AINDA OUTRAMENTE - LEVINAS E RICOEUR



Ainda outramente - sobre a leitura de “Autrement qu’être ou au-delà de l’essence” por Ricoeur


Ricardo Timm de Souza

         Introdução


O objetivo desse texto é examinar rapidamente a leitura que Paul Ricoeur faz da obra de Levinas, especialmente desde Autrement qu’être ou au-delà de l’essence, no breve livro intitulado Outramente[1]. Nosso objetivo com esse estudo é menos evidenciar as não-conciliabilidades claras por si mesmas entre dois modelos de pensar, do que tentar precisar o sentido que assume o pensamento de Levinas exatamente ao posicionar-se, em sua construção, na situação de fronteiras onde desde sempre se encontra, especialmente quando contrastado com um modelo de pensamento credor de um modelo de argumentação mais tradicional, como é o caso de Ricoeur em suas análises.


         O argumento


         Para Ricoeur, o texto de seu livro tenta compreender Levinas “em sua maior dificuldade”[2]: “O desafio maior que este livro (Autrement...) apresenta consiste no fato de ligar o destino da relação a ser estabelecida entre a ética da responsabilidade e a ontologia ao destino da linguagem de uma e de outra: o Dizer do lado da ética, o dito do lado da ontologia.[3].
         Eis, portanto, o ponto de partida da apreciação de Ricoeur. Este reconstrói a famosa separação levinasiana em termos de suas expressões, ou melhor, “destino” de linguagem de uma ou de outra - o que, em princípio, nenhuma espécie causa no leitor de Levinas. Não poucas vezes este veio a utilizar exatamente essa forma de dizer para tentar tornar evidente a diferença entre a ética e a ontologia.
         Já aí, porém, pensa Ricoeur perceber um problema de grande monta, dividido em duas dificuldades de proveniência semelhante: “por um lado, dificuldade para a ética se libertar de sua infatigável confrontação com a ontologia; por outro, dificuldade para encontrar, para a ex-ceção que desregula o regime do ser, a linguagem que lhe convém, sua linguagem própria, o dito de seu Dizer[4].
         Eis aí, portanto, expostas de maneira clara, o que parecem ser duas incompreensões de origem com relação ao tema.
Entender que a ética pretende, como que a qualquer preço, se “libertar” de sua “infatigável confrontação com a ontologia” trai uma visão, no mínimo, limitada e irrealista da realidade; afinal, o que seria a ética sem a ontologia “onde” se realiza? Como posso agir sem instrumentos de minha vontade e sobre um chão onde pisar? Como posso conceber um ato ético sem um alvo precípuo deste agir? Pois é por sobre a “espessura ontológica” (Levinas), nas relações que se estabelecem com esta, que a ética empreende o ético. Uma ética sem ontologia - exceto na circunscrição exata do nó de seu sentido de fundamento de realidade pensada - nada mais seria do que uma fantasmagoria evanescente: não há ética circunscrita meramente a seu espectro de intenções não realizadas, não há ações boas ou más em espíritos, mas apenas ações boas ou más que se realizam e se realizaram efetivamente.
E talvez seja muito necessário lembrar que Levinas propõe não a absolutização de uma “ética” que simplesmente se substituísse à ontologia tout court, em uma “nova ontologia”, mas sim que a substituísse qua prima philosophia - na posição de filosofia primeira, fundante, e não absoluta ou totalizada. Esta distinção é fundamental, e dilui boa parte das incompreensões que cercam o pensamento levinasiano. Levinas, na explicitação mais larga de seu pensamento, parte da fenomenologia de Husserl e de “ontologia fundamental’ no sentido precípuo de Heidegger[5]: é por sobre essa solidez “ontológica” que se permite, segundo ele, ir além das determinações da ontologia, em uma racionalidade que não se esgota nas determinações arquetípicas de ser e não-ser.
         Que se compreenda, portanto: a ética necessita da ontologia tanto quanto nós do chão por sobre o qual caminhamos - o que não significa que nós sejamos função desse chão, ou que a ética seja função da ontologia. Como tentamos evidenciar alhures, para um universo cujo parâmetro de sentido seja o ético, o ser e o cosmo não são “nada”, mas o palco privilegiado e monumental onde um drama ético se tem de desenrolar[6] - nada mais e nada menos. Imaginar a “ética” e a “ontologia” engalfinhadas pelo status de realidade hegemônica, ou mesmo disputando este espaço, não é apenas grotesco: é, desde uma leitura elementar das obras de Levinas, completamente falso.
