DA INJUSTIÇA À JUSTIÇA



DA INJUSTIÇA À JUSTIÇA



Ricardo Timm de Souza


Gostaríamos de pensar, neste momento, o próprio fundamento do pensar, seu sentido. Gostaríamos de pensar o momento onde nossa respiração é suspensa pela suspensão da própria vida que ocorre, por exemplo, na percepção de uma situação de injustiça cometida, algo que nos traumatiza, algo que nos revolve internamente, algo que desordena as nossas lógicas e faz com que a própria idéia de justificar o acontecido apareça como indecente, vergonhoso: um trauma. Talvez seja este um dos inícios do pensamento, talvez seja isto que tenha dado origem ao próprio pensamento: o insuportável que, ao trazer à nossa consciência a precariedade da existência, nos interdita a paz. Pois é possível pensar também a filosofia como indignação. Indignação frente ao fato de que a realidade é tratada indignamente. Indignação frente à percepção do fato de que temos sido indignos das expectativas que, de alguma forma, se abrem a nós pela promessa de futuro que a nossa vida propõe. Indignação frente às habilidades do nosso intelecto tentar justificar o injustificável. Indignação que se coloca como origem da necessidade de superar, em todo o sentido possível, o elemento de indignação, ou seja, de indignidade, que aqui é correlato ao tema da não-vida, e, portanto, ao tema da não-ética, do sem-sentido. Ora, um ponto de partida para pensar essa estrutura é, desde o ponto de vista do trauma da injustiça cometida, a questão da justiça como fundamento da estrutura das relações humanas.
O tema da justiça não é apenas um tema da filosofia ou do direito, mas é, antes, uma ansiedade de todo e qualquer pensar. Apenas, e aí está a grande questão, é possível utilizar o próprio pensar para camuflar este tema em meio a outros temas. Queremos aqui, porém, seguir na direção inversa; queremos ressaltar a que ponto este tema é central e, simultaneamente, culminante nas reflexões filosóficas e científicas.
Pois, a rigor, qual o sentido do mundo sem a nossa fidelidade na busca da justiça? O ser humano, a condição humana, é, antes de tudo, nesse sentido, ansiedade por justiça. Ansiedade por ser justamente tratado. Ansiedade que, em termos relacionais, significa ansiedade por tratar justamente o que não é si mesmo, para que si mesmo tenha sentido. Justiça, portanto, não é – repetimos e acentuamos – uma categoria da filosofia, ou das ciências jurídicas, ou das ciências sociais, como qualquer outra categoria, mas é o essencial da própria possibilidade da filosofia, das ciências jurídicas, das ciências sociais e humanas, e da ciência em geral. E da própria vida.
Justiça significa assim, aqui, a base possível do próprio pensamento e, simultaneamente, seu fim ou ponto de chegada. Justiça significa a exuberância da vida que se encontra consigo mesma. Porém, justiça não pode ser, a rigor, afirmada como realização plena no presente, pois é, como já dissemos, uma ansiedade, é uma dimensão de construção que se constrói com tijolos infinitamente pequenos, mas infinitamente recorrentes, incansáveis, sólidos e delicados. Justiça é o objeto das ciências e da filosofia, porque é o conteúdo da própria humanidade, sem o qual a humanidade torna-se vazia. Como conceber a condição humana sem a ansiedade por justiça? Há quem consiga pensar fora da ansiedade por justiça? Parece-nos que, levada a argumentação neste sentido, não há pensamento e construção humana digna deste nome que não seja expressão, mais ou menos bem sucedida, da reparação desta ansiedade por justiça.
Mas, se é assim, como pode o tema da justiça muitas vezes estar deslocado para fora da posição central do próprio pensamento filosófico e científico? Para enfrentar esta questão, é preciso ressaltar o fato de que a justiça pretende se constituir, enquanto negação clara, inequívoca, da injustiça, em uma espécie de ética máxima, uma eloqüência da vida. A vida real é a vida que exige justiça. Assim é a vida humana: partimos de uma idéia abstrata de condição humana, passamos por diversas estruturas, camadas, sentidos de realidade que configuram o dia-a-dia da própria humanidade e das próprias reconsiderações a que o ser humano está sujeito na nossa época contemporânea, e culminamos esse pensamento retomando algo infinitamente original e originante, e infinitamente distante – a ansiedade absoluta pela justiça realizada, fundamento de toda ação humana. E assim podemos, se admitirmos tal lógica de desenvolvimento, supor que a ética é exatamente, e nada mais nem menos, do que isso: vontade de justiça em realização, justiça em todos os sentidos, construção do sentido, justiça para com o que não é nós, justiça para nós como justiça para com o outro que nós: o caminho da Injustiça à Justiça. A isso se chama de “sentido da vida”.

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Referências:

SOUZA, Ricardo Timm de. Sobre a construção do sentido – o pensar e o agir entre a vida e a filosofia, São Paulo: Perspectiva, 2003.
______, Sentido e Alteridade – Dez ensaios sobre o pensamento de E. Levinas, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000, p. 189-208.
______, Ética como fundamento – uma introdução à ética contemporânea, São Leopoldo, Editora Nova Harmonia, 2004.
______, Razões plurais – itinerários da racionalidade ética no século XX: Adorno, Bergson, Derrida, Levinas, Rosenzweig, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.


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