A CARTA



A carta


Ricardo Timm de Souza

Em princípio, não há diferença entre um
aperto de mãos e um poema.
Paul Celan

I

            Foram algumas semanas de profunda reflexão: Igor não tomaria uma decisão como esta sem pensar muito. Mas talvez não se tratasse de pensar muito ou não; decisões vitais nunca são completamente refletidas. Afinal, arriscar-se a tentar conseguir realizar o sonho de uma vida, ainda que breve, exige muita coragem. Na solidão profunda de seus dez anos de vida, nenhuma decisão de Igor até então se assemelhara àquela. E, ao tomar a decisão final de mandar a carta, Igor sentiu uma solidão mais profunda ainda que a normal, que ameaçava engoli-lo inteiro em seu abismo. E isso seguia o passo normal das coisas: decisões mais simples não eram compartilhadas com ninguém; por que aquela seria? Seus pais não tinham tempo para isso, sempre extenuados pela rotina do trabalho ou dormitando, devastados pelo tédio dos fins-de-semana. Sua irmã mais velha, luminosa, sempre teve mais o que fazer e o que pensar, e, agora que estava de namorado novo, certamente tinha ainda muito mais o que fazer e pensar do que antes. Parentes? Não passavam de figuras fugidias e risonhas, que apareciam e desapareciam com igual rapidez, visitas rápidas, longamente aguardadas ou inesperadas. Não se podia contar com eles, não para tal tipo de questão. Amigos? Serviam para brincar, nada mais; certamente ririam de uma idéia esdrúxula como aquela. Pensar que a sua carta seria a escolhida entre milhões de outras cartas de milhões de outras crianças do Brasil, o quinto maior país do mundo, com milhões de quilômetros quadrados de superfície – Igor sentia calafrios só em pensar em tantos milhões ao mesmo tempo – ? Ainda se o Brasil fosse um país pequenininho, como aquele que ficava dentro de uma cidade, na Europa... Aí ele teria uma chance que sua carta fosse percebida e escolhida, pois um país tão pequeno não teria tantas crianças assim querendo conhecer o seu ídolo. Mas, no Brasil, a idéia era absurda, totalmente boba. Imaginava sua carta esmagada, sufocada, dilacerada por milhões e milhões de outras, e já sentia pena dela. Ela iria certamente para o lixo. Não, nenhuma chance, neste Brasil quase infinito.
            Sim, seus amigos teriam razão em chamá-lo de bobo. Mas, mesmo assim, iria mandá-la. Tratava-se de uma decisão boba, mas se tratava de uma decisão final. Lembrava-se que poderia consultar ainda a avó, que não morava muito perto – quem sabe ela não teria algum argumento que o convencesse a não mandar a carta e a não se decepcionar? Não, ela era sonhadora também; não estragaria um sonho do neto com argumentos de bom-senso, mas se transferiria para dentro daquele sonho infantil, doente que estava, só para naufragar e sofrer quando a carta não fosse a escolhida.

II

            Vários dias depois, Igor se pusera a caminho da caixa de correio da vila. Já era quase a hora do pôr-do-sol, hora em que o dia acaba e quando se perdem coisas, e por isso ele apertava a carta fortemente com a mão esquerda. Olhava só para a frente, para não se desviar nem um milímetro de seu objetivo final. Tão concentrado, que quase esbarrou no velho dono da padaria, que estava na calçada em frente ao seu negócio. – Você tem coragem? – perguntou o velhinho risonho, e estendeu-lhe a mão. Igor estendeu a sua, pequena e branca, para o cumprimento, e, por um momento longo, o contraste de tamanho e forma daquelas mãos pareceu irreal. Enquanto sentia a mão do velho envolvendo a sua, seca como madeira, mas calorosa, seu cérebro voltou a ser atingido novamente por aquela pergunta, como por um raio. Tenho coragem? O que acontecerá se eu ganhar? E se eu não ganhar? Tudo será diferente... Já tinha esquecido esta questão da coragem até que aquele senhor bondoso, sem intenção alguma, a trouxera novamente para o centro das preocupações. Como ter coragem neste mundo assustador? Certamente não tinha coragem alguma, mas o faria assim mesmo. – Sim, respondeu.


