DERROTA E LOUCURA



Derrota e Loucura

sobre Mediocridade e loucura, de H. M. Enzensberger e A derrota do pensamento, de A. Finkielkraut[1]


Ricardo Timm de Souza


"Na verdade, não consigo acreditar em
mais nada. Nem mesmo possuo a centelha
da fé que se precisa para ser cético"

Dr. Beeber, personagem de Isaac B. SINGER[2]


No notável A derrota do pensamento, o filósofo francês Alain Finkielkraut ousa circunscrever alguns temas difíceis do mundo contemporâneo desde um viés por assim dizer desprezado pelo discurso dominante de boa parte dos pensadores contemporâneos mais lidos e populares, aqueles onipresentes nas discussões sobre as direções que os tempos tomam. Longe de mergulhar freneticamente no fluxo contínuo da informação a fim de esmiuçar sua (i)lógica ou de flagrar no inusitado do dia-a-dia anúncios de uma nova frente de (in)compreensão do atropelar-se dos fatos, prende-se a um tema, mas a um tema difícil: fixar elementos que permitam o desnudamento das aparências da cultura hegemônica contemporânea. Pois, como diz Daniel Fresnot na contracapa da obra, “as aparências enganam”, e enganam muito. Falar, hoje em dia, de “racionalidade”, “pensamento”, “cultura”, não trai necessariamente uma nostalgia restauradora de tempos menos ágeis, ou um conservadorismo saudosista, nem significa por si só a anti-lucidez de hipotecar a confiança na inteligibilidade do presente a algum termo démodé; pode significar, antes, um caminhar em contra-fluxo, contra as expectativas do óbvio e as sugestões de um colorido espírito de massa.
É isto que faz Finkielkraut nesta sua obra de 1987, que mantém toda sua atualidade. Trata da transformação do pensamento e da cultura em “quinquilharias”[3], mas não com tédio ou de forma a dar a impressão exata de que flutua sobranceiramente por sobre os fatos: antes objetivando-os ao assumir sua visceral equivocidade. Atém-se ao que é dito - e, desde o dito, tira continuamente conclusões. Mas não conclusões que convidem o leitor a abandoná-las continuamente em favor de suas irmãs mais novas.
“O ator social pós-moderno aplica na sua vida os princípios que os arquitetos e pintores usam em seu trabalho: substitui como eles, os antigos exclusivismos pelo ecletismo; recusando a brutalidade da alternativa entre academicismo e inovação, mistura soberanamente os estilos; no lugar de ser isto ou aquilo, clássico ou vanguarda, burguês ou boêmio, une à sua maneira as predileções mais disparatadas, a inspirações mais contraditórias; leve, móvel e não preso a um credo e paralisado em um domínio, gosta de passar sem obstáculos de um restaurante chinês a um clube antilhano, do cuscuz ao cassoulet, do jogging à religião ou da literatura à asa-delta”[4]. Eis aí a cultura da profusão, da intercambiável variedade de super-estimulações: tudo é estimulante e, de tão estimulante, tudo é igualmente válido; a validez pula de espaço cultural em espaço cultural como uma ave pula de galho em galho da árvore na floresta, à procura de pequenos vermes compensadores para tanto esforço. O artista, o ator cultural tem, assim, a oportunidade de se enfastiar sem se dar conta disso; como em um moderno programa de computador, tão repleto de recursos que a ninguém é dado esgotá-lo em suas possibilidades e, não obstante, transmite uma estranha impressão de racionalidade saturada a quem o aborda: a um tempo repleto de virtualidades e absolutamente vazio de referências que não sejam a impossibilidade de assumir algo externo como referência. Trata-se, em suma, de uma dialética da saturação estatuída em ideal de existência: “Brilhar é a palavra de ordem desse novo hedonismo que rejeita tanto a nostalgia quanto a auto-acusação. Seus adeptos não aspiram a uma sociedade autêntica, na qual os indivíduos viveriam confortáveis em sua identidade cultural, mas a uma sociedade polimorfa, a um mundo matizado que colocaria todas as formas de vida à disposição de cada indivíduo”[5]. Assim, este brilho, estas cores, esta variedade de estímulos têm como pressuposição absoluta a abundância de disponibilidades; que deles não se aproxime quem não pode