         Uma outra dificuldade é percebida por Ricoeur: encontrar o “dito” do “Dizer” que desregula a ordem do ser[7]. Após haver supostamente assumido a distinção dito versus dizer, Ricoeur volta a sugerir que o dizer nada possa referir senão um... dito, “sua linguagem própria”; e apóia-se, para tal, na pedra de escândalo “outramente”: “as duas dificuldades são indissociáveis e condensam-se no termo, no advérbio: outramente, outramente que... Com efeito, torna-se mister arrancar-se sempre pelo outramente que... precisamente daquilo que se procura suspender ou interromper o reino; mas ao mesmo tempo, é preciso empenhar-se em dar uma articulação discursiva àquilo em nome de que se é exigido e assegurado de poder, de dever pronunciar a anterioridade em relação ao ‘jogo que o ser conduz, o jogo da essência’...”[8].
         Examinemos de um pouco mais perto estas complicadas assertivas, iniciando por sua tradução em termos mais facilmente inteligíveis: Levinas sugeriria que é necessário, com a utilização da palavra “outramente”, evadir-se do domínio absoluto da onto-logia, mas, ao mesmo tempo, também é necessário que se articule discursivamente “em nome de que” tal evasão se faz, ou seja, é necessário que se pronuncie “logicamente” a precedência da ética. Ao que parece, vê aí Ricoeur uma incontornável dificuldade na afirmação de uma ética real.
         A questão talvez não seja tão sinuosa, embora possa ser até mais complexa. Trata-se de estabelecer uma hierarquia prévia e absolutamente clara em termos de precedência do que interessa no discurso levinasiano. Estranhamente, ao contrário do que pensam muitos leitores pouco familiarizados com o autor, não se trata simplesmente de uma espécie de “apologia” do ético frente a outras dimensões da realidade, mas em mostrar que, em última análise, a viabilidade da própria possibilidade de pensar o que seja a realidade deriva de uma atitude ética original-anterior, poderíamos dizer: radical. Traduzido em termos elementares, poder-se-ia afirmar o seguinte: o fato real da conversa filosófica entre dois interlocutores a respeito de uma grave questão especulativa sobre as condições de possibilidade, por exemplo, da ética, depende de sua aproximação e da disposição mútua de encetar tal conversa; mas depende, antes e definitivamente, de que nenhum deles mate o outro antes do início da conversa e de que nenhum terceiro os mate - e esta não é uma questão especulativa, uma questão de especulação ética, mas, exatamente, uma questão ética fundante-determinante de modo absoluto, possibilidade de toda e qualquer especulação naquele contexto particular. Caso esse fato não seja plenamente compreendido, ocorre uma quase inevitável tendência a retroagir ao status da prescrição e suas infinitas discussões[9].
O que está aqui realmente em jogo é um preconceito milenar: a idéia implícita de que toda ética se define enquanto realidade por sua dimensão de prescrição, e que a realidade do ato ético depende desta definição, e não - ou não tanto - de sua efetiva realização concreta. E que, se Levinas quiser permanecer fiel à sua profissão de fé na procedência-precedência da ética, terá de articulá-la, a bem do rigor, com a solidez de termos bem-acabados, cristais lingüísticos muito coesos e que se dão à arguta análise que os decompõem para ver se não se traíram a si mesmos.
Mas a palavra “outramente” (muito menos inusual no francês que no português, mas sempre algo “exótica”) escapa a essa solidez: envia adverbialmente a uma certa imponderabilidade de muito difícil consideração e acaba - como toda e qualquer palavra proferível e proferida - sendo o “dito” de seu pretenso dizer ético.
         Quem negará a qualquer palavra de qualquer teor sua “ancoragem” em si mesma? Toda e qualquer palavra inteligível em alguma língua contém a dimensão do dito: esta é simplesmente a condição de seu “existir”. O que interessa a Levinas é que este é sempre um possível primeiro passo para a correlação e a simetrização absolutas - aí sim, a morte do dizer, mas um risco necessário - conforme a citação de Ricoeur: “A correlação do Dizer e do dito, isto é, a substituição do Dizer ao dito, ao sistema lingüístico e à ontologia é o preço que a manifestação solicita”[10].
         Ricoeur reconhece aqui uma nova estrutura de afiliação: o dito afiliar-se-ia à chamada semântica do enunciado e o Dizer a uma pragmática da enunciação (“reconhece-se aí o dito e o Dizer”)[11]. Ricoeur baseia sua argumentação à oposição nominalização-verbalização que remonta ao Crátilo[12]. E lembra também que apresentará, em contra a proposta de assimetrização absoluta dito-Dizer, uma “certa revanche do nome”.[13]
        

