A QUESTÃO DO OUTRO NA FILOSOFIA DA LIBERTAÇÃO



A Questão do Outro na Filosofia da Libertação

Filosofia primeira e crítica da Totalidade - um esboço



Ricardo Timm de Souza

1- Introdução - momentos da história de uma questão


De nenhuma forma se pode considerar a investigação filosófica explícita da realidade dos outros seres humanos enquanto tais, outros em relação a quem os pensa, como uma questão propriamente desdobrada a partir dos parâmetros iniciais do filosofar ocidental - seja em termos histórico-cronológicos, seja em termos de relevância na constelação de disciplinas filosóficas clássicas de linguagem grega. A preocupação incisiva demonstrada pelo pensar contemporâneo em torno a esta questão insere-se em última análise no âmbito das urgências prevalentemente práticas deste conturbado século presente, muito embora as raízes do problema penetrem profundamente no tecido dos séculos anteriores. Ainda mais nova é a percepção clara da necessidade de teorização inequívoca deste tema, para além de contingências simplesmente práticas, com a preocupação da conseqüência metodológica e levando o assunto à condição de extrema relevância que sempre lhe foi devida especulativamente.

Assim, este problema filosófico - sempre percebido, nunca enfrentado diretamente, de maneira sistemática, até tempos bem recentes - coloca-se como inadiável justamente na conturbação contemporânea de fim de milênio e em conflito com suas neutralizações encontráveis ao longo da história da filosofia ocidental. Se para os pré-socráticos o problema aparentemente não existia ainda, encontra-se em Platão e Aristóteles já como que neutralizado e despido de seus elementos mais intrigantes e irredutíveis a uma metafísica monádica. Para estes clássicos, o interesse antropológico  vai até os limites do estado e da civilização gregas e helenizantes. Nem os bárbaros, nem os inferiores pertencem às preocupações centrais de uma potência abstrativa que descobre sua força e se reflete em sua teoria. A categoria de Alteridade filosófica está assim viciada ab initio.

A situação não se altera substancialmente com os "éticos" gregos - uma direção já estava claramente delineada, e não seriam Epicuro e Zenão, contemporâneos deste tempo espiritual clássico, a percebê-la diferentemente. É necessário aguardar pelo Cristianismo para que a questão assuma novos contornos.

O Cristianismo choca-se com a Totalidade grega de forma hoje dificilmente imaginável. Ali o outro é, em fundamento e per definitionem - Outro[1]. O judaísmo concorre com uma tradição originalmente fecundada por esta intuição básica, de tão difícil compreensão por parte dos herdeiros de uma ontologia toda-poderosa. E esta ontologia triunfa. Os séculos seguintes são de domesticação daquilo que de subversivo estava a tradição evangélica imbuída. A relegação do Outro ao status de elemento de uma equação socializante de perfil ontológico-egológico, o outro definido a partir do mesmo - o reencontro do tema com sua índole originária grega, particularizante, neutralizante - dá-se à proporção em que se engendra a Cristandade. O Outro é novamente esquecido.

A idade moderna reencontra o outro como problema intelectual. Descartes procura pela realidade do outro, acaba por crer nela desde um viés totalmente gnoseológico-metodológico, em concordância com a tradição de que vem e que ajuda a refundar - e passa pelo assunto. O outro assume a condição clara de um empecilho necessário, a ser resolvido intelectualmente no âmbito dos sistemas e das teorias, sem ocupar propriamente um momento de relevância autônoma na lógica dos edifícios do conhecimento filosófico.

O reenfoque antropológico dos inícios e meados do século XIX - pensamos aqui em Feuerbach e, implicitamente, Kierkegaard - sugere uma revalorização da questão, mais pela obviedade de sua importância que por seu trato discursivo. Mas é em Marx que a questão está inequivocamente presente - o proletário é o Outro do sistema par excellence, um deles, muitos deles; e é o centro de uma reflexão cuja teoria da Alteridade não tem este nome.

