CIÊNCIA, FILOSOFIA, BIOPOLÍTICA



CIÊNCIA, FILOSOFIA, BIOPOLÍTICA

Ricardo Timm de Souza


            A naturalidade da multiplicação contemporânea dos campos de conhecimento ou das epistemes, por assim dizer, pode dar ao observador desavisado a falsa impressão de que as implicitudes de cada área descoberta ou inventada, redescoberta ou reinventada, são tão naturalmente conscientes a quem por ela transita e a quem a estuda ou observa quanto a expressão que se consubstancia num determinado tipo ou sub-tipo de conhecimento que se desenvolve como discurso coerente. Nada mais falso. Pois muito provável é exatamente o oposto: o que torna a multiplicação dos saberes aparentemente tão natural é, em boa medida, o recalque da motivação profunda desses saberes e a remissão de suas derivações reflexionantes, filosoficamente conseqüentes, ao porão irrefletido da obviedade aparente. E, a rigor, não se está falando aqui de nenhuma novidade; pelo menos desde a elevação da ciência e da técnica – bem como sua contemporânea feição de tecnociência – ao status de instituições por excelência do mundo em que vivemos, a partir do apogeu da modernidade e culminando no século XX e mais além; a quase ninguém costuma ocorrer como momento absolutamente inarredável do desenvolvimento desta ciência, desta técnica, desta tecnociência, a reflexão de seu sentido, ou seja, a distinção crítico-filosófica entre sua efetividade operacional e seu nascedouro ético-epistemológico. Em nenhum tratado de Medicina ou de Engenharia se encontram as reais razões ou motivos pelos quais um médico ou um engenheiro tornam-se um médico ou um engenheiro, mas apenas as formas, sempre mais complexas e sofisticadas, de ser médico ou engenheiro, de melhor dominar seu métier, de melhor dominar as técnicas respectivas. Olha-se tanto à frente, que se tem extrema dificuldade de localizar no passado as verdadeiras razões pelas quais olhar à frente é pertinente e necessário. E tudo estaria muito bem, não fosse o que amiúde se observa: essa esquizofrenia temporal cobrar o seu crédito de dissociação – quando o cientista, o especialista ou o erudito não consegue dar, a quem inocentemente pergunta, a razão de suas razões tecnocientíficas: a perversa inocência das ações expõe, então, seu flanco mais vulnerável.
            Por outro lado, a razão – insistimos na palavra – de tal fato é filosoficamente bastante clara; trata-se, simplesmente, da perniciosa confusão que se estabelece, em certo momento da história do pensamento ocidental e desde então crescentemente, entre dever fazer e saber fazer, entre poder fazer e estar automaticamente legitimado a fazê-lo, entre sentido e operação, com vantagem crescente para a automatização inconsciente, ideologicamente sustentada, dos procedimentos, em detrimento da reflexão crítica das origens de um tal ou qual modus operandi, ou seja, da transformação presumida de quantidades em qualidades, da opção pela efetividade técnica em detrimento do sentido ético-político, pela forma em detrimento do conteúdo, pelas reduplicações aritméticas da vida em detrimento da vida mesma.
            Aberta a fissura, posto está o problema: técnica alguma se explica apenas por si mesma, aplicação alguma de alguma descoberta científica ou invenção tecnológica se legitima por si mesma, pois não servem a si mesmas, mas, exatamente, àquilo que as motivou e se encontra, agora, como que fora do âmbito de sua própria abrangência perceptiva, de seu horizonte de sentido, de sua ancestralidade de motivação, como que dispensada do campo da luta. Episódio da automatização e robotização do mundo, a dissociação entre os motivos e os fazeres faz parte da incapacidade da cultura contemporânea em lidar com os verdadeiros constitutivos de crise filosófica de sentido, a crise dos conceitos e dos corpos, das categorias e da biopolítica que se vê incapaz de refazer o itinerário que a levou a tal estado de indigência, desaguando finalmente na “língua geral da violência” (na feliz expressão do antropólogo Hélio R. S. Silva).
            Há então, que retornar, não obstante todas as dificuldades que se percebem e que se intuem, ao nascedouro deste imenso quid pro quo: a questão humana por excelência, a questão filosófica do sentido da agir.
            E a questão filosófica do sentido do agir desenvolve-se exatamente no estreito caminho entre a inconsciência da dor bruta que grita por detrás de todas as suas conceitualizações e sua excessiva presença nas sofisticadas articulações conceituais que a abafam. Há que se perseguir o não-dito que se vai dizendo à medida que o dizer se diz; acompanha as derivações às quais o mundo mental é obrigado a recorrer quando, traumatizado pela concretude do objeto, é obrigado a dar conta do que não se encontra em sua agenda; reafirma a negatividade do real à positividade do mundo paralelo e bem explicado que as teias conceituais são capazes de tecer para escamotear de si mesmas seus reais constitutivos, a negatividade dialética que, ao fazer “a resposta colidir com a pergunta” (Kafka), reencontra a pergunta tornada questão para si mesma, numa aventura improvável nestes tempos autistas, em que a cada questão corresponde uma – e uma somente – resposta, na estrutura binário-cibernética da reduplicação tecnocientífica do pensamento, até mesmo do pensamento que pretende pensar a cultura. Se é verdade que “de boas intenções o inferno está cheio”, não é suficiente mostrá-las, mas é imprescindível desconstruí-las em sua lógica de convencimento, traumatizá-las, a seu próprio bem, na linearidade de seus argumentos não totalmente conscientes de si mesmos. Sem sombra de dúvida, a potência da dialética negativa é uma das esperanças que restam a um mundo quase sem esperanças, no qual, todavia, o reverso de tal estado de coisas ainda é possível, pois, no otimismo extremo que, inscrito entre o possível e o impossível, nasce em meio às cinzas do desespero, em meio às infinitas promulgações de verdades – como assevera o próprio Adorno – “só há uma expressão para a verdade: o pensamento que nega a injustiça”.

Porto Alegre, junho de 2010.


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