Conclusões


         Ricoeur ataca a construção levinasiana exatamente com armas que pertencem a um tempo que esta, levada a suas conseqüências mais sérias, acaba de deixar para trás: estruturas bimodais de pensamento, jogos de polaridades semânticas, imagens constrastantemente elucidativas, súbitas detenções argumentativas em torno a nós algo mais complicados que o meramente “normal”, intrusões sutis no corpo da argumentação, como se essa argumentação fosse a coisa argumentada mesma. Enfim, dois estilos inconciliáveis se apresentam nessa análise.


[1] Petrópolis, Vozes, 1999; tradução de P. S. Pivatto.
[2] Op. cit., 15.
[3] Op. cit., 15-16.
[4] Idem.
[5] Cf. SOUZA, Ricardo Timm de. Sujeito, ética e história - Levinas, o traumatismo infinito e a crítica da filosofia ocidental, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1999, especialmente pp. 22-37.
[6] Cf. SOUZA, Ricardo Timm de. Totalidade & Desagregação - sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1996, p. 160.
[7] Cf. Outramente, op. cit., p.16.
[8] Op. cit., p. 16.
[9] Poder-se-ia objetar nesse ponto: em nosso exemplo, o fato de nenhum dos interlocutores haver matado o outro, o fato de ambos não haverem sido previamente mortos, não significa que alguma prescrição foi enunciada e aceita à risca? Mais uma vez, ocorre um certo desvio da questão principal. Pois não é o fato de que houve a enunciação e a aceitação que caracterizam o ato como ético, mas sua realização plena, sua inscrição no irrecorrível. Nada se tem contra éticas prescritivas: o que se quer é que se perceba a insuficiência da mera prescrição (lembremos com o próprio Levinas, a título anedótico, que todos os principais chefes nazistas haviam lido o catecismo e suas prescrições éticas). Em outros termos: ou a ética é fundacional, ou tende a se esvair em relativizações que negam suas melhores intenções.
[10] Op. cit., p. 20.
[11] Cf. op. cit., p. 21.
[12] Cf. op. cit., p. 21.
[13] Ainda um outro elemento de Autrement qu’être... provoca a reação de Ricoeur: “não se nota nenhum progresso visível no argumento; os capítulos seguidos não se somam um ao outro; tudo está dito no texto denominado Argumento (p. 13-42) e, de alguma forma, repetido nas breves páginas finais, intituladas de forma particularmente interessante para nós aqui: outramente dito. O outramente que o dito do Dizer procura - e talvez se conceda - um outramente dito” (p. 21). Não desenvolveremos a resposta a essa questão aqui, a não ser no sentido de ressaltar que a organicidade de Outramente... exige uma circularidade narrativa que o estilo “descritivo de Ricoeur aborrece.

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