A TERRA DEVASTADA, A VIDA NUA E A RADICALIDADE DO SENTIDO



A TERRA DEVASTADA, A VIDA NUA E A RADICALIDADE DO SENTIDO

Ricardo Timm de Souza


            Partamos de uma premissa aparentemente simples: em uma paisagem devastada, o trabalho intelectual sério é necessariamente muito árduo. De fato, nas dimensões agrestes das falsas suavidades, coloridos e encantamentos retóricos, à enormidade da tarefa desconstrutiva dos esteios que sustentam e legitimam a injustiça, o intolerável, que procuram, com sutilezas extremas, o convencimento dos relutantes em suportar o insuportável, em que os cantos de sereia se confundem com as trombetas do triunfo, soma-se ainda o cinismo das apologéticas moderadas e de seus acólitos cooptados em todos os campos do saber, ainda naquele, origem de todos, que deveria estar desde sempre imunizado contra uma tal tentação mortal: a filosofia. Quando as próprias intenções do filosofar se constituem, como amiúde acontece na contemporaneidade, em objeto de dúvida para quem observa o arrolar bem organizado de argumentos sutis, de tal modo tais argumentos pressupõem um mundo paralelo e são incapazes de dar conta de suas reais intenções a quem neles se aprofunde, resta pouco além de lamentar.
            Porém, este pouco pode ser muito. A profundidade do abismo que se divisa dá a extensão do perigo que espreita. Trazer à tona, eis a palavra de ordem que se insinua entre dois blocos maciços de horror; mas, além disso, o novum: apresenta-se uma nova tarefa ao intelectual. Trata-se não mais, apenas, de, arqueologicamente, genealogicamente, ao estilo de uma psicanálise da cultura, desentranhar o entranhado na espessura dos acontecimentos indiferenciantes – da violência – que se precipitam: trata-se, também, de assumir definitivamente a responsabilidade do que à consciência surge, de contrapor ao indiferenciado a diferença da metaconsciência ética capaz de ditar à consciência cognitiva as razões de sua degeneração, de sua conivência com aquilo com o que não se pode conviver, expondo-as com a segurança que só é dada aos que dispõem de uma só oportunidade e não podem desperdiçá-la. A tal ponto difícil é a função do intelectual, hoje.
            Trata-se assim, em termos concretos, de não apenas desconstruir ordens desumanas, sistemas monstruosos travestidos de aceitabilidades diversas, insinuantes discursos bem-comportados que não são mais do que formas hipermodernas – ou hipersofisticadas – de ovos de serpente; trata-se de desnudar a tal ponto a indecência do indecente que a mera idéia de reconstruir algo do mesmo teor já soe, por si mesma, indecente, ou seja, eticamente inaceitável. Pois não há trabalho intelectual digno desse nome na contemporaneidade que não se constitua em uma resposta cabal – embora, naturalmente, não necessariamente exaustiva – a alguma questão ética fundamental: essa é a real dimensão das transformações epistêmicas, ou epistemológicas, que ora atravessamos: a dimensão de seu verdadeiro sentido. Que tal não tenha, nem de longe, sido percebido como deveria, não desonera ninguém de sua obrigação precípua, quando se propõe a mergulhar nas entranhas da realidade que nos cerca e de lá retornar com o resultado de sua ousadia desconstrutiva.
            Tal mergulho significa a desarticulação argumentativa dos constituintes profundos de modelos eticamente inaceitáveis de compreensão das questões candentes da contemporaneidade, como uma resposta de extrema consistência a uma questão imperativa, a uma provocação de imensa importância que a proliferação de tais modelos significam no mundo de hoje. Pois análises rigorosas e conseqüentes, domínio da tradição, percepção aguda dos tempos que correm – tudo isso anuncia o que, de modo muito agudo, apenas se anuncia na contemporaneidade do que dá o que pensar a quem opta pela verdadeira vida do espírito, contemporaneidade assoberbada pelo tumulto que assola a terra devastada e a vida nua: a questão da radicalidade do sentido que luta para, de algum modo, assomar à consciência de uma época – a esperança ética.



Porto Alegre, outono de 2009.-

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