ADORNO - A PULSAÇÃO DA VIDA NO ENVOLTÓRIO DO ESTÁTICO



A pulsação da vida no envoltório do estático

 Ricardo Timm de Souza

Se, no interior da própria lógica,
o conceito cai sobre o particular
como algo de puramente exterior,
com muito mais razão tudo o que
representa a diferença tem que
tremer.
ADORNO-HORKHEIMER,
Dialética do Esclarecimento

I

            A violência só pode se desenvolver de forma não auto-destrutiva no interior de algum abrigo, carapaça ou blindagem que a proteja de suas próprias invectivas. Como vivemos, talvez mais do que em qualquer outro período da história, uma época intrinsecamente violenta, a tal ponto que nos acostumamos a suportar o in-suportável, como se o insuportável não o fosse, numa contradição da própria lógica que sustenta nossos argumentos em todos os níveis[1], este abrigo, blindagem ou carapaça tem de ser inusitadamente firme e bem conectado em seus constitutivos, ou se desagregaria imediatamente.
            A primeira tarefa filosófica é, portanto, ver como se constrói a naturalização de uma tal estrutura de violência – sempre, de algum modo, negação da alteridade, do diferente, do não-idêntico[2] – que se esconde por detrás de algum tipo de aceitabilidade blindada, para que se possa empreender a desconstrução da lógica que a sustenta, habitando-a e reconstruindo continuamente o arcabouço teórico-cognitivo que a faz perdurar e que se confunde com esta própria perduração.
            É de se notar então, previamente, que uma tal naturalização da violência pode se constituir, a rigor, apenas através de um complexo itinerário, a saber: retirando da vida que constitui a significação dos acontecimentos sua característica própria de vida, ou seja, domesticando-a em sua espontaneidade temporal. Pois, por “vida”, não se entende em nenhuma tradição filosófica ou científica algo outro que dinamismo vital. A vida se move, a vida vive – e quando “a vida não vive”, como diz Benjamin citando Kürnberger, é que chegou-se ao momento de contradição máxima – e não uma contradição dialética, mas paralisada e paralisante: uma espécie de detenção do tempo dos acontecimentos, um respiro – ou estertor – de Odradek.
            Dá-se o caso, portanto, de perguntar se o período em que estamos não é, como tão bem viu e anteviu Kafka, um período de doença da temporalidade[3]. Naturalmente, tudo parece dizer em contra essa análise. Nunca se deram tempos tão frenéticos como os que ora vivemos, tempos da aceleração, da virtualidade, do imediatismo, das simultaneidades que parecem levar a idéia de tempo justamente ao seu limite de realização. E, não obstante, toda essa procissão imagética praticamente indescritível pode estar sendo permeada, movimentada, confundida, exatamente pelo seu contrário; não é absolutamente implausível que esta agitação que, por definição, decorre em superfícies, denuncie o imobilismo pesado e inercial da movimentação espontânea das coisas, tal como, num dia sem vento, seria a imagem de árvores balançando não por efeito do vento, mas por algum mecanismo que agitasse seus troncos. O excesso de movimentação, longe de ser testemunho de exuberância, trai justamente o abismo de sua ausência. O que aparenta ser dinamismo não passa de frenetismo obsessivo e circular, de irrelevância vital pelo sufocamento daquilo que faz com que se possa chamar de vivo ao que está vivo, confundindo a simples respiração com o estertor do moribundo. Quando proliferam as dinâmicas virtuais que poupam aos que se vêem o incômodo de se encontrarem, é o caso de se perguntar se a própria idéia de encontro ainda é possível. O que significa: é a vida possível?
            A obra de Adorno, em seu conjunto e em suas inumeráveis variâncias, consiste essencialmente num imenso e genial esforço de trazer à luz da racionalidade eticamente investida, ou seja, eticamente constituída[4], aqueles elementos que, submersos por pretensas totalidades de sentido[5], permanecem a ponto de sucumbir aos escombros da proliferação da não-vida.
            O fato é que, para Adorno, os mecanismos repressivos da modificação das condições humanas e sociais existentes – se é que não podemos, para todos os efeitos do presente estudo, sinonimizar tais expressões – configuram-se a partir de uma espessa teia de aceitabilidade que se tece por sobre a superfície dinâmica dos fatos, de tal forma a, pretensamente, transformar tal dinâmica numa mera expressão estática do desde-sempre dado, do meramente existente, do consolidado. Uma espécie de envoltório que tem, exatamente na sua superficialidade que não resistiria a um embate dialético verdadeiro, ou seja, não-totalizante, negativo, a sua força: a promessa de totalidade completa do estabelecido que comporta a positivação contínua, pela negação da particularidade, do faticamente já existente.
            Pensar filosoficamente consistiria assim, para Adorno, essencialmente na perfuração aguda – ou na corrosão arguta – dessa estrutura de proteção das entranhas reais daquilo que se apresenta como realidade, através da dialética negativa que explora toda a potência que habita cada conceito que, segundo ele, no conhecido dito, significa os pensamentos “que não se compreendem a si mesmos”.


[1] Cf. SOUZA, R. T., Justiça em seus termos – dignidade humana, dignidade do mundo.
[2] Cf. SOUZA, R. T., “Três teses sobre a violência - Violência e Alteridade no contexto contemporâneo: algumas considerações filosóficas”, in: SOUZA, R. T., Em torno à Diferença – aventuras da alteridade na complexidade da cultura contemporânea.

[3] Cf. SOUZA, R. T., Metamorfose e Extinção – sobre Kafka e a patologia do tempo.
[4] Cf. SOUZA, R. T., Razões plurais – itinerários da racionalidade ética no século XX: Adorno, Bergson, Derrida, Levinas, Rosenzweig.
[5] Cf. SOUZA, R. T., Totalidade & Desagregação – sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas.

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