escolher entre uma miríade de possibilidades! Mas estas possibilidades, estas disponibilidades infinitas são, em realidade, apenas isto: possibilidades. Como potências eternamente falhas em sua passagem à condição de ato, traem em sua essência: não passam de fantasmagorias flutuantes, miragens que se interpenetram continuamente e reivindicam seu átimo de brilho. Falando do pretenso apreço pelas culturas estranhas, o filósofo se aproxima da verdadeira essência de suas manifestações: “Uma vez que para eles (os atores pós-modernos, R.T.S.) multicultural significa bem-abastecido, não são as culturas enquanto tais que apreciam, mas sua versão edulcorada, a parte delas que podem testar, saborear e descartar após o uso. Consumidores e não conservadores das tradições existentes, é o ‘cliente-rei’ que neles tripudia diante dos obstáculos postos ao reino da diversidade pelos ideólogos vetustos e rígidos”[6]. Reproduzem ali neste meritório campo, portanto, o que vêem ao seu redor, ou melhor, o que não vêem mas mesmo assim existe: a hegemonia de uma determinada racionalidade. Como crianças aprendendo a falar, repetem o que ouvem, mas repetem à sua maneira, sob a forma de desajeitados balbucios, todos investidos em discursos modelares, já que a validez é universal. A fronteira entre a consciência e a inconsciência foi rompida pelas cores dos estímulos infinitos. Consume-se, dando a impressão de que se produz algo, e algo de valor - pelo menos de tanto valor quanto qualquer outra coisa, qualquer outro momento que se suceda hipnoticamente no desvario dos dias. Como aceitar as formas, se estas não se confundem com os conteúdos? A propaganda invertida em absoluto e despida das necessidades do convencimento. O flutuante ator pós-moderno não necessita mais do que de si mesmo para se convencer de sua inquestionável auto-legitimação: nenhuma justificativa é necessária para um universo que se apresenta, em si, como uma infinita sucessão de justificativas e dos quais o ator, ao assumir a validez, faz parte desde sempre. Uma feição de “niilismo”, mas a quem a menção ao termo “niilismo” é estranha: não pode haver niilismo em um espaço de referências absolutamente saturado de validez - “este niilismo classificador dá lugar, no pensamento pós-moderno, a uma mesma admiração pelo autor do Rei Lear e por Charles Jourdan. Com a condição de traga a assinatura de um grande estilista, um par de botas eqüivale a Shakespeare”[7]. Mas não é só isso: tudo equivale a tudo. “O jogador de futebol e o coreógrafo, o pintor e o costureiro, o escritor e o costureiro, o músico e o roqueiro são, da mesma maneira, criadores[8]. Para quem pode escolher, tudo é facultativo; e qual poderia ser o sonho da humanidade e de cada indivíduo, senão se transformar em epicentro da órbita infinita das escolhas? “Vivemos o momento dos feelings: não há mais nem verdade nem mentira, nem estereótipo nem invenção, nem beleza nem fealdade, mas uma miríade de prazeres, nem diferentes nem iguais... nenhuma autoridade transcendente, histórica ou majoritária pode modificar as preferências do sujeito pós-moderno ou dirigir seus comportamentos. Munido na vida de um telecomando como diante de seu aparelho de televisão, ele compõe seu programa com o espírito sereno sem se deixar mais intimidar pelas hierarquias tradicionais”[9]. Pois sejamos realistas: para que modificar preferências, se todas em realidade se equivalem? A capitulação final: a realidade já está decidida, e não é a favor de sua exploração ou de sua descoberta, mas a favor de sua transformação em um pretexto para o fastio, para a absoluta in-diferença que assume a paradoxal – quase folclórica no pior sentido do termo – aparência de respeito pela Diferença. As aparências enganam. E a cultura contemporânea é este jogo de espelhos que, ao refletir todas as imagens umas nas outras, esvazia toda imagem de consistência; ao indiferenciar o concreto, transforma-o em uma função de uma vontade onipresente, de uma preferência particular. Não há mais pensamento, apenas a sua sombra a se refugiar da vergonha de não ser descartável.
