conectado em seus constitutivos, ou se desagregaria imediatamente.
            A primeira tarefa filosófica é, portanto, ver como se constrói a naturalização de uma tal estrutura de violência – sempre, de algum modo, negação da alteridade, do diferente, do não-idêntico – que se esconde por detrás de algum tipo de aceitabilidade blindada, para que se possa empreender a desconstrução da lógica que a sustenta, habitando-a e reconstruindo continuamente o arcabouço teórico-cognitivo que a faz perdurar e que se confunde com esta própria perduração. Ou seja: a primeira tarefa filosófica é o exercício de uma Crítica da razão blindada.
            É de se notar então, previamente, que uma tal naturalização da violência pode se constituir, a rigor, apenas através de um complexo itinerário, a saber: retirando da vida que constitui a significação dos acontecimentos sua característica própria de vida, ou seja, domesticando-a em sua espontaneidade temporal. Pois, por “vida”, não se entende em nenhuma tradição filosófica ou científica algo outro que dinamismo vital. A vida se move, a vida vive – e quando “a vida não vive” é que se chegou ao momento de contradição máxima – e não uma contradição dialética, mas paralisada e paralisante, com-fusão: uma espécie de detenção do tempo dos acontecimentos, um respiro – ou estertor – de Odradek.
            Dá-se o caso, portanto, de perguntar se o período em que estamos não é, como tão bem viu e anteviu Kafka, um período de doença terminal da temporalidade. Naturalmente, tudo parece dizer em contra essa análise. Nunca se deram tempos tão frenéticos como os que ora vivemos, tempos da aceleração, da virtualidade, do imediatismo, das simultaneidades que parecem levar a idéia de tempo justamente ao seu limite de realização. E, não obstante, toda essa procissão imagética praticamente indescritível pode estar sendo permeada, movimentada, confundida, exatamente pelo seu contrário; não é absolutamente implausível que esta agitação que, por definição, decorre em superfícies, denuncie o imobilismo pesado e inercial da movimentação espontânea das coisas, tal como, num dia sem vento, seria a imagem de árvores balançando não por efeito do vento, mas por algum mecanismo que agitasse seus troncos. O excesso de movimentação, longe de ser testemunho de exuberância, trai justamente o abismo de sua ausência. O que aparenta ser dinamismo não passa de frenetismo obsessivo e circular, de irrelevância vital pela sufocação daquilo que faz com que se possa chamar de vivo ao que está vivo, confundindo a simples respiração com o estertor do moribundo. Quando proliferam a tal ponto as dinâmicas virtuais que poupam aos que se vêem o incômodo de se encontrarem, é o caso de se perguntar se a própria idéia de encontro ainda é possível. O que significa, talvez: é ainda a vida possível?


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