III

            - Onde vais, querido,a esta hora? Você é tão pequeno. Não, ele não era pequeno, era do tamanho certo; mas, agora, sentiu-se diminuindo até quase desaparecer na sombra projetada pelo concreto escuro das casas crepusculares da rua. Mas não era uma pequenez física, era uma pequenez da humilhação. E ser pequeno era, agora, ser humilhado, sua pequenez ridícula, um anão pretensioso, carregando um envelope que poderia conter todas as mensagens do mundo, porém só continha o fruto de uma obstinação boba. Flagrada em sua insignificância, a carta levanta vôo; cospe fora suas letras infantis e é preenchida por decretos realmente importantes, ornada pela credibilidade das coisas que estão votadas a sobreviver neste mundo. Mas como a humilde carta, o envelope quase transparente, poderia sobreviver a coisas realmente importantes? Nada havia ali de importante; nada ali importava a ninguém, a mais ninguém, e importava a ele de uma forma que não poderia ter esperança alguma que alguém entendesse. Eis o seu destino, e o da carta. Uma lágrima se insinua pelo canto do olho, logo desaparecida ou disfarçada.


IV

            - Não, a professora! Droga, o que ela pensará de mim? Está me vendo, não há mais como escapar. – Igor, tudo bem? Viu como acertei seu nome na primeira vez? – Oi, professora, não é nada, só vou ali botar uma carta na caixa do correio. – Então até segunda-feira. Uma carta! Como pudera referir-se à sua carta como, simplesmente, uma carta insignificante? Uma profunda vergonha. A sua carta. Bem, pelo menos a professora não havia visto a tal carta; poderia ter ficado curiosa a respeito do conteúdo. Mas como ela não vira, se o envelope era tão visível e ele nem tentara escondê-lo? Como não ver um enorme envelope de correio? Perto da insignificância pessoal que sentia agora, a humilhação anterior não era nada. Um guri com um envelope na mão era então, mesmo para sua professora, que acertara o seu nome na primeira tentativa, o cúmulo do desprezível, nem ao menos existia, era uma miragem abandonável com um piscar de olhos, algo que, de fato, nunca houvera estado ali. O nada perfeito.


V

            A motocicleta – não, eram as motocicletas, quem saberia quantas? – rugiam de longe. E subitamente Igor, que após estes choques voltara a coincidir com sua silhueta, deseja retornar ao estado de não-ser. Deseja desesperadamente. Pois sabia do que aqueles motoqueiros arruaceiros eram capazes, embora nunca houvesse sido alvo de suas atenções. Já podia ver a poeira levantando ao longe, no fim da rua acanhada. E se roubassem a carta, só para rir de sua cara? Aí certamente rasgariam a carta, para agredi-lo. Bem, acabou – já se considerava dolorosamente livre da responsabilidade que tão bobamente assumira. Tudo acabaria logo, e isto seria melhor sob todos os aspectos: a carta não teria sido senão um pesadelo patético. Ocupado por estes pensamentos consoladores, Igor não poderia imaginar o que se seguiria. Mas, subitamente, ele se deu conta. Você é mesmo idiota – pensou, ou foi atingido por esta idéia, novamente como se fosse um raio. É claro que eles não iriam rasgar nada. Eles iriam abrir e ler. E ler. E começariam por dizer como alguém conseguia escrever daquele jeito, como uma letra tão feia e raquítica? Mas isso seria apenas o prelúdio da dança satânica. Pois então leriam realmente o conteúdo, a criancice horrível do sonho ali expresso. Que bobagem horrorosa Igor havia escrito! “Meu coração sonha te ver de perto” – fora sua escolha final, após muitas hesitações, para a frase que concorreria com milhões de outras frases. Igor sentiu-se um bebê sujo, balbuciante, um bebê grande e totalmente retardado. “Olha o moleque retardado” – diriam. – Como alguém pode ser tão bobo? – Por que já não pede para morar com ele? O deboche gargalhante reduziria o bebê retardado a nada, novamente. O que fazer?


VI

            Mas, no momento em que os faróis das motos apontaram na esquina, oscilantes como lanternas conduzidas por bêbados, antes de se aprumarem e seguirem sua trajetória de aproximação, Igor sentiu uma mão pesada em seu braço. Por um momento, nem conseguiu localizar de quem seria, de tal forma a rua estava cheia naquele momento. Mas, disfarçando o susto, virou-se com esforço, para ver um sorriso aberto que o fitava – um sorriso aberto demais. Era João, o Bobo. João tivera meningite, dizia-se na cidade, e ficara bobo, mas inofensivo. Só queria sorrir para as pessoas, acariciá-las e seguir saltitante o seu caminho. Igor não pode deixar de retribuir o sorriso. – O que você quer? Perguntou, sabendo que não obteria resposta. João permanecia ali. Nada dizia, nada fazia. As motos passaram muito perto, quase em cima, o suficiente para um dos pilotos dar um empurrão em João, sem nenhuma palavra. Por uma fração de segundo, Igor distinguiu uma sombra no rosto de João, uma sombra absolutamente negra, que nunca vira ali nas muitas outras vezes que o encontrara. Mas a sombra logo se diluiu numa face de madeira e escorregou para aquela máscara de permanente sorriso. João ainda era João, e Igor ainda era Igor. Igor teve muita vontade de abraçar João, mas não o fez.


