A VIDA OPACA - MEDITAÇÕES SOBRE A SINGULARIDADE FRACASSADA



A VIDA OPACA - Meditações sobre a singularidade fracassada

Ricardo Timm de Souza

I)

“Velho e nu, exposto aos infortúnios deste desafortunado
mundo, vejo-me andando a esmo num carro
indiscutivelmente real, puxado por cavalos
indiscutivelmente sobrenaturais...”[1]

         A obra de Kafka goza da fama de terrorífica ou obscura; dificilmente poder-se-á ler algo de algum crítico em que este não chame (ao menos subrepticiamente) a atenção para a sua (do crítico) habilidade em lidar com esse fato tão conhecido e notável e também, em boa medida, tão lamentavelmente romântico.
         Partimos, porém - como alguns outros poucos leitores desta singular obra do século XX - de um ponto de vista exatamente oposto; defendemos em outro lugar[2] que o conjunto da obra de Kafka não se mantém por seu hermetismo ou impenetrabilidade, mas, bem pelo contrário, por sua plena, excessiva claridade, onde a literatura, superando milenares preconceitos de subjetivismo e objetivismo, idealismos e realismos, atropelando as sutilezas de uma razão totalmente ocupada com suas fantasmagorias, construtos e esboços conceituais, apresenta-se apesar desses, apesar de tudo, retorcendo-se e se expondo desde sua mais incômoda dimensão de “hiper-realidade” para além de qualquer conceito esquálido do que seja real ou não-real. Nada há de ininteligível nestes textos espessos: eles constróem sua inteligibilidade exatamente à medida em que se constróem. Saber lê-los significa, simplesmente, não se deixar ofuscar por sua estranha claridade.


II)


         Em um texto conciso, Ernildo Stein tece uma delicada teia argumentativa no sentido de sugerir de que forma é concebível, na psicanálise (e na filosofia que é capaz de aprender suas lições), transferir-se do domicílio do universal ao universo de sentido do real singular, ou, em termos mais precisos, de como se pode redescobrir o essencial apesar das essências e de seu poder sintetizante[3]. Desde sugestões de uma obra de Juan Carlos Onetti, Stein contextualiza a situação analítica onde a “história contada” envia continuamente a uma “outra história” que “a partir da escuta se pretende ‘deduzir’”[4]; a partir do dito, deve-se chegar ao que está sendo verdadeiramente dito - o que, na psicanálise, dar-se-á por sobre o suporte de situações de fato transferenciais e/ou contratransferenciais. “Na psicanálise contar a história sempre pressupõe a outra história, não visada diretamente, mas que entra em ação como manifestação da singularidade na transferência”[5].
         Mas como se pode dar este processo? Como destrinchar a ambigüidade que se estabelece entre estas diferentes histórias que, se na ficção entretece o sentido da narrativa, na situação analítica nada mais faz senão provocar o poder exatamente analítico que deve ser capaz de discernir o conjunto de significados submerso na linearidade da narrativa “óbvia”? Qual a base desta distinção? Para Stein, “ambas, a ficção e a psicanálise, nos confrontam por caminhos próprios de cada uma, com a questão da individualidade do ser humano, com aquilo que denominamos a singularidade”[6]. Mas, se na ficção o autor permanece o “dono” do enredo que se constrói, na psicanálise a singularidade torna-se o objeto precípuo da atenção do processo como um todo[7].
         Mas, “para a psicanálise, a singularidade corre o risco da naturalidade”[8] - ou seja, da generalização, da Aufhebung conceitual. A nossa própria singularidade, só a conquistamos pela “passagem de nosso desejo pela experiência da plenitude impossível e do objeto perdido”[9]. Assim, a psicanálise nos oferece uma base de compreensão sobre a constituição de nossa singularidade para além das determinações objetivas das ciências e da filosofia tradicional, na medida em que esta pensa a singularidade desde sua dimensão lógico-objetivante, e não real, singularidade dada, exatamente, no singular, através da complexa introdução, na estrutura original de ambigüidade, de um terceiro alienante-estruturante[10].


III)

        
         Apenas as constatações acima já delineiam a precedência absoluta e a urgência de um pensar que não se incline à rigidez de formas lógicas e atemporais, mas que se module conforme o real que o sustenta - uma filosofia habilidosa, capaz de “expressar não apenas estados de coisas, mas situações em que se dão estados de ânimo, e que estão ligadas ao sentimento de situação que acompanha o modo de ser-no-mundo do indivíduo humano”[11]. A apreensão da própria singularidade por um indivíduo passa pela compreensão real da possibilidade reiterada da recorrência da tendência ao fechamento, à totalização (ainda que imaginária) no universo da ambigüidade que, simultaneamente, promete o paraíso da plenitude materno-original e o interdita. E navegar pelos mares revoltos desta ambigüidade (ou será já multiplicidade de origem e de sentido?) sem “perder-se no imaginário” significa ser capaz de compreender limites e fronteiras da finitude de tudo o que é capaz de se auto-compreender como individual - “a morte me impede de chegar ao todo”(Rosenzweig, 1918). Este é o princípio de toda lucidez.


