A IRRUPÇÃO DA TEMPORALIDADE EM UM SÉCULO ESQUIZOFRÊNICO



A IRRUPÇÃO DA TEMPORALIDADE EM UM SÉCULO ESQUIZOFRÊNICO



Ricardo Timm de Souza


            Séculos de onipotência de um determinado modelo hegemônico racional em vigor indiscutível no ocidente, o mesmo que legou às gerações recentes – inclusive a nossa – os maiores avanços científicos da história, nas mais diferentes áreas, iniciam, relativamente avançado o século XIX, um processo paulatino, porém inexorável, de falência de fundamentos, de crise de alicerces, de esboroamento fático, histórico e categorial. A traumática redescoberta da temporalidade, após os desmedidos esforços que o pensamento filosófico, desde os gregos, geralmente incitou para exorcizar esse monstro devorador da realidade já dada de seu espectro de domínio e observação, não faz mais do que evidenciar a que ponto chega a patologia da razão onipotente nos inícios do século XX, aquela razão que, segundo Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento, não pretendia senão “transformar o universo num gigantesco campo de caça”, pois dispensava qualquer outra razão que não ela mesma. A história da cultura do século XX é, em boa medida, a história dolorosa dessa crescente percepção e da necessidade desse luto. A psicanálise, as novas ciências experimentais que confluem, com a indeterminação, exatamente no nervo exposto de seu pesadelo mais terrível – a perda das rédeas de condução de sua concepção de realidade –, as artes em geral e sua proliferação inusitada de escolas, as revoluções internas das matemáticas e da literatura, tudo isso não atesta senão a inexorabilidade dessa falência. O século XX – que temos chamado de século “esquizofrênico” por excelência, visto que as maiores habilidades e conquistas científicas convivem com os maiores horrores civilizacionais concebíveis – é a própria testemunha eloqüente da decadência de um sonho ingênuo, um sonho conciliatório e impossível entre as formalizações conceituais geradas por pensamento extremamente potente – do qual o Idealismo alemão é o ápice racional – e a facticidade que deita por terra, na concretude, as projeções que pretendiam substituir, de algum modo, o real por algum seu conceito. A história do século XX é o atestado de validade histórico de obras como Os Buddenbrooks, de Thomas Mann e “Guernica”, de Pablo Picasso: é quando esses dois universos se encontram. Será, por sua parte, Franz Kafka que dará, a respeito dessa época inóspita, o melhor e inescapável diagnóstico: um mundo no qual não há vida, um mundo incapaz de viver, onde todos e tudo se transformam, de algum modo, em peças de um Maquinismo, como o Chaplin de “Tempos Modernos”, onde pessoas e coisas se confundem, onde o vivo e o inanimado são igualmente compráveis e vendáveis, é um mundo igualmente incapaz de morte, no qual nem o viver nem o morrer acontecem: um mundo in-diferente, cuja característica principal é, exatamente, a incapacidade real de perceber a diferença pela transformação, através da hipertrofia de um modelo de razão, da diferença (lógica) em indiferença (ética). A contemporaneidade tem sido, não obstante todas as suas aparências de proliferação de variedades e sentidos, um grande palco de transformação de qualidade – a singularidade irredutível a qualquer outra coisa que não a si mesma da Alteridade – em quantidade – a indiferença da quantificação, capaz de reduzir qualquer coisa a um mero número intercambiável com por outro. E, por “coisa”, entende-se aqui todas as dores da existência, toda a vida do que vive e toda a morte do que morre, inclusive as mais tênues fímbrias de esperança.
            Porém, o tempo segue. Tempo que ainda não acabou, e que, portanto, por exíguo que seja para o gigantismo da tarefa, a exige: desconstruir de todos os modos possíveis, em todos os sentido possíveis, a naturalidade da transformação do Outro no Mesmo, da qualidade na quantidade, da existência na superfluidade, da realidade do sofrimento numa quimera colorida ou num incidente irrelevante. E esta não é uma tarefa eletiva: é uma questão de sobrevivência por sobre as aparências coloridas de vida frenética dos últimos espasmos de um tempo circular, enlouquecido em sua rotação.
            Assim, cada um e cada uma que percebe a que ponto tal tarefa é uma tarefa vital não pode deixar de empreendê-la; afinal, não é algum adereço dispensável do mundo, mas, desde cada perspectiva considerada, a vida mesma que está em jogo.
Que que intelectuais de todos os teores e áreas, em todas as posições sociais e nos mais diversos mundos humanos em sua infinidade de configurações descubram o que dá o que pensar; que as instituições sejam corajosas o suficiente para mergulharem em seus próprios constitutivos, recriando o humano que se esconde por trás do conceito de “humanidade”: eis o que temos o direito e o dever de desejar. Pois, afinal, permanece viva como nunca a famosa asserção de Adorno: “só há uma expressão para a verdade: o pensamento que nega a injustiça”.


Porto Alegre, 3 de março de 2010.

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