VII

            Num rápido inventário, Igor percebeu que raramente encontrara tantos vizinhos ao mesmo tempo, e a eles se somavam desconhecidos que apinhavam a rua, como numa festa – sim, como numa festa de rua. Mas não era dia de festa. Alguns passantes benévolos, outros – muitos – indiferentes, vários outros hostis; era se como se representantes dos mais diversos grupos não só da vila, como de toda a cidade e até mesmo do mundo, tivessem convergido ao crepúsculo para se encontrarem naquela rua, não exatamente larga, mas por quê? Mas não se moviam rapidamente. Lembrava um verdadeiro e concorrido féretro. Por que se lembrou dessa palavra? O que ela significaria? Demorou-se a recordar de onde a ouvia, às vezes – era no rádio do bar ou da avó, anunciando mortes e sepultamentos. Era isso. Ele não estava morto, mas se dirigia à sua morte. As pessoas, os animais e até seus inimigos tinham vindo se despedir. Aquelas centenas representavam milhões de outras pelo mundo. Ou talvez já estivesse morto e não soubesse. A carta era seu testamento. Mas seu testamento seria depositado na tumba, a caixa de correio, e ele permaneceria vivo. Que morte idiota essa, tão boba quanto o desejo escondido dentro do envelope. Morte de fantasia. Aquela gente estava ali porque estava, só isso.


VIII

            - O que acontecerá se eu ganhar? E se eu não ganhar? Subitamente, uma onda de fúria perpassou o corpo de Igor. Deu-se conta de que nada mudaria. Um sonho inútil. Tudo continuaria igual, é claro. Bolinha, sua cachorra, continuaria doente ou até morreria logo; seus pais continuariam a fingir que se importavam um com o outro e com os filhos, continuariam a fingir que se importavam com alguma coisa; as aulas seguiriam chatas, dias após dias; a irmã mais velha apareceria com mais um novo namorado e mais outro, e ainda um outro. Ele permaneceria igual, pequeno e insignificante. Tudo permaneceria igual. O que encontrar seu ídolo poderia mudar em sua vida esquisita? Certamente não era para impressionar alguém que ele se dava aqueles esforços, que há muito já tinham superado os limite de suas forças emocionais. Era apenas para si mesmo, e por isso fora tão sincero na carta. Mas a sinceridade não servia para nada, não fazia sua carta ficar melhor do que as milhões de outras enviadas por milhões de outras crianças sinceras com palavras e sentimentos sinceros. Tudo permaneceria igual. O caminhão do lixo, que passava lentamente, exalou seu odor nauseabundo. A fúria de Igor transformou-se, subitamente, em gelo.


IX

            Mas ganhar é um tipo de escolha. Escolha do destino. Como eram felizes os escolhidos pelo destino! Como eram felizes os ganhadores das loterias e dos prêmios! E nem ao menos tiveram de ser sinceros; bastou comprarem um bilhete aparentemente igual a milhões de outros. E esse bilhete, um papel como qualquer outro, era seu passaporte para fora do mundo. Para sempre fora do mundo do barulho, da gritaria e do mau-cheiro. Para sempre em um mundo onde Bolinha seria certamente curada. Só eles conheciam o sentido do antes e do depois. E para isso não necessitavam de sinceridade alguma, só do destino. Enquanto milhões de outros diziam “foi o destino” para coisas ruins, uns pouquíssimos diziam “foi o destino” para essas coisas extraordinárias. E uma coisa boa, gigantesca, como aquela – ser o escolhido, uma loteria ainda muito mais difícil do que uma loteria comum, comandada pelas máquinas redondas que via na televisão – diluiria até mesmo o amargor dos velhos. E dos novos também, se ele, amargo, servisse de exemplo para alguma coisa. Estranhou mais uma vez essa palavra. Amargo. Era o que queriam dizer quando o chamavam de chato. Amargo: sem açúcar, sem graça, sempre incomodando; chato. Ele era um chato, alguém que ocupava espaços alheios ainda que tentasse ao máximo recolher-se a si mesmo. Não tinha como não ser um chato – amargo, para os adultos, que queriam que ele risse mais de coisas bobas. E essa idéia de concorrer nesse concurso idiota era uma idéia enormemente chata, que só poderia sair da cabeça de um chato. Primeiro, o envelope. Depois, selos adequados. Na dúvida, muitos selos comprados, todos colados no envelope – mal sobrou algum espaço para o endereço com sua letra desajeitada – que saíra ainda mais desajeitada que o normal, para caber num espaço tão pequeno. Mas... e se o correio pensasse que era brincadeira? Tantos selos para uma viagem tão curta – só poderia ser brincadeira, mais uma brincadeira chata e desrespeitosa com os ocupados funcionários, como um trote dirigido aos bombeiros: não qualquer brincadeira, mas uma brincadeira de mau-gosto, como só fazia gente de mau-caráter ou, no máximo, crianças bobas e chatas.
           