“Sejamos claros: essa dissolução da cultura no todo cultural não acaba com o pensamento nem com a arte... as obras existem, mas, uma vez que as fronteiras entre a cultura e o divertimento não são mais claras, não há lugar para acolhê-las e dar-lhes sentido. Elas flutuam, pois, absurdamente, em um espaço sem coordenadas ou balizas. Quando o ódio pela cultura torna-se ele próprio cultural, a vida com o pensamento perde todo o significado”[10] – pois o significado consiste em deixar de questionar os sentidos infindos e flutuantes que o significado da preferência particular se atribui, sem que mais nada realmente conte. Para que esforço pela sobrevivência para aquele a quem é dado viver por inércia? Pois no aburguesamento da lógica da vida, outra inversão indiferente tem lugar: “o hedonismo põe a razão burguesa contra o burguês: o pensar calculante sobrepuja seus antigos vetos, descobre a utilidade do inútil, cerca metodicamente o mundo com apetites e prazeres e, depois de ter rebaixado a cultura à categoria das despesas improdutivas, eleva agora toda distração à dignidade cultural: nenhum valor transcendente deve poder frear ou mesmo condicionar a exploração dos lazeres e o desenvolvimento do consumo”[11]. Mais uma vez, as aparências enganam o observador incauto; em um mundo que promete o paraíso a quem prometer não pensar, o reverso, nunca dito, é sempre infinitamente mais concreto; pois, no mundo contemporâneo, o inferno será asperamente experimentado por todo aquele a quem a lógica da obviedade não satisfizer. Eis aí a violência nada virtual dos tempos que correm, o que realmente decide as ações por trás de toda liberdade anunciada. À infinita virtualidade das possibilidades aos que rezam pelo credo da indiferença, a extrema punição aos que hesitam em meramente escolher. Mais um paradoxo, e não das mais fáceis: o infinito espectro de possibilidades abertas tem, na realidade, limites extremamente sensíveis, e que em nenhuma hipótese podem ser transgredidos sem retaliação - ainda que esta retaliação, por uma particular desordem do pensamento reduzido pela hegemonia à inofensividade, permaneça em muitos casos na órbita da radical inconsciência, face visível da indiferença. Eis aí um inebriante ópio dos intelectuais - em outros tempos, “os homens da cultura combatiam a tirania do pensamento calculante taxando-o de bobagem, ao passo que sua extensão pós-moderna não suscita praticamente protestos... Pensando no cinema americano, Hannah Arendt escrevia nos anos cinqüenta: ‘Muitos dos grandes autores do passado sobreviveram a séculos de esquecimento e abandono, mas é questão pendente saber se serão capazes de sobreviver a uma versão divertida do que têm a dizer’”[12]. Pois tudo pode ser divertido, inclusive a violência e execuções de todos os tipos, a tortura e o linchamento, quando a lógica da indiferença assim o prescreve. Se tudo é igual, tudo é in-diferente: tudo é igualmente divertido, tudo é igualmente irrelevante, e a ninguém será dado emitir juízos de valor. Pois a essência do mundo contemporâneo em sua profundidade é a violência modulada; é a expressão mais amadurecida da Totalidade. “Ora, no momento mesmo em que a técnica, pela interposição da televisão e dos computadores, parece capaz de introduzir nos lares todos os saberes, a lógica do consumismo destrói a cultura... Doravante, é o princípio de prazer – forma pós-moderna do interesse particular – que rege a vida espiritual... Conglomerado desembaraçado de desejos passageiros e aleatórios, o indivíduo pós-moderno esqueceu que a liberdade é diferente do poder de mudar de prisão e que a própria cultura é mais que um impulso saciado”[13].
Mais uma vez as aparências enganam. “Há pouco cego ao totalitarismo, o pensamento é agora cegado por ele. Os crimes do Ocidente colonizador ocultaram por muito tempo as monstruosidades cometidas em nome da revolução. Doravante, é Big Brother que serve de álibi para a dispersão da cultura no Ocidente... a intrusão violenta do poder na vida privada justifica, pelo contraste, a agressão sorridente da música ambiente e da publicidade; o embriagamento forçado das massas dá aos dilemas do indivíduo, atraído por tudo e nada na Disneylândia da cultura, a forma de um exercício soberano de autonomia, e, assim, o universo do telecomando vem a nós como o melhor dos mundos possíveis”[14]. Leibniz redivivo? De qualquer forma, sem a auréola das Luzes. Estas há muito transmudaram-se em mercadoria e refugiaram-se no ocaso sombrio das utopias clássicas. No passado pouco se encontra que possa ajudar a compreender o presente, quanto mais opor-se-lhe uma alternativa[15]. Esta é uma tarefa que pressupõe bem mais do que alguma espécie de simples reordenamento de forças - pois, como bem mostra Finkielkraut, existe mais realidade por trás de inofensivas aparências do que gostariam de supor os arautos do reformismo infinito. A obsessão pelo estático é muito intensa, ocupa as consciências agora travestidas em fugacidade do efêmero; violentamente hipnótica, ela reflete-se em todos os nichos, ocupa os espaços, todos os espaços disponíveis, oferece-se impudicamente à compra a um preço módico: a inação - e metamorfoseia-se em aparência de movimento e de vida multifacética. A esta insinuante metamorfose do Mesmo em infinita Indiferenciação, a esta inércia dispersiva poderíamos chamar Derrota.



