A ROCHA ESTRATIFICADA DE MAX ERNST



A rocha estratificada de Max Ernst e seus diversos preços

 Ricardo Timm de Souza

Belas pinturas


O bom século XX vê o muro do fim da rua no quadro de Max Ernst "Rocha estratificada...". O mesmo, 'um pouco mais caro quando em uma caixinha polida', reserva de pudor descarado, comprou e vendeu, gostou da plantação. Tudo tem brilho, pode ter brilho, reflete a luz, trouxe o intestino mais fundo e o cortou artisticamente, as lutas intestinas vieram à tona, as tropas se atropelaram no musgo - meio termo entre podridão e vida, grandezas e misérias, média do meio-termo em uma caixinha polida: poliram-se as aparências, sobrou o interior, não coube na caixa polida, forçou o tempo e o futuro, estas indesejadas caixas de surpresas, para dentro da caixinha polida. Comprou e vendeu. Revendeu. Escondeu. Viveu a vida polida. Abriu a boca para extravasar mediocridade: a caixa engoliu a mediocridade. O medo quase apareceu: quase conseguiu escapar de sua concha. Sobrou o brilho: custa caro mantê-lo. Tempus fugit.

Quem tem medo do sur-realismo? As batatas rolam apesar de sua forma pouco esférica, e ninguém tem medo delas. O surrealismo não tem vergonha de ter nascido oitenta anos prematuro? Em que época caberia mais do que no fim da pós-modernidade, nos fins da pós-modernidade, no fim dos fins, no tempo do sol frio, para superá-los, no fim do milênio? O surrealismo ao menos não tem fastio. Ao menos tentou. As visões e os sonhos se atropelaram, mas a impotência ficou. O mais alto dos gritos de horror não teve senão uma potência limitada: o concreto foi desproporcional ao abstrato. O touro de Guernica amancebou-se com a paralisia do tempo pintado, parou de arfar, quanta energia custa arfar! O cavalo virou uma roda de traços, fugiu quando viu o napalm. Quem ainda se lembra? Quem se lembra sempre? Mas a bicharada volta nas noites mais tranqüilas, não se deixa acompanhar pelos torturadores, pelos "lobisomens da história", nem pelos "homens da noite". Onde estes límpidos animais estão, é sempre dia claro. Ficamos então literalmente sem palavras: quanta dignidade nos destroços.

1999.-

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