Estamos enfim no século XX, que traz consigo um esgotamento do passado, principalmente pela decepção dos otimismo plantados pelo positivismo ingênuo e pelo cientismo. Se Husserl ainda pode falar do outro como um alter ego, a autores como Rosenzweig e Buber, entre outros - retomando o horizonte de uma antiqüíssima Weltanschauung semita - esta formalização é humanamente impossível. A consciência crescente da histórica opressão dos outros, do Outro, por obra do poder de um cada vez mais inteligível Mesmo totalizante, torna inviável a inserção da questão do outro enquanto tal em uma equação racionalizante bem-comportada. A miséria dispersa ao longo de séculos de exploração e servidão dos Outros se concentra no Outro que vira fumaça em Auschwitz e Hiroshima ou que apodrece crivado de balas por obra de um Esquadrão da morte no subúrbio da megalópole - em um processo inequívoco e perverso de Aufhebung em uma Totalidade sempre presente mas agora clara demais. Se para Sartre o outro é um perigo, pelo menos ele existe por si, tenta falar a sua própria língua: já não é possível fingir que o Outro não existe enquanto tal, enquanto irredutibilidade à neutralização. Mas esta intuição pressupõe uma outra, prévia, capaz de impedir o retorno do problema à órbita do voluntarismo totalizante; capaz de, em uma radicalização concreta e abstrata, superar a concreção e a abstração servis do passado totalizante.

É a gênese deste processo radical de abstração e concreção que este pequeno artigo quer sugerir: primeiro, em um procedimento abstrativo tão intenso, que carrega consigo a mais íntima e irredutível concretude na categoria, rapidamente esboçada, de Exterioridade absoluta em Levinas; depois - no núcleo propriamente dito deste artigo - na concreção do Outro na Filosofia da Libertação latino-americana - uma das primeiras filosofias de inspiração pós-totalizante.

 

2 - A Ética como prima philosophia - o Outro como Alteridade absoluta


O filósofo lituano Emmanuel Levinas serve-se da Ontologia fundamental heideggeriana e da intencionalidade fenomenológica de Brentano e Husserl para estabelecer, por exemplo em Totalité et Infini[2] (uma de suas obras máximas), a diferença irredutível entre a Totalidade e a Exterioridade. A Totalidade - de cuja a Fundamentalontologie se constitui no canto de cisne filosófico - é o processo de incorporação sistemática e violenta do Outro ao Mesmo, é o trofismo espontâneo e negador da possibilidade da Diferença para além das diferenças inter-específicas e inter-genéricas. Ela se dá de forma mais clara na e desde a Guerra que é Ser desde os pré-socráticos - e que define o que não é - o Outro. O Ser, incorporando em si toda realidade possível, absorve a possibilidade mesma de pensar a realidade, transforma-se na pretensamente única realidade pensável, e dá início ao processo de Onto-logia - a história da filosofia grega, acompanhando pari passu a história dos horrores da História e dos desafios a ela.

No âmbito da ontologia como filosofia maior, nada se pode pensar propriamente além dela - para ela, fora dela nada há. É preciso destituí-la de seu status intocado e erigir uma alternativa em seu lugar, em um processo semelhante a um salto mortal filosófico, onde se arrisca tudo em nome de uma paradoxia frutífera e nova.

Esta substituição coloca a Ética no posto de filosofia maior, em relação à qual todos os outros ramos filosóficos são em última análise dependentes, ou seja, de quem, em última instância, recebem seu sentido último. Agora não interessa mais primariamente o conhecer - direção original da intencionalidade fenomenológica - mas sim o agir ético a partir da recepção do Outro enquanto tal - em uma Metafenomenologia que inverte a direção da intencionalidade e, por extensão, de todo o passado do modo de conhecer ocidental.

Aí pode o Outro, abstratamente preservado, falar sua língua natal, aí pode o Outro reencontrar sua concretude absoluta, sua indissolubilidade no tecido da Totalidade, primeira ruptura da tautologia totalizante sempre revivida ao longo dos séculos.

O Outro escapa assim da teia ontológica e mergulha no abismo de inumeráveis possíveis contradições, lógicas e gnoseológicas; abre os flancos à crítica da não existência: a mais corrente da história e a mais incisiva e definitiva; navega na imponderabilidade do desconhecido e tem somente - e suficientemente - a Ética a lastreá-lo e a norteá-lo: prenúncio da novidade absoluta, desafio e perigo, possibilidade de uma história nova.