No livro de Hans Magnus Enzensberger denominado Mediocridade e loucura e outros ensaios, aparece um ensaio brilhante que empresta o nome à obra: “Mediocridade e loucura: uma proposta conciliatória”. Tratando nominalmente da sociedade alemã contemporânea, o conteúdo do texto, fiel à sua época, derrama-se naturalmente para fora de quaisquer fronteiras políticas e penetra em uma esfera global de validade, tangenciando o núcleo de todo um modelo contemporâneo de existência, toda uma Weltanschauung que - assumindo embora muitas nuances particulares - reivindica pelo menos tanta abrangência mundial quanto a ideologia da informação ilimitada. Trata-se de uma conformação particular de existência, um modus vivendi massivamente coletivo que traduz todo um Zeitgeist, um Espírito do(s) Tempo(s) que se estabelece como o resultado de um desencanto profundo para com a sugestão de uma existência apaixonada, desencanto esse alimentado - literalmente - por uma cultura da superabundância de coisas, imagens, cores e estímulos. Ocorre a crença no feérico, desde que este seja suficientemente moderado para não embargar os apetites nem correr o improvável risco de acutilar alguma consciência ainda não suficientemente amortecida. É o contraponto existencial daquilo que chamamos em outra oportunidade uma cultura de “meios-tons intelectuais”[16]; embora essencialmente violenta, estabelece continuamente uma situação de vácuo entre sua realidade profunda e o jogo de imagens a que se entrega continuamente, sugerindo assim a inexistência de tensões ou conflitos ou, pelo menos, aureolando-os com a eterna ameaça de transgressão de margens de razoabilidade muito claras embora não explícitas. É este vácuo o habitat próprio de grandes massas bem alimentadas da sociedade pós-industrial e de camadas privilegiadas de países pobres. É este, também, o alvo da pena privilegiada de Enzensberger.
O termo “nós”, despido de impulsos teleológicos, traduz antes de tudo um status quo: “Quando digo ‘nós’, estou me referindo à nossa civilização, ou seja, à ‘sociedade desenvolvida, pós-industrial e de informação’: nomes curiosos que demos a nós mesmos. Eles revelam menos as limitações dos termos que as tortuosas frases do embaraço”[17] - pois a ninguém é dado, na amálgama indiferenciada em que se condensam os instáveis blocos sociais contemporâneos, distinguir com clareza as individualidades ativas em meio às infinitas sobreposições de aparências e imagens virtualizadas. Neste contexto, as opiniões sociais e políticas assumem a condição de inofensividade - “Como já disse o poeta, diquerda e esreita tlocam-se com faciridade. Isto é válido também nesse contexto. Por exemplo, qual é a situação em relação ao homem das massas?”[18] - essa estranha criatura execrada pela tradição e, não obstante, multiplicada infinitamente em legião no indiferentismo pós-moderno? A despeito de todas as profecias e de todos os temores, as massas nunca conseguiram se ver a si mesmas como atores de algum tipo: “manipuladas por forças sinistras, as massas trabalhadoras se transformaram num bando de idiotas consumistas”[19], totalmente indiferentes aos “filósofos da imbecilidade da moda (que) com uma perseverança que seria digna de algo melhor, (continuaram) ano após ano proclamando a morte do indivíduo ou, para usar o jargão atual, a morte do sujeito. Com o tempo, isso resultou numa estranha concordância por parte dos teóricos de direita e de esquerda, com uma única diferença: os tradicionalistas se especializaram em mugir lamentações, ao passo que os reformadores cultivavam um quê de zombaria que foi crescendo até se transformar num urro de triunfo... Enquanto os marxistas ortodoxos ficaram decepcionados com as massas... os