DINOSSAURO NO LAGO




Dinossauro no lago


Ricardo Timm de Souza


                Dos fundos das brumas das memórias semiperdidas me vêm estes fragmentos de lembranças que a custo reúno, e aqui decanto em linguagem, mais por imperiosa necessidade interna que por esperança de compartilhar com um improvável leitor uma improvável experiência. Experiência única, não só por que, por mais que se amplie o arco da memória, não se encontra outra similar, seja de que fonte for, mas também porque não se encaixa na cadeia das minhas vivências, esta seqüência de instantes infindos aos quais damos o nome de instantes da vida.
                Esta lembrança, enfim, fruto da união penosa de fragmentos esparsos – dos quais alguns são, porém, excessivamente vivos – é antes uma incrustação na minha carne, da qual não consigo me livrar, embora não tenha, até agora, levado a fundo a questão da conveniência ou não dela na minha história pessoal; ela simplesmente me pertence, ou vice-versa. E este, aliás, é também seu paradoxo: embora distante pelo tempo já decorrido – minha atual experiência de vida atesta muitos outonos que desde então decorreram – está, sempre que dela me lembro, tão próxima, que oblitera todo o resto. É verdade que há lembranças que, por sua vaguidade, atestam jocosamente, por puro contraste, a existência de quem as possui, tão fracas são em seu pretenso vigor, em relação à saudável vida do memorialista; esta, pelo contrário, põe em questão, ao surgir súbita ou insidiosamente das profundidades que habita à claridade inequívoca da minha consciência, a própria idéia de lembrança. Talvez seja, antes, como uma lembrança não-domada: selvagem e impetuosa como uma dor viva e intensa, mas simultaneamente tranqüila como um fato consumado.
                Mas, como explicar – ou tentar meramente compreender – algo que, pelo seu simples, porém inequívoco aparecer, principia por diluir o próprio conceito de aparecimento – e este é apenas o primeiro de inúmeros conceitos que, frutos podres, despencam de forma quase obscena da árvore da sabedoria? Como entender – poder-se-ia pensar: como suportar – um acontecimento que desfaz a boa ordem da memória e, combinando-a com o indefinível, parasitando os momentos em que, exasperados, procuramos relegá-lo àquele que julgamos o seu lugar, a saber, o depósito adormecido de lembranças velhas e inúteis? Como lidar com uma aparência que faz pouco de todas as nossas concepções de realidade?
                Estas são, na verdade, apenas perguntas de ocasião; elas nada têm a ver com a coisa de que aqui se trata e seu sentido ou sem-sentido. O que aqui interessa é que, no fluxo dos acontecimentos que me foram dados vivenciar desde o momento da origem da minha memória consciente, ou seja, em meu caso pessoal, desde uma infância bastante tenra, quase demasiadamente precoce, fato houve que ocorreu a traz a marca de único. Nem antes nem depois, nem em sonhos – aí incluídos os mais amargos pesadelos – nem na áspera vigília dos dias claros ou das noites insones, algo de semelhante aconteceu. Se este relato fosse uma história fantástica, eis que teria chegado o ponto da frase fatal: “e não houve, desde então, dia algum em minha vida em que este fato não tenha sido revivido com todo seu peso (e, se fosse o caso: e o seu horror)”; mas dizer isto seria dizer uma mentira; há muitos e muitos dias nos quais não me lembro deste fato, até que, em geral de forma súbita, ele reocupa, na névoa espessa das minhas lembranças antigas, o seu lugar de sempre, e que sempre foi seu – um lugar absolutamente singular.
                Nem repulsa, nem horror, nem divagação – o que pode interessar à minha consciência a manutenção desta lembrança, de resto inútil para todo o presente, o passado e o futuro? Não sei dizer. Ante a materialidade daquele momento, as especulações – de qualquer tipo – assumem logo uma roupagem de precariedade que as faz, em um primeiro momento, patéticas e, caso se insista, ridículas. Desisti delas há muito tempo, por motivos que se esclarecem por si mesmos. Mas isto simplesmente não foi suficiente para a obsessão de minha memória. Fixada, contra a minha vontade, neste pertinaz e inusitado pedregulho do passado, toma as rédeas do tempo rememorado e me reapresenta, pela enésima vez, aquela lembrança da qual conheço toda a profundidade pelo fato de, a rigor, não conhecer absolutamente nada.