IV)


         Voltemos à literatura. Em seu genial conto de inauguração da plena maturidade estilística - “O veredicto”[12] - Kafka leva estas lições aos seus extremos. O que ali se conta é a história de uma condenação e de uma morte - não da condenação ao deslumbramento dos conceitos ou da morte como vocação realizada - mas de uma condenação e de uma morte que ocorrem porque o indivíduo, não as ignorando, embate-se, de certa forma, justamente pelo direito de assumi-las - ou seja, procura libertar-se do que aferra sua singularidade a uma estrutura que a manieta em torno a determinantes primários definitivos e opacos, decididamente incontornáveis. 
         No início deste famoso conto[13], o jovem comerciante Georg Bendemann acabou de escrever uma carta. Esta dirige-se a um amigo refugiado na Rússia, um amigo que teve a coragem de trair a unidade parental-provinciana saltando para além de seus limites (embora agora esteja sofrendo as conseqüências de sua ousadia, uma vez que seus negócios não vão muito bem). O próprio Bendemann tem permanecido imerso em uma paisagem na qual “o verde é sem vigor”[14].
         Mas tal não deve durar muito tempo. Pois Bendemann está justamente a anunciar ao amigo seu casamento em data próxima - este será o seu salto qualitativo. E não é sem hesitações que Georg atinge este ponto - “Com essa carta na mão Georg ficou longo tempo sentado à escrivaninha, o rosto voltado para a janela. Mal respondeu, com um sorriso ausente, a um conhecido que, passando pela rua, o cumprimentara”[15].
         Aqui se inicia propriamente o drama. Georg vai ao quarto do pai, relatar sobre a carta, um quarto “surpreendentemente escuro nesta manhã ensolarada”[16].
O pai ainda é forte - “’Meu pai continua sendo um gigante, pensou Georg’”[17], e se estabelece imediatamente como interlocutor de um sutil diálogo, vago, ameaçador e decisivo a um só tempo. “ - Georg, disse o pai esticando para os lados a boca desdentada -, ouça bem. Você veio a mim para se aconselhar comigo sobre esse assunto. Isso o honra, sem dúvida. Mas não é nada, é pior do que nada, se você não me disser toda a verdade... desde a morte de nossa querida mãe aconteceram certas coisas que não são nada bonitas... Na loja muita coisa foge ao meu controle (...) Georg... não me engane... Você realmente tem esse amigo em São Petersburgo?”[18].
Georg leva a conversa para outro tom - “ - Vamos deixar de lado os amigos. Para mim mil amigos não substituiriam meu pai. Sabe o que eu acho? Você não se poupa o necessário...”[19]. Com todo o cuidado, Georg acaba aparentemente por conseguir apaziguar a irritação desconfiada do velho. “Carregou nos braços o velho para a cama. Teve um sentimento terrível quando, ao dar uns poucos passos até lá, notou que o pai estava brincando com a corrente do seu relógio. Não conseguiu colocá-lo logo na cama, tão firme ele se agarrava à corrente. Mas mal o pai ficou na cama tudo pareceu estar bem”[20].
         É neste ponto que os fatos se precipitam. “- Estou bem coberto?... Fique tranqüilo, você está bem coberto. - Não! - bradou o pai de tal forma que a resposta colidiu com a pergunta, atirou fora a coberta... e pôs-se em pé na cama... Você queria me cobrir, eu sei disso, meu frutinho, mas ainda não estou recoberto. E mesmo que seja a última força que tenho, ela é suficiente para você, demais para você...”[21].
         “Georg levantou os olhos para a imagem aterrorizante do pai... - Só porque ela levantou a saia, você profanou a memória de sua mãe, traiu o amigo e enfiou seu pai na cama para que ele não se movesse (...) - Então você ficou à minha espreita! - bradou Georg... - (o pai) Agora portanto você sabe o que existia além de você, até aqui sabia apenas de si mesmo! Na verdade você era uma criança inocente, mas mais verdadeiramente ainda você era uma pessoa diabólica! Por isso saiba agora: eu o condeno à morte por afogamento!... Georg sentiu-se expulso do quarto, levando ainda nos ouvidos o baque com que o pai, atrás dele, desabou sobre a cama...”[22].
         A Georg não resta, portanto, senão cumprir o determinado - “no portão do prédio deu um pulo, impelido sobre a pista da rua em direção à água. Já agarrava firme a amurada, como um faminto a comida. Saltou por cima dela... exclamou em voz baixa: - Queridos pais, eu sempre os amei - e se deixou cair. Nesse momento o trânsito sobre a ponte era praticamente interminável”[23]