pós-estruturalistas e outros pós-funcionários da teoria davam a impressão de sentirem uma enorme satisfação com o fato de o importuno sujeito finalmente ter sumido. A capitulação deve ser um verdadeiro prazer, mas somente para aquele que se considera seu profeta”[20]. Todos ingênuos: os fatos precipitam-se a uma velocidade que não conseguem acompanhar. Há uma Razão. A essência da questão: os fenômenos não são o que parecem; como a eloqüente mão visível do mágico que executa sua magia, não servem senão para distrair a atenção de seu movimento interno real. A discussão acaba por se confundir com seu conteúdo; o que pode ser mais estéril e maçante - ou masoquisticamente gratificante - do que bebericar intelectualmente conceitos insossos? E não obstante, a isso se dedicam compulsivamente os apóstolos da indiferença, na esperança que a rotação de seus cérebros possa acabar emprestando realidade à fugacidade das belas ilusões. Talvez em nenhum outro momento da história do pensamento do ocidente, sua forma pensante e seu conteúdo ilusório tenham se acoplado de maneira tão cabal: é improvável que se possa flagrar, em algum período detectável da história, uma tal horda de ideólogos travestidos de intelectuais, revestindo sua racionalidade com as cores hegemônicas oferecidas a preços modestos em cada esquina.
Mas eis que aparece o inusitado sob a forma da verdadeira essência das massas, aqui intercambiável com a verdadeira essência do indiferentismo, expresso sob a forma de uma melancólica falência da teorização: “Os indivíduos que elas (as teorias, R.T.S.) tanto se esforçam para suprimir as ignoram totalmente. Apática como é, a maioria silenciosa continua a imaginar que as pessoas que a compõem, todas e cada uma por si, são sempre elas mesmas. Elas simplesmente não querem acreditar que se transformaram em zumbis, marionetes ou fantasmas... Uma ingratidão digna de nota! Uma surdez estranha!”[21]. Autoviolência mas, acima de tudo, um fato real - tão real que se teve de sofrer uma espécie de reorganização conceptual, à qual com alegria ora nos entregamos: “Esta sociedade é medíocre... esta constatação tem algo de redentor... Finalmente existe uma correspondência entre o conceito e a aparência...”[22]. O caso agudo da Alemanha parece retomar continuamente este jargão, não obstante todo o ranço classificatório que se lhe possa atribuir: é como se a sociedade não suportasse transbordar dessa moldura - “A educação e a cultura, com ou sem aspas, estão acessíveis a quase todos, mas o ingresso nessas esferas é voluntário; quem não quer se envolver com essas coisas pode muito bem viver sem elas, uma opção feita com prazer por milhões de pessoas... Desempenhos extraordinários, seja na natação ou na física dos corpos sólidos, são permitidos, mas poucos estão ansiosos por imitá-los. A principal função das ‘celebridades’ não é a de estabelecer um parâmetro qualquer; o que importa é seu valor em termos de diversão”[23]. Ocorreu a grande Disseminação, oferece-se à observação uma infinita variedade de manifestações, todas mais ou menos contidas em limites mais que razoáveis: “No lugar do caminhante solitário ou do idiota da aldeia, do excêntrico ou do esquisito, surge agora o dissidente médio que, em meio a milhões como ele, já deixou de chamar a atenção... O médio não é apenas um postulado de lazer, mas a chave do sucesso”[24] - em um verdadeiro “paradoxo lógico: a mediocridade exagerada, a normalidade hiperbólica”[25]. A flutuação do sentido. É apenas porque o sentido real da Violência do presente é extremamente sólido, que os intelectuais embasbacados pelo hedonismo estético podem se dar ao luxo de cultivar sua absoluta inutilidade enquanto intelectuais: um jogo de compensações.