* * *


                Era um dia de verão já avançado, em cujo horizonte já se via o cinza outonal. A tarde havia sido longa e proveitosa para os veranistas daquele antigo hotel das montanhas; a manhã radiante – incomum para o lugar – despejara sua luz pelas ramagens de araucárias, ciprestes e plátanos; o maciço de hortênsias, ainda subsistente apesar do calor e da época do ano, atraía todos os olhares, temperado pelo aroma de outras flores que se combinavam com a vegetação variada em recônditos frescos, alguns ainda orvalhados quando a manhã já ia alta.
                A manhã aliás, desabrochando completamente, dera lugar ao meio-dia, marcados pelos mais variados zunidos de insetos, que substituíam agora o gorjeio de pássaros. O céu com poucas nuvens deixa o sol brilhar quase a pino; ondas de calor dançam na atmosfera, as folhas secas parecem mais secas. No grande lago, as carpas, que pela manhã ainda se aproximavam da superfície da água atrás de algum inseto, mergulham agora na direção das águas mais profundas e frias, onde a visão inquieta das crianças não as alcança. Toda presença humana se retira. Apenas os pequenos carás permanecem quase à superfície; os dorsos reluzentes, quase imóveis, gozando dos frêmitos de calor que a água quase quente das camadas superficiais do lago lhes oferecem.
                Agora é a tarde que avança lentamente. A passagem das horas é como que refreada; até mesmo o vento e o zumbido dos insetos cessam por vezes completamente – uma parada do tempo iluminado pelo sol: tudo dormita. Anuncia-se então a plenitude do dia. Veranistas aproximam-se novamente do lago – de variadas idades, aproveitarão seu apogeu.
                Lenta como chegou, a tarde se esvai: vê-se pela multiplicação das sombras, cada vez mais amplas. A grama, de um verde profundo, combina bem com as pedras antigas da margem; o sol, enviando seus raios agora moderados, quase tímidos, retira-se calmamente de cena. As primeiras brisas frescas se anunciam; o tempo declina, e a noite não tardará.
                Pouquíssima gente resta ainda à beira do lago; as mães já levaram os filhos reticentes, os adultos retiram-se igualmente, em pequenos grupos, conversando, prometendo se rever no jantar, à noite. Quando os últimos se retiram, o lago é uma massa cinza-escura, que reflete de forma estranha as sombras das árvores que o margeiam.
                Quedo-me para trás. A magia desta hora estranha, hora de despedidas e de abandonos sem alarde, sempre me fascinou, e já era assim naquela minha tenra idade. O mundo vira paisagem, massas de cores que se alternam com o declínio da luz, contando sua própria história.
                É no declínio da luz que diviso, na margem oposta do lago, uma majestosa sombra. É, porém, mais profunda do que as sombras próximas das árvores, embora bem pudesse passar por uma delas; mas move-se, ainda que quase imperceptivelmente: não segue o padrão de outras sombras, que desaparecem ou se alargam indefinidamente, mas se mantém sempre igual, destaca-se do ambiente, e se move. Olhando melhor, e não sem muito esforço, reconheço na sombra uma familiaridade que o improvável ofuscara até então. Pois se trata de uma silhueta muito clara, um longo pescoço e uma pequena cabeça. É um dinossauro, daqueles de longo pescoço. E é quando penso, com minha lógica infantil: “impossível!”, que vejo, ou sou visto, por um olho profundo, negro e úmido, naquela pequena cabeça. É uma visão muito rápida; logo me viro lentamente e sigo os passos dos que já tinham ido embora – nada mais tinha a fazer ali.
                Ainda hoje, tantos anos depois, permanece aquele olho úmido e profundo como um pedregulho incômodo no meu cérebro, quando dele me lembro. Nada sei sobre aquela criatura, nem ao menos se era fruto de minha imaginação, como tudo leva a crer; a única certeza que tenho é que era algum tipo de entidade do emtardecer que, num preciso e remoto instante de minha infância, me apresentou ao desconhecido.

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