X

            Mas talvez vissem que não era, de modo algum, brincadeira, e sim uma coisa muito séria, que demorara muito tempo para ser pensada em todos os detalhes. Talvez percebessem isso claramente. Já via a cena. O primeiro funcionário: “droga, mais uma brincadeira idiota para nos fazer perder tempo”. O segundo funcionário: “não, olha bem, não é brincadeira. É medo que a carta não chegue por falta de selos”. O primeiro funcionário concordando com a cabeça: “pode ser...”. Um calafrio de prazer percorreu seu corpo. Não tinham como não entender suas intenções. Porém... e se fosse uma máquina que fizesse a seleção? Sabia que ultimamente os correios usavam cada vez mais máquinas, havia até propagandas sobre a modernização dos correios. Aí sim estaria tudo perdido. Uma máquina simplesmente separaria as cartas sérias, corretas, das cartas desajeitadas, das brincadeiras. E havia uma enorme chance de a máquina entender que sua carta não era uma carta correta. Selos demais. A máquina não entende sentimentos humanos. Ela só quer que as coisas funcionem. E como poderia aquele envelope estranho, desajeitado, ser uma carta decente? Um envelope que, com as idas e vindas, já havia assumido uma aparência velha, gasta, usada, embora nunca o tivesse sido. Mais uma vez, Igor sentiu raiva de si mesmo; com medo de perder o envelope, o amassava cada vez mais. Sua aparência era cada vez pior. O envelope já refletia o seu estado de alma.


XI

            O envelope... custara caro. Tivera que comprar dez envelopes de uma só vez, pois não vendiam unidades isoladas. Não contava com isso. Lá se fora o dinheiro inicialmente previsto para os selos, naqueles nove envelopes inúteis. Nove envelopes bem arrumados no chão, em semicírculo, fariam a imagem exata de um belo sorriso cínico, como ele mesmo experimentou fazer – um sorriso que lhe lembraria para sempre de não ser tão bobo. Poderia mandar dez cartas no total – na televisão, diziam que cada um mandasse quantas cartas quisesse, e quantas mais, mais chances de ganhar. Mas ele não tinha dinheiro para tantos selos. E este, embora fosse um impedimento considerável, não era a razão maior pela qual mandara uma, e apenas uma, carta. Pois não conseguiria ser sincero em dez cartas. No máximo ao escrever a quarta ou a quinta, perderia a sinceridade e começaria a escrever a frase mecanicamente. Mas uma carta não pode ser escrita de forma mecânica... por isso diziam, na televisão, que só seria escolhidas cartas escritas à mão pelos remetentes... À mão... o remetente tinha que estar inteiro na carta, na frase. E isso ele estava. Estava até com medo de perder a si mesmo no momento em que a carta fosse introduzida na fenda da caixa de correio. Pois aí não haveria mais volta. Pelo menos uma parte dele teria se ido para sempre. Nada mais seria como antes. Igor retesou-se completamente para agüentar o súbito peso dessa idéia.