V)


O que temos neste conto magnífico? Entre muitas outras coisas, um definitivo fracasso de um processo de singularização. Um repleção maciça ocupa todos os espaços, há apenas uma história real, fechada em si mesma, a história de uma falência radical, uma solidão absoluta. No drama de Georg Bendemann, todas as outras histórias nada mais são do que possibilidades mortas ou fantasmagorias fracassadas: ocorre uma interdição de origem, um verdadeira obliteração do possível em favor da facticidade bruta do real que ocupa todos os espaços. O que temos aí é um bloco pesado de realidade, uma realidade total, totalizada, fechada em si mesma, sem interstícios nem frestas - nem esperanças. A solidão total. A radicalização da totalidade que “é sempre buscada e se repete em todos os objetos do desejo”[24] - apenas que completamente realizada em si mesma, sem possibilidade de transformação, sem nenhuma abertura ou vibração de imponderabilidade - ou sugestão de alteridade. Este texto diz com absoluta clareza aquilo que no século XX mais acontece: exatamente a ausência da efetiva multiplicidade do(s) sentido(s) ou das dimesões do real enquanto dados concretos, que instaurem a possibilidade de experiemntar o novo.


VI)

“Não há o haver, apenas o ser, apenas um ser no
último fôlego, aspirando ser sufocado”[25]


         Se é verdade que “é só através da hipótese de um terceiro que a singularidade se afirma em seu caráter único”[26], não é difícil conceber que o sentido se dá de forma plural; há uma pluralidade de origem, sem a qual nada resta senão a tautologia, “um ser no último fôlego, aspirando ser sufocado”. Entre as mais espantosas possibilidades do Dasein, está a de não se poder perceber simplesmente sozinho, a não ser por uma circunvolução filosófica ingênua ou alienada que se desvanece ao entrar em contato com a mínima parcela do real. Se é verdade que “para pensar o acontecer da singularidade que vai além da linearidade das representações epistêmicas, é preciso introduzir uma linguagem filosófica capaz de expressar não apenas estados de coisas, mas situações em que se dão estados de ânimo, e que estão ligadas ao sentimento de situação que acompanha o modo de ser-no-mundo do indivíduo humano”[27], então é necessário que a linguagem filosófica se desencontre radicalmente de si mesma enquanto oratória do presente do indicativo. Não é este um pequeno esforço. Ao estático, contrapõe-se a temporalidade real. Ao paralelismo geométrico, contrapõe-se o contraponto dialogal. Pressupõe a reconsideração não do que a realidade seja, mas do sentido que possa assumir; pressupõe a oposição, à verdade des-coberta, da verdade construída na multiplicidade infinita dos mundos humanos, das história e das outras histórias, das migalhas de realidade às quais ninguém presta atenção... pois “talvez ser ou não ser não seja a questão fundamental”[28].  
1999



[1] KAFKA, F., “Um médico de aldeia” in: KAFKA, F., Contos, Fábulas e Aforismos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1993, p. 42-43.
[2] Cf. SOUZA, Ricardo Timm de. Metamorfose e Extinção - Sobre Kafka e a patologia do tempo, Caxias do Sul, EDUCS, 2000.
[3] STEIN, Ernildo. “Singularidade e Transferência” (Inédito)
[4] STEIN, E., Op. cit., p. 2.
[5] STEIN, E., Op. cit., p. 3.
[6] Op. cit., pp. 3-4.
[7] Cf. Op. cit., p. 4.
[8] Op. cit., p. 5.
[9] Op. cit., p. 6.
[10] Cf. Op. cit., p. 7-9.
[11] Op. cit., p. 9.
[12] Escrito em um só fôlego, na noite de 22 para 23 de setembro de 1912.
[13] Todas as citações que se seguem referem-se à tradução de Modesto Carone: KAFKA, F. “O veredicto” in: KAFKA, F. O veredicto - Na colônia penal, São Paulo, Cia. das Letras, 1998
[14] Op. cit., p. 9.
[15] Op. cit., p. 14.
[16] Op. cit., p. 15.
[17] Op. cit., p. 15.
[18] Op. cit., pp. 16-17.
[19] Op. cit., p. 17.
[20] Op. cit., p. 19.
[21] Op. cit., p. 20.
[22] Op. cit., pp. 20-24.
[23] Op. cit., pp. 24-25.
[24] STEIN, E., Op. cit., p. 10.
[25] KAFKA, Franz. Aforismo n. 32 in: KAFKA, F., Op. cit., p. 99.
[26] Op. cit., p. 4.
[27] Op. cit., p. 9.
[28] LEVINAS, E. “A consciência não-intencional” in: LEVINAS, E. Entre nós - Ensaio sobre a alteridade.

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