“Não importa quantos milhões sejam gastos - está cada vez mais difícil encontrar alguém para desempenhar o papel principal de gênio. No seu lugar surge a estrela, o profissional, ou seja, aquele que consegue fornecer mercadorias medíocres em grande escala. Andy Warhol tornou-se o ícone desse modo de produção”[26]. Em uma tal massividade, a ninguém é permitido inquietar-se em sã consciência: apenas a consciência insana - como a das ondas terroristas na Alemanha de 1977 - pode sugerir a intrusão, no conjunto da massa compacta, da loucura extravagante. É extravagante tudo o que não encontra meramente em si as razões de sua existência, bem como o que não aceita como inevitável a congênita moderação dessas razões. Mas até ali se estabelece, em uma sociedade a tal ponto supermoderna, uma estranha complementaridade, a suprema capitulação: “A mediocridade e a loucura se relacionam de modo complementar; sua aparente oposição dissimula uma concordância profundamente enraizada. Não será possível encontrar qualquer espaço social fora desse emaranhado. Num equilíbrio mais ou menos precário, em padrões mais ou menos variáveis, esse entrelaçamento paradoxal ocorre em cada um de nós. A República da Mediocridade não tem uma opinião muito boa de si: estranhamente satisfeita e loucamente normal, seu único problema é não estar à vontade consigo mesma.”[27] A sinceridade é envolta pelo jogo de espelhos; a radicalidade das causas, quando percebe, já não é mais do que vestígio de si mesma refletido na grande lógica triunfante. Não há cidade com pretensões de pós-modernidade que não reserve aos seus outsiders uma pequena praça confortável; ali podem chocar as consciências o quanto quiserem: permanecerão absolutamente inofensivos à marcha obsedante do prazer e do conforto egoístas. Mas que não tentem atirar alguma pedra na vitrine de uma loja: a ira do Deus absconditus da supermodernidade voltar-se-á imediatamente contra eles, sob a forma de represália por parte de algum aparelho ideológico do estado. Conseqüência mais do que previsível em meio à promessa tola de imprevisibilidade que cada objeto inútil no balcão de uma loja de departamentos parece oferecer a seu feliz comprador.
Eis a essência da questão, aquilo que quer ser repetido ad nauseam: nem tudo é como parece. No grande e colorido universo da indiferença, nem tudo é indiferente; em meio às promulgações da inelutável neutralidade, nada é realmente neutro. A sociedade supermoderna e suas caricaturas terceiro-mundistas conservam em si, como seu segredo mais reservado, exatamente a mesma essência dos períodos mais obscuros da história. A mediocridade, a infinita disseminação, a multiplicação aparente do vazio, não é mais do que a ardilosa e supremamente inteligente expressão que a hegemonia - a Totalidade - encontrou para preservar seu verdadeiro núcleo de olhares indiscretos.



[1] Originalmente in: SOUZA, R. T., O tempo e a Máquina do Tempo, Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998.
[2]Um amigo de Kafka, p. 53.
[3] FINKIELKRAUT, A., A derrota do pensamento, p. 159.
[4] Op. cit., p. 131-132. Cf., a respeito da contínua flutuação das referências da contemporaneidade, a obra de Marc AUGÉ Não-Lugares - Introdução a uma antropologia da supermodernidade; sobre a burocratização da barbárie e das razões que a sustentam, cf. BAUMAN, Zygmunt.. Modernidade e Holocausto.
[5] Op. cit., p. 132.
[6] Op. cit., p. 132.
[7] Op. cit., p. 134.
[8] Op. cit., p. 134.
[9] Op. cit., p. 138.
[10] Op. cit., p. 139.
[11] Op. cit., p. 142.
[12] Op. cit., p. 142-143.
[13] FINKIELKRAUT, Alain., op. cit., 145-146.
[14] Op. cit., p. 147.
[15] Cf. SOUZA, Ricardo Timm de. Totalidade & Desagregação, p. 22ss.
[16] SOUZA, Ricardo Timm de., Op. cit., p. 101.
[17] ENZENSBERGER, H. M., Op. cit., p. 142.
[18] Op. cit., p. 144. O trocadilho inspira-se na frase original de Ernst Jandl “manche meinen/lechts und rinks/kann man nicht/velwechsern/werch ein illtum!” (Cf. Op. cit., p. 165).
[19] Op. cit., p. 144.
[20] Op. cit., p. 144-145.
[21] Op. cit., p. 145.
[22] Op. cit., p. 149.
[23] Op. cit., p. 152-153.
[24] Op. cit., p. 155.
[25] Op. cit., p. 156.
[26] Op. cit., p. 160.
[27] Op. cit., p. 165.

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