XI

            Uma carta! Quem ainda escreve cartas? Certamente não crianças, que deveriam estar no pátio, saltitando suas alegrias e irresponsabilidades, ou hipnotizadas pela televisão. Cartas contêm coisas grandes, mensagens urgentes, notícias extraordinárias, saudades distantes... nunca loucuras, como a vontade de ser escolhida entre milhões de outras. E, pior que uma carta louca ou boba, só uma carta suja. O envelope já caíra no chão várias vezes, e sofrera os efeitos do nervosismo suado de Igor em sua textura. Nada pareceria menos do que uma carta que nem ainda fizera sua viagem do aquele envelope sujo, desajeitado e meio dobrado. Aí mais um motivo para não levar esta carta a sério. Já podia ver o rosto da severa funcionária, ao fim do dia de trabalho, cheia de preocupações, que pegasse aquela carta para classificar. – Que nojo! – Como há gente porca no mundo! O único lugar para onde esta carta irá é o lixo, diria. E se ele trocasse de envelope? Os nove envelopes restantes repousavam na gaveta. Mas os selos já estavam naquele envelope, ele os colara ali rapidamente, com medo de perdê-los... seria impossível destacá-los e colá-los novamente sem rasgar algum. E selos novos estavam fora de cogitação. A carta teria de seguir assim, como uma mendiga expondo suas misérias, e com poucas esperanças de encontrar uma alma caridosa em seu caminho.


XII

            Igor deu-se conta de que estava cansado. Quase diria, como os personagens dos filmes: mortalmente cansado. Que tal largar a carta no lixo e não pensar mais naquilo? Mas seus pés cansados continuavam o caminho. Foi então que notou a menininha que o seguia. O que desejaria ela? Estaria perdida? Teria também uma carta para enviar? Não via carta alguma em sua mão, mas ela bem poderia ter escondido em algum lugar. Ia, como ele, em direção à caixa de correio. Talvez fosse pequena demais para alcançar a caixa, e pensou que ele poderia ajudá-la. Ficou com medo até de perguntar, para não assustá-la. Ela o seguia, só isso. Um fragmento inofensivo naquele frenesi perigoso da rua agora quase completamente noturna. Igor olhou para a carta, e novamente para ela. Talvez não tivesse dinheiro para escrever uma carta. E se desse a carta para ela? Poderia trocar o nome, e então ela seria a escolhida. Mas o nome estava não só no envelope, como no interior também... não poderia abrir o envelope sem rasgá-lo e estragar tudo. Aquele envelope era definitivo. E não tinha tempo para ir buscar outro envelope para a carta da menina. Então se deu conta de que tudo aquilo era bobagem – talvez a menininha nem ao menos soubesse o que era uma carta, afinal, de tão pequena que era.


XIII

            Lá estava, finalmente, a caixa de correio, com seu pálido amarelo destacado na noite, agora completa, pela iluminação que recebia da rua. Eram alguns metros que faltavam para o fim da solitária aventura de Igor – uma aventura que só perdera sua solidão absoluta nos últimos passos de sua jornada, pela presença silenciosa da menina. Agora não havia mais volta, nem espaço para pensamentos. As pernas de Igor, tomadas por um torpor extremo, só se moviam por efeito da inércia do caminhar. Seu coração, que antes batera tão rápido, agora ameaçava parar. Já não sentia a carta em sua mão, de tal modo a apertava; ela quase se tornara uma parte dele mesmo. Alguns relâmpagos atravessavam o seu cérebro. Reviu suas lutas, nascidas de uma vontade ingênua; reviu os monstruosos obstáculos que tivera que enfrentar, desproporcionais ao seu tamanho. Agora já não se sentia nem grande como seu sonho, nem insignificante como outros o viam. Apenas se sentia pesado, velho – então, velhice era aquilo? – após uma jornada intensa e dolorida como uma navalha cortando, sem anestesia, a carne da sensibilidade. Sentia frio, embora fizesse calor; era o frio do escuro que cercava quase todas as coisas naquela rua; quase todas; a caixa de correio continuava vagamente iluminada, um convite amordaçado. E lá estava a silhueta da menina, que com passos curtos o seguia, bem de perto. O que ela queria, afinal? Por que não dizia nada? Em certos momentos até o tocava. Se fosse malvado, poderia bater nela, pois era muito chata em sua mudez. Mas não faria isso. Não faria nada, a não ser enfiar a maldita carta na boca negra da caixa de correio. Já pensava na volta, se teria forças para chegar até em casa. Mas nisso pensaria depois. Ou nem pensaria nisso. Talvez nem pensasse em mais nada, nunca mais. Talvez ficasse totalmente bobo, como João. Talvez enlouquecesse. Mas agora só podia fazer aquilo. Igor deixou cair a carta no interior da caixa. Nem chegou a ouvir o suave ruído que o envelope fez ao se chocar com seus companheiros, pois logo se virou, com olhar vago e distante.


São Francisco de Paula/Porto Alegre, janeiro – outubro de 2003

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