3 - O Encontro com a Novidade absoluta e a construção da ordem nova - o Outro na Filosofia da Libertação


A intuição da Alteridade absoluta que permanece para além da visibilidade ontológica, que é apesar de não Ser - e apesar do verbo "ser" -, que vive uma vida própria, não resolvida, não sincronizada na ordem do logos, que respira uma atmosfera  que nós não conhecemos, que, em uma palavra, porta sua própria inteligibilidade - esta intuição traz consigo o maior potencial subversivo da história do pensamento até agora. Se Marx ainda é por demais hegeliano, esta intuição pode vir a delimitar claramente entre seu sistema e sua linguagem e seu conteúdo precisou; se Benjamin  - com muitos outros - fala uma linguagem ontológica para tentar penetrar e valorizar suas sombras - esta intuição ilumina as fronteiras da Ontologia de forma inequívoca, alivia construtivamente a tensão perpetuamente estabelecida e pode vir a subverter a subversão ingênua e bem-comportada.

Para que tal se dê, porém, é necessária a inserção histórica da categoria de Alteridade absoluta, agora já suficientemente presente em sua ausência para justificar um tal esforço metodológico em bases amplas. A máxima concreção tem de servir de idéia regulativa neste contexto, para que a suma abstração "metalógica" já atingida não se perca nas precariedades da linguagem que tende sempre à objetivação e à neutralização.

É neste contexto e a partir desta intuição que se estabelece um dos ramos principais da filosofia latino-americana - a Filosofia da Libertação, principalmente a partir da obra de Enrique Dussel[3]. O Outro, o diferente existente cujo máximo conteúdo é sua diferença mesma - esta entidade quase improvável - apresenta uma superfície de exposição a ser percebida e respeitada. Na extrema abstração levinasiana já ocorre tal[4], porém aqui tal concreção assume proporções inusitadas, proporcionais à urgência da tarefa ética a ser realizada - a libertação da opressão e da exploração crônicas. O Outro é o oprimido, multiplicado indefinidamente pela história violenta em cada nova geração tornada velha pelo déjà vu de um ciclo tautologizante, mas reencontrado diuturnamente em cada momento e em cada espaço existente nestes contextos latino-americanos, nas franjas do Ser forte, na indignidade do não ser nada, nem para si, na violência que de-fine suas impossibilidades e nas suas possibilidades utópicas abertas, infinitas em sua virtualidade.

O Outro absoluto, inteligibilidade para si mesmo, espraia inteligibilidade em torno a si, refunda eticamente a possibilidade de um futuro propriamente futuro: julga eticamente a história, ao diacronizar os múltiplos mundos humanos possíveis em torno a um novum que se traduz em uma potencialidade ética inusitada. A ética qua prima philosophia envolve o presente, estala a totalidade de sentido fechado, abre uma brecha na realidade monolítica e auto-suficiente - a urgência assume contornos claros. O sentido da realidade mesma se transmuta. No aqui e agora, mais importante do que investigar os quarks e a origem do universo, é compreender que a essência do universo é constituir-se em um gigantesco palco, onde um grande, ilimitado drama ético se tem de desenrolar. Isto é a ética como filosofia maior, é isto o Outro absoluto como idéia reguladora: a realidade tem muitas faces para além da dimensão ontologicamente definida e de suas contingências.

4- Conclusão - a novidade para além da Totalidade


A categoria "Outro absoluto", crítica per se da Totalidade vigente, irrompe em um mundo desacostumado a novidades verdadeiras, porta o sentido de um desafio à racionalidade conhecida, apresenta-se: à apresentação seguem-se as indagações e a percepção do desconforto intelectual. Este tem de permanecer; as possíveis respostas a ele não se podem acoplar à sua indagação originária e originante, ética, oriunda de um "passado tão antigo, que nunca foi presente" - no dizer levinasiano - e apontando para um futuro que o presente não pode propriamente nem antever. Uma reflexão se inicia; o sentido da questão do Outro radicalmente não-totalitário e não-totalizado na Filosofia da Libertação - e em qualquer filosofia - é que a exigência ética absoluta, a urgência radical da realidade e da vida para além da Totalidade não pode ser traída.


(Anteriormente em Momento 1995)



[1]O Outro absoluto enquanto Deus, dos Padres da Igreja a Horkheimer, permanece fora de nossas considerações presentes.
[2]Den Haag, 1961
[3]Veja-se por exemplo a obra Filosofia da Libertação, Belo Horizonte, 1979
[4]Veja-se os protótipos levinasianos de Alteridade humana, segundo uma longa tradção semita: o pobre, o órfão, a viúva, o estrangeiro.

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